Breve História de Galamares

500x500

Galamares, na freguesia de S.Martinho, em Sintra, é um local onde o rural e o bucólico se cruzam e ao mesmo tempo onde estórias da História ocorreram e que aqui nos propomos contar, sem preocupações sistemáticas .

Das páginas 149 a 151 da obra “CINTRA PINTURESCA-Memoria Descriptiva da Villa de Cintra, Collares e seus arredores” – 1838, do Visconde de Juromenha, consta uma “descripção da villa de Collares” de há 170 anos atrás. Nela faz-se referência a “Gallamares”, supostamente vocábulo corrupto de “Alaga-Mares” por chegar antigamente a maré àquele sítio, inundando-se, na enchente, o vale por ela percorrido. O autor faz referência à perda de navegabilidade do rio Colares, tendo-se tornado o seu leito, no estio, “vadiavel em toda a parte” (percorrível a pé?). Dever-se-á, segundo o Visconde, a duas causas concorrentes: (i) o progressivo assoreamento da foz, antigamente “limpa e funda“, por onde acediam as embarcações que demandavam o porto de Colares, (ii) e as retiradas de água da ribeira para a rega dos pomares. É ainda referido que, já no ano de 1154, no foral de Cintra, se designava este rio por “Galamar” e que os nomes de alguns sítios em redor do mesmo rio de Collares, designados Porto, Reconcavo, Terra Firme, Auguaria, etc. de alguma forma fundamentam “a conjectura tradiccional de o mar ter occupado estes campos e areaes, a que ainda chamão marinhas, que hoje se veem aproveitados em vinhas e pinhaes”.

 Pouco povoada, como os inquéritos mandados fazer em 1758 pelo Marquês de Pombal o deixam antever-pouco mais de 40 “vizinhos”, surge no século XIX associada à primeira viagem de balão que se realizou em Portugal, e que vem descrita na Gazeta de Lisboa de 21 de Março de 1819 :

Havia 24 para 25 anos (desde 24 de Agosto de 1794) que esta capital não gozava do magnífico espectáculo de uma viagem aerostática, que é sem dúvida um dos mais maravilhosos efeitos dos progressos das ciências nos últimos tempos, quando no dia 14 do corrente Março se viu renovado este esplêndido divertimento de um modo o mais brilhante que neste género se tem visto.

Tendo há tempos Mr. Robertson, bem conhecido na Europa por seus conhecimentos práticos de Física experimental, chegado de França com seu filho, mancebo de coisa de 20 anos, a esta capital, e tendo pedido e alcançado licença para fazer uma ascensão aerostática, aumentando com esta o número de muitas que tem feito em diversos países, designou executá-la a 28 de Fevereiro; mas não o permitindo o tempo chuvoso, ficou transferida para o dia de domingo 14 de Março, o qual amanheceu com todo o brilho que neste delicioso clima se goza em tempo de estio, e particularmente na Primavera.

Era o sitio destinado para esta operação a formosa Quinta da Excelentíssima Condessa de Anadia, a S. João dos Bem Casados, que S. Exa. generosamente se dignou prestar a Mr. Robertson para este fim, e cuja situação elevada oferecia um excelente ponto para a partida do aeronauta, desfrutando-se esta ao mesmo tempo de diversos lugares eminentes. Em uma área espaçosa desta Quinta se tinham destinado lugares de primeira e segunda ordem para um avultado número de subscritores que desejavam presencear de perto à operação de encher a máquina, para cujo fim estabeleceu no centro o hábil físico um aparelho pneumato-químico formado de 14 tonéis, de 8 dos quais só precisou extrair o gás, começando a trabalhar das nove e meia para as dez horas da manhã. Por volta da uma hora encheu o dito Professor um globozinho, que tinha as armas reais, e o levou à Excelentíssima Condessa de Anadia para S. Exa. se dignar de o soltar, e elevando-se ao ar, tomou a direcção do Noroeste, o que deu a conhecer aos espectadores qual deveria ser o rumo que seguiria o aeronauta, cujo balão grande, de 21 pés de diâmetro, já então estava cheio e pronto a partir. Para entreter porém mais os espectadores até à partida do seu balão, lançou Mr. Robertson mais alguns pequenos aeróstatos, tendo o último o feitio de um avultado peixe. Tocavam de vez em quando os músicos da Guarda real da Polícia, que se achavam no recinto, lindas sonatas, que animavam mais o vivo interesse que se divisava naquela conspícua assembleia.

Esperava o público que seria Mr. Robertson, pai, o que subiria aos ares, e tal fora sempre a geral expectação, quando seu filho, o mancebo Robertson, desejando segui-lo nesta carreira, testemunha da maior parte das ascensões aéreas de seu pai, e tendo já subido com ele aos ares em Viena, instou lhe concedesse datar deste dia, e em tão brilhante ajuntamento a época da sua primeira ascensão aerostática em que fosse ele só. Tendo o pai anuído aos seus rogos, e certo de que se achava capaz de bem desempenhar esta arriscada empresa, entrou na barquinha o mancebo Robertson pelas duas horas e um quarto, e elevando-se um pouco a máquina, ainda preza por algumas guias, girou em torno da assembleia que ocupava o recinto, espalhando por cima dos espectadores vários papéis de versos análogos ao espectáculo. Baixou depois disto, e marcando os grãos do termómetro e do barómetro que levava, e as horas do seu relógio, se elevou pelas duas horas e três quartos, e na altura de coisa de 15 braças, lançando abaixo a bandeira, e descobrindo-se, bradou três vezes Viva El Rei, ao que respondeu o imenso concurso dos circunstantes. Foi-se o globo entre vivas e aplausos elevando majestosamente com grande serenidade, e quase perpendicularmente por grande espaço, indo entretanto o aeronauta deitando, até já ir em grande altura, mãos cheias de papéis de várias poesias impressas para esse fim.

Um quarto de hora depois da partida, vendo o aeronauta debaixo de seus pés uma bela povoação (que era Benfica), abriu a válvula do balão para descer, e falando, apartado do chão a altura das casas, com o povo que ali se apinhara, espalhou alguns papéis, e aliviando de algum lastro a barquinha, bradando Viva El Rei, tornou a elevar-se a maior altura, calculada em três quartos de légua nesta segunda subida, na qual, muito mais alta que a primeira, deu o jovem físico grande prova de sua intrepidez e talento.

Vendo-se já quase iminente ao mar, abriu de novo o registo do balão para subir o gás, e foi descendo contrariado pelo vento, chegando a terra pelas 4 horas e meia, num campo lavrado perto do sitio de Galamares (meia légua ao poente de Sintra), onde lhe prestou o mais oportuno auxílio para subjugar o balão o R.P. Fr. Carlos da Conceição, dos Capuchinhos da Serra. Os habitantes do campo correram também a qual mais desvelado o havia de ajudar, e foi conduzido o intrépido aeronauta como em triunfo a Sintra entre clamores de júbilo, e não se farta de expressar quanto o seu coração se acha penhorado pelo obséquio que ali de todos recebeu.

Com o advento do romantismo, veio a moda da vilegiatura.

Irene Lisboa foi mais uma das figuras que elegeu esta terra como local de vilegiatura, terra que os médicos recomendavam como bons para doenças de pulmões. Nos anos 40 inclusive chegaram a funcionar sete pensões numa terra de pouco mais de 300 habitantes-á época.

Falar de Galamares nos últimos 50 anos é falar da esplanada do Alcino, as Caves de S.Martinho, inauguradas em 1949,e que durante décadas funcionou como pensão, restaurante e café. Muitos  veraneantes dos anos sessenta e setenta ,ali assistiram  ás tertúlias nocturnas de Agosto quando as famílias da capital vinham a banhos, e alugavam toldo ao mês na Praia das Maçãs, e se vestiam para ir á noite ao café, local de encontro social onde chegou a haver uma jukebox, se admiraram os shows de ilusionismo do Xaimix ,e se chegou a pagar para assistir aos jogos do Mundial de Inglaterra, em 66.

Galamares como terra de vilegiatura e de casas esparsas,nasceu como núcleo urbano mais vincado -se bem que irregular- já no início do século XX, a partir da expansão populacional motivada sobretudo pela fixação de famílias que de alguma forma trabalharam para o Visconde de Monserrate e que pela zona da Sanfanha, e depois mais junto á Estrada Nacional nº247 se estabeleceram.

Deve-se ao Visconde de Monserrate o Salão de Galamares, bem como a água cedida através de chafariz público desde 1905.Após a sua morte, e com a dispersão e venda do património e palácio nos anos 40,muito da primitiva propriedade foi desmembrado, tendo ficado como um dos principais proprietários o seu administrador, Guilherme Oram,que por seu turno foi vendendo e destacando parcelas, ue se estendiam da Ponte Redonda ao Pinhal das Cavalhadas, e onde, sobretudo a partir dos anos 40 surgiram casas burguesas de veraneio, muito procuradas para se apanharem os “ares ” da serra, a conselho médico, resultantes de vendas efectuadas(um terreno nos anos 40 custava a módica quantia de 15 contos!).

Entre os veraneantes famosos contaram-se Barahona Fernandes, professor e percursor da psiquiatria em Portugal, reitor da Universidade de Lisboa entre 1974 e 1977;Alfredo Guisado, escritor,companheiro de Pessoa e Almada e director nos anos 30 do jornal República;José Gomes Ferreira, escritor,com poemas escritos nas Caves de S.Martinho, que se podem ler nomeadamente no seu livro Poeta Militante; Reinaldo dos Santos,médico eminente; João Medina, professor catedrático da Faculdade de Letras; o radialista Ferreira da Costa,que cobriu as guerras coloniais em África; Maria Eugénia Cunhal, irmã de Álvaro Cunhal,etc

José Gomes Ferreira foi um dos escritores  que ali passou algumas temporadas, tendo escrito alguns dos seus poemas nas Caves de S.Martinho-“o café do Alcino”-onde se passavam fins de tarde serenos e noites á conversa.

jgomesf2

 Evoquemo-lo num poema que bem poderia ter sido escrito na sua esplanada, extraído da colectânea Poeta Militante:
Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão

a vê-lo correr

da imaginação

A seguir,tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

a concebê-las

Depois, encostado á mesa

tirei da boca um pássaro a cantar

e enfeitei com ele a Natureza

das árvores em torno

a cheirarem ao luar

que eu imagino

E agora aqui estou a ouvir

A melodia sem contorno

Deste acaso de existir

-onde só procuro a Beleza

para me iludir

dum destino

IX

“Giestas, silvas, muros, tojo

e este sussuro hermético de um bicho

a roer o tempo

nos olhos dos vivos e dos mortos

– relógios de cinzas.

Coaxar de sapos que respiram pelas estrelas

nesta complicação de palavras

com caveiras que pensam.

Poesia.

(A velha tília do Jardim da casa de Galamares… Ali, o Pitum e o Raul José, com risos de adolescência, sonharam instalar um Retiro de Chá ao ar livre, onde os clientes, a quem serviriam chávenas de água quente, mergulhariam as flores vivas da tília, colhidas dos ramos.)

Nos ramos da tília

Juntam-se em concílio de cristal incerto

os deuses de barbas mortas

escondidos na névoa

dos alçapões sagrados.

Nós também nuvens.

Deuses desabituados.

(Meditação debaixo da tília do Jardim.)

Recordar torna o mundo mais exacto

com réguas de fumo,

ângulos perfeitos de olhos nos astros

– e a inoncência daquele céu pardo

das manhãs inconcretas

que todos se lembram de ser azul

e não verde para lhe chamarmos oceano

ou folha de árvore.

A realidade é mais confusão

máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas,

bocas dependuradas nos ramos e nas corolas,

destinos de morder o vento,

narinas nas flores,

conluio de pássaros com o sol,

as plantas enganaram-se e deram incêndios em vez de rosas,

construção da Cidade da Morte com pele e cal,

ervas pisadas por espectros

– e este cheiro tão bom a sonho

que torna o mundo mais efémero e real.

As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras.”

José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

Outra presença frequenta era o escritor e ensaísta Mário Dionísio.No espólio de Mário Dionísio há fotografias e textos datados que falam do paraíso que era para ele Galamares: entre 1953 e 1957,quando  andava às voltas com a «A Paleta e Mundo», obra em fascículos, cujo primeiro volume acabou de ser publicado em 1956, e o segundo volume em 1962.Mário Dionísio tinha alugado uma casa «ao ano», como se dizia, a casinha então isolada do Sr. José da Quinta, que vivia nas traseiras, ao fundo de uma estrada escalavrada que ia da linha do eléctrico lá para cima, na curva onde se vendiam as belas «nozes douradas de Galamares»…

Começou  por ficar na Pensão Mariana, o «ferro eléctrico», que era mais barata do que as «Caves de S. Martinho» mais conhecidas por «café do Sr. Alcino», onde foi em tempos a sede da Alagamares. Havia então também a Pensão Maria Duarte e a Pensão Moderna.
Os amigos  lá passavam férias ou os iam visitar: Ferreira de Castro,Alfredo Guisado e família,etc.

Existe em Galamares um cine-teatro datado do princípio do século, onde durante anos, mercê da generosidade do visconde de Monserrate se realizaram récitas musicais, teatro amador, cinema, etc, num espaço romântico de fim de século, com balcão e plateia, decorado com pinturas murais e baixos relevos.

Mercê da vontade dos moradores, organizados em turno do Grupo Desportivo de Galamares-GDCG- têm-se realizado festejos, num espaço(o possível) situado no antigo terreno dos Duartes, tendo nos últimos anos sido angariadas verbas para o restauro por conta da população do dito espaço,e tendo até ao presente sido gastos mais de cinquenta mil euros,e faltando ainda o restauro das pinturas e acabamentos vários.

O restauro deste espaço  foi importante. Trata-se do único espaço público de Galamares, ali tocou Viana da Mota em 1923,e se fez teatro nos anos 40 a 60.O desporto, mormente o ciclismo e atletismo teve igualmente algum destaque.

Em Galamares igualmente funcionou durante anos a Casa das Nozes,das nozes douradas,doce típico hoje quase desaparecido. Há que preservar tal tradição!Porque embora más para o colesterol, a memória também passa pelo estômago. E se Sintra tem as queijadas e travesseiros e Belas os fofos,Galamares tem as suas nozes. Quem pega na receita e a continua?

 A partir dos anos 80 o fenómeno da casa de campo foi-se diluindo e muitos ou se fixaram de vez, bem como seus descendentes, ou venderam as casas, tornando a terra, hoje com 1300 habitantes, mais habitada durante todo o ano, com uma população herdeira dos antigos veraneantes ou dos antigos rendeiros e caseiros que por cá ficaram. Muitas figuras públicas moram hoje igualmente em Galamares: Luis Represas e Margarida Pinto Correia; Nuno da Câmara Pereira, Galopim de Carvalho, Cândida Almeida, Rui Vilar e Isabel Alçada, Jardim Gonçalves, etc.Hoje como ontem, á sombra da silhueta de Mil e Uma Noites de Monserrate se vai mantendo o Éden ao pé da Aldeia Grande. Que se mantenha por muitos anos!
Fernando Morais Gomes
Share Button