Chalé da Condessa-uma causa da Alagamares

DOSSIÊ CHALET DA CONDESSA
Uma causa da ALAGAMARES

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De entre o património ao abandono absoluto em Sintra, Património Mundial , ressaltava de forma chocante e até recentemente o chalet romântico de D.Fernando II e sua segunda esposa, Elise Hensler, condessa dEdla, escondido na mata da Pena, e em circunstâncias de abandono desde que foi consumido por um fogo em 1999.
O local vale não só pelo interesse histórico e arquitectónico, mas também pela envolvente, pelos jardins plantados pessoalmente pelo rei e pela condessa, com o apoio do cunhado americano e silvicultor John Slade, destacando-se no jardim original as camélias, trazidas para Sintra pelo próprio D.Fernando.
O chalet da condessa,também conhecido como Casa do Regalo, foi construído entre 1869 e 1875,no talhão XII da parcela C do Parque, propriedade particular na sua totalidade de D.Fernando de Saxe Coburgo, rei viuvo de D.Maria II. Inspirado nos chalets suiços, ninho de amor e refúgio de pintura, concebido para maior privacidade do casal após o segundo casamento, era parcialmente forrado a cortiça, com fachadas de alvenaria a imitar as casas rústicas americanas e pinturas de heras cobrindo as paredes. Tendo em conta o pendor rosacruz de D.Fernando, houve quem prenunciasse o destino trágico do edifício, que acabou consumido pelo fogo, quiçá observado pelo fantasma angustiado da condessa entoando uma ária das que cantou no princípio da sua vida romanesca, até a trazer a Portugal como cantora lírica.
A 12 de Julho de 1890,e morto já D.Fernando, deixando toda a Pena e jardins em herança á condessa, o Estado Português comprou todo o património á mesma, por 410 contos em títulos da dívida pública, acossado por opiniões que entendiam ser um património demasiado importante para ficar nas mãos da estrangeira e segunda esposa do rei defunto. Estrangeira, que aliás, muito fez pela cultura portuguesa, ajudando com bolsas de estudo figuras como Viana da Mota e Columbano Bordalo Pinheiro. A condessa morreu em 1929,em Lisboa,e o seu chalet, esse,foi morrendo entregue á incúria que parecia querer advinhar a fatalidade de 1999,ali quedando em ruínas e sem tecto.

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O PORQUÊ DE UMA CAUSA
Como é sabido,a Alagamares junto com cidadãos amigos de Sintra e defensores da recuperação do património histórico e natural de Sintra(e não só) tem vindo a empenhar-se desde 2006 na causa do restauro do Chalé da Condessa d’Edla, na Pena.
Tal não se deve a devaneio romântico, guerrilha política ou obsessão, mas tão só a fixação de objectivos concretos de um grupo de cidadãos no que á defesa do património compete, e por esse imóvel ser um ex-libris dos menos visíveis quando se fala de Sintra, destoar do conjunto monumental mais conhecido, e ter vindo justamente a ser realçado nos relatórios do ICOMOS sobre a paisagem cultural de Sintra como carente de intervenção urgente.
Uma sociedade onde as sinergias das ditas organizações não governamentais não se faça sentir é uma sociedade amorfa e merecedora do que com ela outros queiram fazer. Não temos veleidades de impor qualquer tipo de solução para os problemas do vasto património sintrense, e sabemos quanto a Verba é inimiga do Verbo, embora felizmente algum dinheiro e projecto estejam a despontar, e agradados ficamos com quem tem desenvolvido esforços nesse sentido. Mas cremos cumprir melhor o nosso dever de cidadãos quando procuramos manter na agenda a defesa e promoção de jóias da nossa coroa, reforçados pelo apelo que os organismos internacionais da área do património fazem para que haja mais participação e diálogo com as populações destinatárias e depositárias desses legados em primeiro lugar (vide, a propósito, a recente Declaração de Aranjuez, subscrita por Sintra, onde se apela á participação construtiva e estimulante da sociedade civil na defesa, promoção e protecção do património(material e imaterial).
O Chalé da Condessa foi um case study da relação dos munícipes com o seu património, e do quanto se está vivo e desperto para causas do Nós que se levadas a bom termo, valorizaram o Eu de cada um, assim tornado mais cidadão e fruidor pleno do legado dos seus antepassados.
Algumas mentes podem ver nestas iniciativas a acção de grupos de pressão quiçá politicamente engajados. Para esses apenas uma resposta: a cidadania não é uma outorga, é um Direito. Como se lia nas paredes deste país a seguir ao 25 de Abril, só o medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo. A sociedade não se manifesta só dentro dos partidos e das corporações, e por muito anémica e desmoralizada que possa estar encontra sempre forças para que haja um pouco mais de azul…
A CONDESSA HERDEIRA
Pode perguntar-se como herdou a Condessa d’Edla o valioso património de seu marido. Reproduzimos aqui parte do testamento de D.Fernando II:
Eu,rei D.Fernando,faço este meu testamento cerrado e disposições de minha última vontade,nos termos seguintes:
Professo a religião católica apostólica romana,na qual sinceramente creio e com cuja fé professo morrer.Declaro que nasci em Viena, Áustria,e que sou filho do duque de Saxe-Coburgo-Gotha e da duquesa Antónia de Saxe Coburgo Gotha(princesa de Kohary);que fui casado em primeiras núpcias com a rainha de Portugal D.Maria II.Dos filhos que do nosso consórcio houve, hoje somente existem el-rei D.Luís I, a infanta D.Antónia (princesa de Hohenzollern),e o infante D.Augusto, os quais, incluindo os filhos da minha falecida filha, a infanta D.Maria Ana(princesa de Saxe),são por direito os herdeiros de duas terças partes dos meus bens, direitos e acções.
Declaro que em segundas núpcias sou casado com a senhora D.Elisa Frederica Hensler, condessa dEdla,tendo tido lugar o nosso consórcio no dia 10 de Junho do ano de 1869,na capela real da sereníssima senhora infanta D.Isabel Maria, em Benfica, não tendo precedido contrato antenupcial.
Por isso o nosso casamento foi feito nos termos do artº 1235º do Código Civil, não comunicando as duas terças partes dos bens que possuía ao tempo do casamento com a minha esposa, conforme o parágrafo 4º do artigo 1109º do mesmo Código. Portanto, constituo a minha muito amada esposa a senhora condessa d’Edla legatária de tudo o que por lei posso dispor. Quero que nos bens que couberem a minha esposa se compreendam os seguintes: móveis, objectos de arte, pratas, loiças, quadros, etc,que se acham nos aposentos ocupados por minha esposa no todo ou em parte, à sua livre escolha, todas as minhas propriedades situadas no concelho de Sintra, tais como, palácio da Pena e pertences, incluindo os chalets, castelo dos Mouros, quinta da Abelheira e pertences, São Miguel e pertences, as tapadas ultimamente compradas, incluindo a tapada nova dos Capuchos, assim como a mobília, prata, loiças e mais recheio do palácio da Pena, dos chalets e das outras casas acima mencionadas.
Peço a minha querida esposa que conserve por minha memória o mesmo sistema de disposição geral das plantações(…)sendo este sistema o único possível e apropriado a estes sítios para lhes conservar aquele carácter sui generis que todos lhe reconhecemos.
Lisboa,Paço das Necessidades,aos 13 de Janeiro de 1885

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Mais tarde, por carta de lei de 25 de Novembro de 1889,o governo de José Luciano de Castro comprou os bens imóveis pertencentes á condessa, por 410 contos ,em 6 títulos de dívida pública, tendo esta permanecido muito tempo como conservadora botânica da propriedade.
Emilia Reis, figura ligada à defesa do Património em Sintra e com um conhecimento profundo dos assuntos relacionados com o Chalet da Condessa, e a vida mesma, deixou em tempos uma sugestão que cremos plenamente justa e aqui se deixa à consideração do provedor da Santa Casa da Misericórdia:o da inauguração dum seu retrato na Misericórdia de Sintra.
Efectivamente, a Condessa , para alem de pioneira no mecenato cultural(pagou bolsas de estudo a Viana da Mota e Rafael Bordalo Pinheiro, entre outros)foi benemérita da Misericórdia.
Segundo Emilia Reis, que em grande parte forneceu os dados mais relevantes para a elaboração de artigos e livros sobre a (re)descoberta da figura romântica da cantora de ópera que foi segunda esposa do nosso rei D.Fernando II, existe inclusive uma acta da Misericórdia de 13 de Outubro de 1882 noticiando que a Condessa tinha oferecido “a quantia de 112:500 reis, produto da venda de diferentes objectos de madeira creada no Real Parque Da Pena, ahi feitos e vendidos“, com a finalidade de serem utilizados em obras no Hospital, o que aconteceu com a criação de uma enfermaria para alienados. Também contemplou a Misericórdia no seu testamento. Ora, no contexto da valorização de figuras que não sendo de Sintra foram mais sintrenses que muitos que de local só têm o registo(e hoje muitos nem isso, pois há muitos anos que não há maternidade em Sintra)porque não prestar essa singela mas significativa homenagem?
Do apoio à Misericórdia local á manutenção dos jardins da Pena, muito fez esta suiça-americana, mas portuguesa de coração, por Sintra,que deveria procurar assinalar esta data com uma exposição ou brochura sobre a sua vida, para muitos desconhecida, e que nós, em colóquios, visitas e manifestos diversas vezes destacámos, inclusive com uma página no Facebook.
A Condessa faleceu no Coração de Jesus, freguesia de Lisboa, em 1929,aos noventa e dois anos, vítima de uremia, e recebeu na morte o tratamento e as honras de uma figura de Estado; a rainha D. Amélia e o deposto rei D. Manuel II mandaram o visconde de Asseca como seu representante ao funeral. O seu jazigo, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, está encimado por uma réplica da Cruz Alta, autoria de Raul Lino.
O CHALET
O Chalet da Condessa d’Edla, na Pena, foi concebido pela própria Elise Hensler, com o apoio do mestre de obras Gregório, de planta rectangular no r/c e cruciforme no 1º andar, rodeado de uma varanda e ao estilo das casas rurais americanas, onde a cortiça era dominante. em forma de hera na fachada.
Tinha um salão grande, onde 4 troncos de hera em estuque enriquecidos por nervuras em cobre entrelaçavam nas cornijas as ramagens cobertas de folhas, e o quarto de D.Fernando no 1º andar, com encastoamento arabizante feito de cortiça pintada a varias cores. No 1º andar também, o quarto da condessa, virado para o de D.Fernando, separados pela escadaria, onde na parede fronteira estavam gravadas as armas de Saxe e de Portugal, e no fim da escadaria, com torneados arábicos, uma pintura de um pastor pintando flauta. O quarto da condessa estava decorada de rendas sob fundo azul, obra de Domingues Freire, filho do afamado pintor da época Luciano Freire. Todos os interiores de estuque estiveram a cargo de Sebastião Ribeiro Alves.
Letizia Ratazzi,a famosa viajante que por essa altura esteve em Portugal,comparou mesmo tal local á sublime Arcádia.
O CHALET, UM PROJECTO ESOTÉRICO?
Mas será o Chalet da Condessa um projecto esotérico? O Chalet assenta sobre uma planta rigorosamente simétrica, orientada para o Palácio da Pena, e, segundo Vítor Adrião, as janelas e portas são em arcos góticos, como que aludindo á arte dos Argots ou mestres arquitectos da Idade Média.
A base rectangular tem à volta 22 aberturas, 10 portas e 12 janelas, e 2 óculos, onde, em cortiça, simbolicamente associada ao Fogo Criador do Espírito Santo, se contorna a Cruz Jaina, a Swástika, expressando o Pramantha no movimento da Evolução Universal cuja acção sobre a Terra se faz aqui através da corte do Quinto Senhor, composta de Adeptos Independentes, prefazendo o número mercuriano 222(presente nas referidas aberturas da casa).
Sendo Sintra regida por Vénus-Lua, feminina em todo o seu esplendor, caberia segundo esse autor á condessa d’Edla o papel de Mãe Divina, assinalada pelo arcano 2(“A Sacerdotisa”) e o 22 (“A Laurenta”) do Tarot.
No edifício, a sua base rectangular é o duplo quadrado, dividido pelos óculos swastikos, referindo assim a fixação do Sol na Terra através da Lua, magistério da Alma cuja arte é pertença tradicional da Sacerdotisa.
O símbolo da acção selenita é aqui representado pela hera, subindo pela frontaria e no seu interior. A hera no culto dionisíaco tem a ver com a divinização feminina e a fecundação da Terra, sendo os 4 troncos de hera os símbolos da Idade do Ouro, da Prata, do Bronze e do Ferro. Os decorativos geométricos enriqueciam ainda mais esta sala,como que referindo de maneira muda a sabedoria dos Mouros, como 5ª linha do novo Pramantha, e cuja sabedoria é o maior segredo de Sintra, por ser a alavanca do regresso à Idade do Ouro, ou à arcádica Origem Divina.
Esse retorno estava assinalado no Y dos portais neogóticos, letra designativa do Itinerário da Mónada pelos diversos estádios conscienciais. O óculo e o Y dão a palavra YO ,precisamente a da divina essência.
O andar cimeiro do Chalet era cruciforme ,com 20 aberturas,8 portas e 12 janelas, correspondentes a outros tantos arcanos, dos quais o 20º(“O Julgamento”) tem a ver
com a superação da Era, deste ciclo do Ferro ou Kali-Yuga. Enquanto isso, o 8º,(“A Justiça”) corresponde á demanda da Iluminação ,lançando-se através do 12º(“O Dependurado”)a imolação da personalidade material pelo triunfo da individualidade espiritual.
Na planta do edifício, a cruz sobre o duplo quadrado dividido pelo óculo ou círculo solar é referência imediata á crucificação do espírito na matéria.
Caberia assim segundo Adrião, á Condessa, libertar o espírito pelo recolhimento. Essa libertação do espírito corresponde á conquista da Pedra Filosofal, cujo emblema é a Rosa Cruz, assinalada na disposição do andar cimeiro e nos óculos no ponto divisório da residência.
Da apetência da condessa pela Alquimia, para além da planta da casa, outras referências deixam descortinar um percurso de Sacerdotisa: um seria o lavabo da cozinha, uma rã de cuja boca jorrava água para uma bacia contornada por hera. Sendo a rã designativa da rota(ou taro, anagramáticamente )a água correndo para o jarro só pode significar a liquefacção alquímica, sendo a água a purificação; outro, seria o sítio das pedras da Condessa, onde numa espécie de furna esta procedia á torrefacção de folhas de chá ,qual druídisa de saberes não revelados.
Esta mais uma nota, curiosa, sobre o  apaixonante Chalet da Condessa Elise.
O PROCESSO CÍVICO E A EVOLUÇÃO DAS OBRAS
Por solicitação da Alagamares,que desde a sua criação se interessou por esta causa, foi-nos enviado pela UNESCO, em Outubro de 2006, através de Kerstin Manz, que fez parte da última missão da ICOMOS a Sintra, de 22 a 25 de Março de 2006, o relatório produzido pela comissão,sobre o ponto de situação do Património Mundial(Paisagem Cultural) 10 anos depois da classificação, e de que fizeram parte a mesma, e ainda Gérard Collin e Peter Goodchild.
Tal relatório resultou da primeira visita de monitorização a Sintra desde 2006, e foi aprovado na 31ª reunião do World Heritage Committee, reunido em Vilnius, Lituânia, de 8 a 16 de Julho de 2006, e do mesmo ressalta desde logo um reparo: o da falta de reuniões com as associações activas na salvaguarda do Património Mundial, tendo as reuniões ocorrido sobretudo com a CMS, ICN e IPPAR.
Um dos principais aspectos, 10 anos depois da classificação como Paisagem Cultural de Sintra, e apesar de algumas melhorias, era o da ausência duma estrutura de gestão clara, as lacunas evidenciadas pela empresa Monte da Lua para lidar com o problema, e a pressão urbanística na área circundante da zona de protecção. Eram criticadas as
estruturas amovíveis da Pena e Monserrate( já em fase de desmantelamento, nesta data), a situação do Chalet da Condessa d’Edla, e a ausências dum serviço de aconselhamento dos proprietários privados dentro da zona de protecção, no sentido de os ensinar a lidar com a herança no seu território.

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A missão sugeriu uma agenda detalhada para os próximos 5 anos: estrutura de gestão; plano de curto prazo; estratégia de desenvolvimento urbano; plano de interpretação; plano de gestão do PNSC para 2010-2014; PDM de Sintra de 2010 a 2019; plano de gestão da zona do património mundial para 2010-2014, todos prontos até pelo menos 2009.
Como se sabe, o Património Mundial de Sintra foi a primeira classificação da UNESCO, em 1994, na Europa, como Paisagem Cultural, abrangendo uma área principal de 9452 m2, uma de protecção parcial de 37176 m2, e uma de transição de 121688 m2, sendo esta a segunda missão, depois duma outra efectuada em 2000.
Do relatório ressaltavam vários aspectos a ter em conta:
1.A falta de coincidência nos diversos planos (PDM e POPNSC) duma área do Património Mundial, não obstante quando esses planos foram elaborados já ter ocorrido a classificação, em 1994.
2. A dispersão de entidades intervenientes na gestão, com planos desarticulados, sendo que não havia um organismo ou dirigente específico para a área do Património Mundial.
3. A empresa Monte da Lua mostrara , até recentes alterações, incapacidade para gerir o património (disperso) que lhe foi cometido, e está fora da gestão de 66% da área classificada.
4. A dispersão de gestão dos monumentos e dos parques que lhes estão adjacentes por entidades diversas
5. Uma estrutura transversal às existentes é urgente, coordenando e cosendo fricções nos seus limites.
6. Os diversos planos têm deadlines e prazos de execução diferenciados, sendo útil que se articulassem no sentido de começarem e terminarem no mesmo horizonte temporal, sugerindo a missão, que até 2009 se concentrassem esforços na elaboração dum novo Plano de Gestão para o período 2010-2014, devendo todos os planos ter ciclos de vida de pelo menos 10 anos, no que se ganharia em eficiência, e coordenação.
7. A missão apreciou negativamente a destruição de vestígios arqueológicos no Castelo dos Mouros e nos Capuchos, o parque de estacionamento na Pena, o pré-fabricado à entrada dos Capuchos, sendo contudo o maior perigo o da massificação urbanística às portas do Património Mundial. Contudo, saúdou-se o esforço da autarquia ao contratar o arquitecto Leon Krier para coordenar uma equipa que se debruçasse sobre este e outros perigos.
8. Faltava um plano de gestão com acções dirigidas, prioridades, agenda, financiamento, e relação com os outros planos.
9. Faltava diálogo entre os proprietários, sobretudo os das “quintas”, e os gestores da CMS e ICN.
10. Havia que atender às espécies floristicas invasoras e ao restauro de património privado.
11. Faltava um serviço de atendimento e educação dos privados no sentido do aconselhamento de formas de restauro, materiais, cores, etc.
12. Preconizava-se a criação duma entidade (“task force”) para preparar um plano de gestão, independente dos poderes actuais, assegurando sustentabilidade financeira, e corpo técnico especializado, com o acompanhamento de perto da UNESCO, através do ICOMOS.
Foi proposto o seguinte calendário:
-até ao fim de 2006: criação da “task force”, plano de curto prazo, definição da estrutura e objectivos do plano de gestão
-até ao fim de 2007: período de transição para o plano do PNSC; aprovação da estrutura do plano de gestão pelo Word Heritage Comittee, com consultas às partes interessadas -até ao fim de 2008: desenvolvimento duma estratégia urbana; plano de interpretação; novo plano do PNSC (2010-2014), novo PDM (para 2010-2019), projecto final de plano de gestão
-até ao fim de 2009: consultas e aprovação final do novo plano de gestão.
A título de conclusão, refira-se que, no que à flora concerne, foram indicados como estando em risco na área do Património Mundial o feto de folha de hera, o feto cabreiro, a cravinha, o cravo romano, o miosótis das praias, o rapontico da terra. Quanto à fauna, estarão em risco o morcego de ferradura grande, mediterrânico, e o morcego-rato pequeno.
Este relatório apontava pistas e é claro no sentido de entender que não há tempo a perder, não obstante pequenos passos dados. Uma melhor ligação entre as instituições que se atropelam, parcerias estratégicas para a reabilitação, mecenato internacional, e mais educação cívica são factores essenciais para a manutenção do “nosso” Património
Na sequência desse Relatório da Missão da Unesco a Sintra, de Março de 2006, a Alagamares promoveu, no dia 17 de Novembro, em Galamares, um encontro-debate focado no restauro e recuperação do Chalet da Condessa d’Edla.

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Perante uma plateia interessada e participante, foram abordados os diversos aspectos relevantes para a resolução a contento desta “nódoa” em plena Sintra Património Mundial, por todos aceite que merecia intervenção urgente, mas com condicionamentos ao nível financeiro e estratégico para um avanço decisivo que importavam ultrapassar sem mais demoras.
O presidente da Alagamares, Fernando Morais Gomes, moderador do debate, fez uma resenha histórica da figura da Condessa Elise Hensler, segunda esposa do rei D. Fernando II, “cantora de ópera quasi rainha de Portugal e de Espanha”, salientando a necessidade de se preservar, para as gerações futuras, através do restauro do chalet da Condessa, “uma memória histórica viva de Sintra“. A este respeito, e dando sequência ao debate, colocou aos presentes três questões fundamentais, para as quais urge resposta: “como”, “quando” e “para quê” recuperar o Chalet da Condessa d’Edla.
O painel de oradores convidados foi constituído por Adriana Jones, da Associação de Defesa do Património de Sintra, João Rodil, escritor e director do Jornal de Sintra, e o vereador João Lacerda Tavares, actualmente com responsabilidades executivas na empresa Parques de Sintra-Monte da Lua e com particulares responsabilidades no processo de restauro e recuperação do local e sua envolvente.
João Rodil, autor de “Serra, Luas e Literatura“, na sua intervenção fez notar que “a filosofia ecléctica e ecuménica que serviu de base à construção da paisagem sintrense [pelo Rei D. Fernando II] foi também a que regeu o período do Romantismo em Sintra“, e que agora interessa fazer tudo para não a perder. Fez ainda notar que o Parque da Pena, com os seus 36 monumentos, se encontra cientificamente muito bem documentado, e que foi graças ao ciclone de 1941 que Mário de Azevedo Gomes produziu a conhecida monografia sobre o Parque da Pena, actualmente ainda a mais rigorosa acerca daquele local. Fez-se ainda referência à possibilidade de reintrodução de fauna no Parque da Pena (Alguém se lembrará das comunidades de corvos que pejavam o local, ou a mais longínqua presença de zebras e burros, ou os póneis com os quais se faziam as deslocações dentro do conjunto da Pena?)
Do conjunto de intervenções registadas retem-se a de João Lacerda Tavares, que explicou que a empresa Parques de Sintra-Monte da Lua se candidatou a um fundo da EFTA, antiga organização europeia de que Portugal já foi membro, no valor de 5 milhões de euros, os quais cobrirão cerca de 60% de um conjunto de obras, nas quais as do Chalet estão incluídas (com base num projecto de recuperação do actual presidente dessa empresa, o Prof. António Lamas). Acrescentou ainda esperar-se por uma decisão sobre essa candidatura, a ser comunicada a partir de Janeiro de 2007, tendo sido deixada a ideia de que este fundo, “não se tratando de uma certeza, gera pelo menos uma boa expectativa de financiamento”. Ficou menos claro que parte das verbas ficariam afectas em concreto às obras no edifício, ou de onde viria o montante remanescente até integral restauro.
Igualmente questionada pelos presentes foi a filosofia a imprimir ao restauro: recuperação pura e simples do existente? Só das fachadas? Porque, como foi dito, dada a simbologia rosacruziana transmitida ao local pelo Rei, qualquer desvirtuamento ao nível dos pormenores na intervenção será um mau serviço e em si não levará em conta a história e espirito do local, que vale não só por si, mas por toda a envolvente, do Palácio à Abegoaria, ou da feteira às tapadas.
O Prof. João Cachado, da Escola Profissional de Recuperação do Património, presente na audiência, também interveio, trazendo algumas memórias para o debate, nomeadamente a da exposição, no edifício do Turismo de Sintra de 1996, sobre o Chalet da Condessa, e das suas aulas com os alunos realizadas no chalet na década de 90, fazendo notar que está disponível na EPRP “um intenso levantamento e estudo do Chalet da Condessa, incluindo material digitalizado”, não faltando por isso “informação e tetemunhos para que se faça um restauro atento”. Salientou ainda na sua intervenção a necessidade de se realizar uma recuperação integrada do Parque da Pena – englobando a Abegoaria, o Pombal, o Pavilhão D. Luis, etc. -, que a seu ver, nestes últimos anos, fruto do “desleixo institucionalizado“, se tem degradado progressivamente.
Dúvidas ainda sobre o destino a dar ao local após o restauro: Museu? Sala de chá? Empreendimento concessionado? Tal parecia ainda estar no limbo, e para a necessidade de auscultar a sociedade civil, destinatária do património cultural, se chamou igualmente a atenção. Foi consensual entre os participantes que, seja a um nível orgânico ou outro, se deviam evitar novas “disneylândias” sem viabilidade, para não penhorar a recuperação à inevitabilidade de fins que distorçam o espirito do local.
Igualmente a necessidade de cuidar das matas e jardins envolventes se fez sentir. A este respeito, Adriana Jones alertou para os actuais riscos de incêndio na envolvente do chalet, devido à proximidade imediata da Tapada do Mouco, a seu ver “um pequeno barril de pólvora” pela grande quantidade de material lenhoso ali presente. Assim, a par do restauro, considerou essencial “a complementaridade da limpeza da mata“, para se minimizar o risco de novo fogo.
Foram ainda registadas diversas intervenções do público, em particular a que foi feita pela trineta da Condessa, Ana Luísa Gomes da Costa, muito apreciada pelos presentes, e que sabedora deste encontro não quis deixar de dar um testemunho único e pessoal da memória daquele espaço romântico e repositório botânico invulgar. Não escondendo a sua desilusão face ao actual estado de abandono do chalet, deixou no entanto uma nota de optimismo, recordando a alegria das suas vivências no local, em companhia de seu avô Mário de Azevedo Gomes, e propondo que o chalet fosse efectivamente recuperado, porventura com funções também ligadas à botânica.
Da vasta e útil troca de informações, perante uma plateia activa e que muitos contributos trouxe ao debate, saiu sobretudo a vontade de, uma vez este lançado, não o deixar esmorecer, indo a Alagamares, desde essa ocasião, procurar acompanhar com regularidade os desenvolvimentos deste processo, apelando aos presentes no encontro, e aos demais que se interessam pelo nosso património, para que se constituísse um grupo de acompanhamento que monitorizasse todas as acções propulsoras duma recuperação fidedigna, que respeite o espírito do local e as suas memórias, e possa ser devolvida à fruição cultural do conjunto da Pena, com as valências e modalidades de gestão e manutenção que, de forma participada e coerente, se venham adoptar.
Se Sintra não existe como hoje a retemos no nosso imaginário sem o Rei-Artista D. Fernando II, um alemão que foi um grande português, percursor da protecção do património em Portugal, igualmente a casa singular que para si e sua segunda esposa erigiu, um mundo dos “Homens no Domínio dos Deuses“, e a figura da Condessa d’Edla, como mecenas e vulto da cultura, merecem respeito e admiração. E não é por acaso que ao topo do seu jazigo, no cemitério dos Prazeres, obra de Raul Lino, figura para todo o sempre a Cruz Alta, símbolo do país que um dia mudou o seu destino.
Na sequência do profícuo debate sobre o Chalet da Condessa d’Edla, promovido pela Alagamares-Associação Cultural, o Jornal da Região, na sua edição n.º 58, 21-27 Nov 2006,entre outros títulos, publicou um artigo intitulado “Chalet da Condessa com grito de alerta”.
É relevante referir que o Chalet da Condessa d’Edla é um imóvel classificado pelo IPPAR desde 1993, como sendo de Interesse Público, consta da lista de monumentos da Paisagem Cultural desde 1995.
Tal alerta teve repercursão de relevo nos meios culturais locais, bem como na imprensa, demonstrativo de que o tema é sensível e premente.
Não desejando deixar cair este assunto em saco roto, a ALAGAMARES promoveu a criação de um grupo de trabalho visando o acompanhamento junto das autoridades dos passos conducentes a reabilitar o espaço, e reabilitá-lo de forma adequada, bem como a promover iniciativas culturais em seu torno(poesia, pintura,etc) grupo esse composto por Fernando Morais Gomes,Pedro Macieira, Jesus Noivo, João Faria Santos, João Cachado e Emília Reis.
Na primeira reunião,realizada em Dezembro, ficou assente reunir desde já com a Administração da Parques de Sintra-Monte da Lua, para aferir dos desenvolvimentos da candidatura a verbas da EFTA para este fim, bem como apresentar o grupo de trabalho.
O nosso então dirigente Ricardo Carvalho averiguou a situação da candidatura de Sintra a verbas para obras de protecção do Património Mundial, e apurou que em 23 de Outubro de 2006 foi efectuada uma selecção de candidaturas no âmbito do 1º concurso para projectos individuais, ao Financial Mechanism Office (FMO)do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu, em Bruxelas. Os projectos seleccionados pela Unidade Nacional de Gestão, (coordenada então pelo Dr.Manuel Leal Pisco ) com o apoio do Steering Committee foram submetidos a diversas verificações de conteúdo no FMO, a um controlo na Comissão Europeia e a uma avaliação final por parte do Comité do Mecanismo Financeiro, sediado em Oslo. Só após este procedimento seria tornada pública a decisão deste Comité dos Estados Doadores sobre os projectos eleitos para financiamento, entre os 19 submetidos por Portugal.
O presente Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEE) foi criado a 1 de Maio de 2004 – data em que a União Europeia e o EEE foram alargados a mais 10 países: Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia – visando contribuir para o nivelamento económico destes novos países aderentes, bem como da Grécia, Espanha e Portugal, os três países da UE-15 que já beneficiam deste fundo. É também objectivo deste mecanismo fortalecer as relações bilaterais com os Estados beneficiários.
Um protocolo – Memorando de Entendimento (Memorandum of Understanding) – foi assinado a 3 de Fevereiro de 2005 entre o Estado Português e os representantes dos três Estados EFTA – Islândia, Liechtenstein e Noruega. O Memorando constitui um acordo estrutural entre Portugal e os três estados do EEE/EFTA para utilização do novo Mecanismo Financeiro do EEE, o qual disponibiliza, em termos líquidos, 30.067.200 Euros para apoio a projectos em Portugal, entre 2004 e 2009.
Para utilização deste apoio financeiro foi criada, por Despacho Conjunto do Ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional e do Ministro de Estado e das Finanças, uma estrutura de gestão constituída por um Coordenador Nacional e por um Secretariado Técnico.
Entretanto, a Alagamares foi mantendo pressão nos blogues, eventos e iniciativas por si organizadas desde então, como abaixo se exemplifica:
Segundo o Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu, foi aprovado em 30 de Maio de 2007 um projecto de restauro de edifícios históricos na área da Paisagem Cultural de Sintra, conforme pedido pela Parques de Sintra Monte da Lua. Tal projecto,com o nº PT0026,foi contemplado com 1.496.000 euros(cerca de 290 mil contos).
Em 11.09.2007 elementos do grupo cívico pelo restauro do Chalet da Condessa d’Edla, em Sintra, deslocaram-se ao local, onde ainda que não acordado anteriormente reuniram informalmente com o presidente da Parques de Sintra Monte da Lua,prof.António Lamas,e técnicos de restauro em trabalho no local.
Ficou-se a saber que estava em curso a recuperação daquilo que foi designado a 1ª fase da obra, isto é limpeza e restauro da infraestrutura, com substituição dos actuais andaimes calcinados por outros mais seguros ,bem como cobertura.
O trabalho da equipa do Instituto José de Figueiredo inclui recuperação e catalogação de estuques, madeiramentos e pinturas, o que nos pareceu estar a ser feito com critério e responsabilidade.
Curioso foi o reparo feito no local de que apesar de o chalet ter sido consumido pelo fogo, não havia muitos vestígios de fuligem nas paredes, sendo maior o estrago ao nível dos madeiramentos. Fundamental em toda a obra seria a reposição do jogo de revestimentos a cortiça, original numa construção aparentemente sem arquitecto, e realizada do acordo da condessa e D.Fernando com o empreiteiro da época.
Fora aprovado em 30 de Maio de 2007 um projecto de restauro de edifícios históricos na área da Paisagem Cultural de Sintra, conforme pedido pela Parques de Sintra Monte da Lua. Tal projecto, com o nº PT0026,foi contemplado com 1.496.000 euros(cerca de 290 mil contos).Constatou-se no local que foi montada uma tenda branca no espaço envolvente, dentro da vedação, que está fechada, e foram colocadas marcas de identificação de paredes e divisões e os azulejos da cozinha e casa de banho que estavam no chão também foram retirados (guardados). Alguma limpeza, muito sumária também foi feita no local, incluindo a retirada do plástico azul, ardido e pendurado pelos andaimes. Cortaram (podaram) as magnólias que lhe estão perto e nessa operação foram derrubadas algumas grades da vedação.
Posteriormente, decorreu no dia 13 de Novembro na Escola Profissional Alda Brandão de Vasconcelos, em Colares, mais uma reunião do grupo cívico pró-restauro do Chalet . Algumas questões contudo devem ser esclarecidas: a verba é suficiente para todo o restauro ou é parcial? quem executava e fiscalizava o projecto da recuperação? estava a ser tido em conta o trabalho de recolha que a Escola de Recuperação do Património de Sintra executou em 1999?a filosofia da intervenção passa por uma recuperação simples ou pela musealização do espaço?
O grupo apresentou-se como um colaborador activo neste processo, entendendo não serem demais todos os que se quisessem disponibilizar para o direito/dever de exercer a cidadania plena, na óptica do direito á fruição dos bens culturais.
Na sequência de pedido escrito efectuado ao Monte da Lua-PSML-relacionado com o cronograma das obras,recebemos, entretanto, assinada pelo administrador João Lacerda Tavares, uma carta datada de 10 de Janeiro, com cópia do plano de recuperação(3 folhas) aprovado pela EEA GRANTS ,que separava o projecto em 3 fases autónomas, e que se transcreve:
1-TRABALHOS PREPARATÓRIOS E CONCEPÇÃO,com base no projecto de 1996,incluindo concepção das infra estruturas básicas(agua, electricidade, ventilação etc),incluindo projecto de visitas durante a reconstrução.
Início-Julho 2007.Prevê 8 tranches mensais até Junho de 2009,para um total de 175.000 euros.
2-ADAPTAÇÃO DO LOCAL PARA VISITAS DURANTE OS TRABALHOS DE REABILITAÇÃO. Inclui acessos, circuitos, protecções, sinalética, pavimentos temporários, estaleiro, muros de suporte ,equipamento de protecção para trabalhadores e visitantes etc
Início Abril 2007.Prevê 9 tranches até Junho de 2009,para um total de 200.000 euros.
3-TRABALHOS DE REABILITAÇÃO
Início Outubro de 2007.Prevê 7 tranches até Junho de 2009,até um total de 551.500 euros.
Esta fase inclui telhados, bem como pavimentos, paredes, e o global do edifício. Exclui os tectos.
Depreendia-se pois que as obras decorrereriam até Junho de 2009 e de acordo com o projecto já feito em 1996.
Dezenas de cidadãos participaram a 4 de Março de 2008 no roteiro em defesa do património sintrense que fez confluir para o Parque da Pena e em torno do tema do Chalé da Condessa d’Edla interessados em Sintra sem outro interesse que não fosse o de mais saber sobre o tema e debater in situ a paisagem cultural de Sintra.
Particularmente relevante para lá das explicações e informação produzida e distribuída, foi o momento em que Maria Almira Medina declamou um poema inédito de sua autoria incidindo sobre o Chalé da Condessa, e as memórias, cheiros e onirismos que tal local inspira e proporciona.

O Chalet da Condessa, numa manhã de Março

 Pés vegetais descobriram caminhos

longitudinais.

Logo troncos arbóreos verticalizaram os sonhos

                                      de navegação em verde

na busca de muitas outras índias mais.

Depois

os fetos

tais desenhos de mãos e dedos

a acariciar dolentes os penedos

linguajaram falas alegrias mágoas

num diálogo poliglota banhado de águas.

Então as flores da cameleira rebentaram

                                 em notas musicais

o pitósporo odorizou a primavera inteira

o junípero a tília a magnólia e o

        eucalipto “obliqua” marcaram uma

                                     etapa de amor

uma chegada.

O farol da viagem era a casa

com seus olhos de lume e boca incendiada.

 Sintra, 2 / 03 / 2008

Maria Almira Medina.

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Igualmente presentes vários cidadãos que se têm preocupado com a temática da defesa do património,e descendentes da Condessa d’Edla.

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A 15.10.2008 voltámos ao local, e do que conseguimos ver e apurar, estava em curso uma obra de reparação de pavimentos com prazo de execução de 90 dias, conforme se extraá do cartaz afixado no local e que fotografámos.

Tinha esta empreitada em vista a pavimentação da calçada com cubos de granito semelhantes aos da Calçada da Pena, igualmente para permitir a circulação automóvel(esperemos que não excessiva).

No edifício do Chalet vários técnicos estavam a trabalhar, pelo que “a coisa” parecia em bom caminho…
Até ao momento,a actual Administração da Parques de Sintra-Monte da Lua eestava a cumprir o cronograma aprovado e a obra fazendo o seu caminho.
Em Fevereiro de 2009,relatava o Jornal da Região dessa semana que em 2010 se
iniciaria o restauro do interior do Chalé da Condessa, e que se preparava a recuperação de 2 jardins com vista à criação de um percurso alternativo ao da Pena dentro do Palácio.
Não obstante parecerem ser notícias positivas, recorde-se que o cronograma anterior apontava para o fim das obras no fim do 1º semestre de 2009,e que as obras no local iam nessa altura muito lentamente. Inclusive membros da Alagamares que ali se deslocaram só com o objectivo de observar o andamento quase foram perseguidos pelos guardas,como se duma instalação de defesa nacional se tratasse.
Fica pois,não obstante a boa vontade à época de alguns administradores,com realce para o Dr.Lacerda Tavares.
Em 6.03.2009, e para que os temas do restauro do Chalet da Condessa d’Edla e do património de Sintra em geral não deixassem de estar na ordem do dia, criámos uma causa onde se pôde aderir e deixar mensagens no Facebook.
No dia 8 de Março de 2009 foram inaugurados o novo portão de acesso ao Chalet da Condessa de Edla (Parque da Pena) e o novo Centro Cultural do Chalet da Condessa, que incluiu uma sala de apresentação do projecto com capacidade para 20 pessoas e uma área de tratamento e restauro dos salvados do incêndio de 1999.
Em 19.04.2009 e englobado nas comemorações do Dia dos Monumentos e Sítios classificados, promoveu a Parques de Sintra Monte da Lua uma explicação do projecto em 3D,orientada pelo arq. Lobo de Carvalho, responsável pelas obras, e visita às mesmas. Dentro do espírito que a Alagamares tem batalhado- abrir as portas para ver as obras e não fechar para obras- foi uma interessante e cuidada sessão, onde se teve a possibilidade de observar o trabalho dos peritos até ao momento, bem como verificar o andamento das obras.
Até final de 2009(novas datas), contava a PSML ter concluído as obras financiadas pelo fundo norueguês, nomeadamente infra-estruturas e toscos. Depois, teria de haver novo financiamento externo.

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A par da limpeza no local, foi instalado um centro de visitantes (foto abaixo) colocado um portão de acesso e novos andaimes. Estava a decorrer estudo das redes (águas e electricidade) e tencionava a PSML abrir um concurso de ideias para um novo jardim.
Realce para o facto de que apenas 25% dos actuais visitantes da Pena visitavam os jardins.Com a abertura do Chalet, tal poderia permitir circuitos integrados de visitas ao Parque, e a todas as construções restauradas dentro do mesmo.
Foi pois com prazer que verificámos que, sem estar no ritmo desejável, está porém a obra a andar, e haver vontade de mostrar serviço.
A 7 de Maio de 2009 decorreu um jantar-debate da Alagamares, desta feita dedicado á problemática da gestão de Sintra enquanto Património Mundial e enquadrado nos 75 anos do Jornal de Sintra.
Depois da introdução e enquadramento pelo presidente da Alagamares, Fernando Morais Gomes,e convidados a reflectir sobre esta problemática, foram pelos oradores abordadas varias vertentes da mesma. António Lamas, presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra-Monte da Lua, empresa gestora de grande parte da mancha não urbana do perímetro classificado como Paisagem Cultural abordou aspectos da gestão e das obras em curso, tendo sido salientados os então 860.000 visitantes anuais em Sintra, que faziam na altura este destino o 3º mais visitado em Portugal, depois do Castelo de S.Jorge e dos Jerónimos. Geraram-se 6,3 milhões de euros de receitas, tendo sido investidos em 2008 4,3 milhões oriundos entre outros do programa Operacional do Ambiente e do fundo norueguês EEGRANTS. Enfoque nas obras em curso em Monserrate e no Chalet da Condessa, e na limpeza das tapadas e arranjo de estacionamentos.
Aspectos polémicos como o abate de árvores, as obras em frente a Seteais ou a aptidão da Parques de Sintra para se afirmar como a task force preconizada pela UNESCO depois da visita de 2006 foram igualmente debatidos.
Realce também para as intervenções mais conceptuais e didácticas de José Aguiar, da PPCULT e do ICOM Portugal e de Louro Alves, da SETA , que permitiram reter a ideia de que ser Património Mundial é viver na junção de vários mundos, onde se podem abrir janelas de oportunidade e pistas para uma nova economia. E sobretudo o apelo a que todos sejamos “jardineiros do território”, considerando-o como nosso, com direitos mais aprofundados, como sejam o direito ao silêncio ou o direito aos cheiros.

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Iniciada num período em que os habituais procedimentos herdados do passado pareciam anunciar mais do mesmo, isto é, incúria e esbanjamento de recursos públicos em prol de “amigos” e “correlegionários”, a administração da PSML,  desde 2006 sob a égide do prof. António Lamas, teve o condão de, além de se debruçar a sério sobre o dossiê, viabilizar e captar uma série de apoios financeiros internacionais, noruegueses sobretudo, e vencer resistências junto dos stakeholders locais, que desde então passaram a acompanhar a gestão, e a ser ouvidos pela sua administração, bem como pelas missões da UNESCO que desde então visitaram Sintra.

Vítima do fogo em 1999, em ruínas até 2006, foi por força dessa equipa, e de algumas vozes que pressionaram para a urgência do restauro (nas quais incluo a Alagamares, a Associação de Defesa do Património de Sintra, e cidadãos como João Cachado, Emília Reis, Jesus Noivo, e outros) que em 10 de Maio de 2011 a beleza original do ninho de amor de Fernando e Elise finalmente recuperou vida, e foi devolvida à fruição pública. Durante os anos que demoraram os trabalhos, aos parceiros da sociedade civil sempre foi permitido o seu acompanhamento por parte da administração do Parque (prof. Lamas, dr. Lacerda Tavares) ou dos técnicos no terreno (arq.Lobo de Carvalho, Nuno Oliveira, Inês Moreira, Slava Ruíz, Rita Alves, etc) sempre disponíveis para o “abrir para obras” e recolha de sugestões, adoptando assim uma prática até então desconhecida por parte da entidade gestora, e que a todos congregou em prol do resultado final.

A PSML é hoje um importante agente cultural e dinamizador da Paisagem Cultural de Sintra. Com 1.068.000 visitantes nos seus parques e palácios em 2011, mais 10,4% que em 2010, e um acréscimo de receitas operacionais, que alcançaram nesse período mais de 9 milhões de euros (em comparação com pouco mais de 2 milhões em 2005), continuou, felizmente, e de forma sustentada, na senda das intervenções nas propriedades por si administradas em nome do Estado, tendo visto recentemente alargada a sua jurisdição aos Palácios da Vila e Queluz, e à Escola Portuguesa de Arte Equestre.
No Chalé da Condessa, novo pólo de atracção, não estando concluídas ainda todas as obras, constata-se com apreço uma evolução bastante positiva, face ao anterior estado comatoso, (não obstante algumas vicissitudes, como o ciclone de 19 de Janeiro de 2013, que deixou marcas no local, destruindo a bilheteira): abriu o Chalé e o Jardim da Condessa, com o apoio do fundo norueguês EEGrants, tendo como parceiro o NIKU- Norwegian Institute for Cultural Heritage and Research, tendo as obras no Chalé orçado em 1.450.000 euros, 60% financiados pelo EEGrants; procedeu-se ao restauro da Sala das Heras, após estudo de materiais e argamassas, tendo sido concluída a parte respeitante à escadaria, alguns tectos e pavimentos; elaborou-se projecto para uma cafetaria e instalações sanitárias, junto à casa do guarda, e actual bilheteira; recuperou-se a Quinta da Pena e o jardim ornamental, no que se despenderam 1.350.000 euros, 45% vindos do apoio do EEGrants; criou-se um parque de estacionamento na Tapada do Mouco, com 65 lugares, sendo 4 para visitantes com mobilidade condicionada; a par de intervenções na floresta, na sinalética, rede eléctrica e caminhos, ou a aquisição de 3 cavalos ardennais para trabalhos de intervenção na floresta e para passeios lúdicos. Também ao nível da segurança contra incêndios, a aquisição do programa Odissey serviu já para a gestão de alarmes, tendo sido experimentado a quando do recente incêndio de 11 de Julho de 2012, com origem na Quinta da Capela.
Como contraponto, pode-se apontar o preço cobrado para as visitas, ou para o uso dos espaços e imagem para fins publicitários ou artísticos, sobretudo pelos visitantes nacionais, tendo em conta o período de restrições económicas que vive o país. Falta igualmente um plano abrangente para toda a área da Paisagem Cultural de Sintra, envolvendo a PSML, a Câmara, e a sociedade civil, com uma estrutura única e centralizada de gestão, acabando com as 17 entidades que se atropelam nesse território.
A Alagamares, bem como todos os activistas em prol do património de Sintra, não deixarão de se manter atentos à evolução e conclusão dos trabalhos ainda pendentes, tarefa permanente, mesmo quando os highlights mediáticos já feneceram, sabendo-se que um desastrado desmantelamento da estrutura ou da equipa que nos últimos anos foi congregada, por via de algum corte cego ou malabarismo político, pode a qualquer momento deitar por terra o trabalho já executado, para mais numa época em que a Cultura não é prioritária e se assiste a um paranóico emagrecimento do Estado e seus deveres, também na área do património. Estamos e estaremos atentos.

Fernando Morais Gomes

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