Defender as árvores de Sintra

Visando debater de forma aberta e plural a temática da defesa da floresta e da protecção do coberto vegetal em Sintra, nas suas várias vertentes e prismas, promoveu a Alagamares no dia 28 de Abril de 2012 um debate na Sociedade União Sintrense, para o qual convidou técnicos, entidades e ambientalistas, com vista a salientar as boas e más práticas e ajudar a apontar soluções, numa óptica de participação positiva que a todos, como “jardineiros” deste território hoje património da humanidade, está cometido. Vídeo em 

http://www.youtube.com/watch?v=tiIRTi474C0

 coloquio2012

 

Iniciou o debate o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, o “pai” da Reserva Agrícola e da Reserva Ecológica e um dos principais rostos da política de ambiente das últimas décadas em Portugal. Enfatizando o papel da árvore no jogo entre o colectivo e o convívio, Ribeiro Telles lembrou ser a eco indispensável ao desenvolvimento, ironizando ter sido por a ter descurado “sido o homem expulso do paraíso”. Vivemos na era do Caos, prosseguiu, o que dificultou a potencialidade da fixação. Segundo ele, são os países que garantem a biodiversidade os que mais têm potencialidade de segurança, tendo sido a compartimentação dos espaços agrícolas o que permitiu o desenvolvimento da civilização actual.
Garantir um contínuo verde através das cidades deverá ser um mandamento do planeamento, enfatizou, na luta contra o Caos e distribuição especulativa do território.”Continuamos no tempo da mancha e não do desenho do paraíso”, rematou, referindo-se à visão fragmentada que os instrumentos de gestão territorial fazem de realidades amplas e interligadas.
Eugénio Sequeira, da Liga da Protecção da Natureza, detendo-se no tema da árvore em espaço urbano, refutou o entendimento de que se possam fazer podas em árvores decorativas como as feitas em árvores de fruto, vincando a necessidade de manter as árvores na medida do possível. “Para quê cortar a totalidade quando só 20% estão doentes?” questionou. Tem de se fazer mais para salvar as árvores, e nesse processo a auscultação das pessoas é fundamental, bem como trazer as populações para a gestão das zonas verdes.
Nuno Oliveira, em representação da Parques de Sintra-Monte da Lua, que gere 550 hectares de território dentro da Área de Paisagem Cultural classificada como Património Mundial, caracterizou a serra de Sintra como zona de eucaliptos, pinheiro bravo e espécies invasoras, e salientou o facto de não terem havido intervenções na mata recentemente, embora a PSML esteja atenta à invasão das lenhosas para as quais preconiza abates especiais, sendo essa uma tarefa a longo prazo, bem como a arborização de áreas intervencionadas (60 hectares mais, até ao fim de 2012). Referiu também terem sido georeferenciadas 18.000 árvores na zona da PSML e mais de 35.000 árvores dentro do Parque da Pena, estando em curso a classificação e medição desse vasto património arbóreo. Quanto às podas, distinguiu as efectuadas na área da PSML, tendo sobretudo em vista a segurança dos visitantes, que critérios de alinhamento ou segurança, típica das intervenções em zona urbana. Os abates ocorridos têm sido precedidos de relatórios fitossanitários com base numa avaliação técnica consciente.
O director do Departamento de Ambiente da Câmara de Sintra, Carlos Albuquerque enfatizou ter nos últimos anos aumentado a participação dos cidadãos em torno destes temas, bem como ter vindo a reduzir o número de reclamações junto da autarquia. Anunciou a edição de uma brochura “´´Árvore Morta, Árvore Posta”, na qual de forma pedagógica se pretende explicar o que vai acontecer após o abate de árvores. Concordou com a necessidade de um contínuo natural, propugnando que a próxima revisão do PDM consagre esse contínuo na vertente norte-sul, sob pena de o Parque de Sintra-Cascais ficar cortado ao meio. Reiterou uma melhoria nos procedimentos municipais, ao publicitar e divulgar os relatórios previamente às intervenções, numa melhoria na relação com os munícipes em comparação com procedimentos anteriores.
O representante do ICOMOS regozijou-se pela realização desta iniciativa e referiu que “espécie invasora, a bem dizer, é o Homem”e informou que esse organismo vai fazer a monitorização das áreas classificadas como Património Mundial.
O representante da Sociedade Portuguesa de Alergologia, Rui Brandão, da Universidade de Évora, procurou desfazer alguns mitos em torno das árvores como fonte de alergias. Segundo ele, não há relação directa entre a exposição a agentes polínicos e as alergias respiratórias, sendo as espécies mais problemáticas a oliveira e a criptoméria japónica. Igualmente não serão os polens os responsáveis pelas atopias respiratórias ou manifestações alérgicas, nem as irritações podem ser tidas como alergias. São as coníferas quem mais produz o pólen, mas o pólen é pobre em proteínas e para haver reacções alérgicas terá de se verificar a existência dessa proteínas, explicou.
Aberto o debate, usaram da palavra diversos participantes. André Beja, salientou a degradação da floresta e a falta de vigilância, bem como o facto de as podas não serem correctamente executadas. Deplorou não haver presentemente jardineiros em número suficiente ou viveiros da autarquia, que atribuiu à política deoutsourcing praticada, constatando que dos abates de árvores recentemente ocorridos em Sintra, só alguns considera justificados, sendo que menos de metade das árvores foram repostas. Pedro Macieira criticou os cortes selvagens com recurso à técnica de rolagem e João Pereira chamou a atenção para outras zonas do concelho, como o Cacém, onde a arborização é secundária.

Depois de Bruno Quinhones questionar o tipo de espécies e sementes usadas nas novas sementeiras, Adriana Jones, da ADPS, fez uma intervenção condenando a extinção do Conselho Municipal de Ambiente e a paralisia do Conselho Consultivo do Parque Natural Sintra-Cascais, bem como a falta do Plano Verde, já elaborado em 2005. Outros intervenientes abordaram casos pontuais de abates e podas na Correnteza e em Monte Santos (Luísa Morais) o destino das madeiras ou seu abandono nas bermas (Esmeralda Luís) os cortes no Largo do Morais (Jorge Menezes) ou a prática de desportos radicais na serra(José Manuel Laranjo). Uma participante questionou mesmo se a nova brochura anunciada pelo director de Ambiente da CMS foi precedida de consulta ou auscultação pública.

Os participantes responderam às questões, dirigidas sobretudo aos representantes da PSML e da Câmara Municipal, tendo sido informado ir a Parques de Sintra plantar 50.000 novas árvores, e serem as sementes usadas inteiramente certificadas, até por imposição de directivas europeias, no âmbito dos concursos de aquisição. Tanto o representante da PSML como o da CMS apelaram a mais acções de voluntariado, sobretudo no arranque das acácias, reiterando Carlos Albuquerque ser de incrementar uma cultura de contacto com os munícipes.

Postas mais de 3 horas de profícuo debate e troca de informações, entende a Alagamares ter sido dado um contributo para essa cultura de contacto, em que se troquem informações, ouçam os parceiros da sociedade civil, desmistifiquem falsas verdades e se chamem as populações a contribuir na preservação do território do qual é toda ela beneficiária. A Alagamares voltará ao tema, neste ou noutro figurino, numa óptica de participação positiva e disponibilidade para construir pontes e  tornar o  diálogo permanente.

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