Gabriela Llansol e Sintra

llansol

Passou a 3 de Março, o sexto aniversário da morte de Maria Gabriela Llansol, escritora que nos últimos anos da sua vida escolheu Sintra e a antiga Estalagem da Raposa como lugar de residência. Escritora com uma densidade telúrica, uma “camponesa da palavra” como a si mesma se designou, de Sintra nos deixou alguns textos, um dos quais sobre o Grande Maior, o vetusto plátano da Volta do Duche a quem dedicou belas palavras, e que a Câmara de Sintra assinalou colocando no local uma lápide.

 Grande Maior
Quando eu passo, as árvores ficam sempre – é uma constatação que eu faço, caminhando da Sintra comercial para a Sintra confusa e banal onde se eleva o Palácio. Sintra fraca e promíscua, penso muitas vezes. «Se não fossem as árvores», não haveria arquitectura em Sintra, penso muitas vezes. Caminho, pois, na Volta do Duche, acompanhada pelo lado aéreo do olhar que vou lançando sobre as árvores, e por estar a querer fazer um texto sobre Marguerite Yourcenar – de quem deixei, em casa, um livro aberto.
 
É um daqueles dias em que receber companhia equivale a um certo desejo de conversar e de crescer. A tarde é verídica, vou a Sintra pôr uma carta enviada em correio azul, em passo de pensamento, que é muitas vezes o meu passo lento de passeio. Na mesma direcção que eu, mas real, não mulher de pensamento, Yourcenar ou outra, uma mulher de tez clara caminha a meu lado – rústica, sólida, daqueles seres criados no campo com quem faço uma troca imediata. Diz-me: – Como Sintra é bela, por ter às vezes também árvores! Passávamos agora por Grande Maior, a minha árvore favorita, pela impressão que me traz a sua grandeza, na sua sombra de simplicidade. […]
 
É um facto que eu, quando penso em Marguerite Yourcenar, penso sempre numa árvore que escreve, com uma escrita que circula entre a raiz e o cimo, tecendo uma rede sinuosa em que a seiva, mesmo ascendente, está sempre ligada ao peso grave de tanto se imiscuir na terra.
 
Poderia ser uma árvore, uma ave que levanta voo coberta pelo seu peso,e que cai de novo sobre a raiz, transformando o voo cortado em seu verde?
 
Sombra verde, em tentativa rápida realizada. Apoio seguro. Tronco por onde eu passo levantando os olhos _______ e seguindo para a frente.
 
Poderia ser Yourcenar uma figura, tal como eu a concebo? Uma espécie de lugar de troca, como as árvores o são – uma espécie de realização duradoura, presa, e material do espírito? E no tom de olhar com que as concebo e as vejo?… […] Nesta meditação, a olhar através das plantas verdes, ocorre-me que outro dia, pela Volta do Duche, seguia para a Vila Velha através de plátanos, castanheiros, e de uma árvore soberba – a que eu chamo Grande Maior. Quando passo por ela digo sempre (pura verdade!):
 
– Bom dia, Grande Maior!
 
Assim me apetecia saudar Marguerite Yourcenar, sabendo que Grande Maior, sobretudo no tronco, tem as suas limitações de transparência, de movimento e de diáfano.
 
Mas a tal mulher, que não era ela, pôs-se a meu lado enquanto eu seguia e, a níveis e a entoações diferentes, falou-me da mesma paixão – a sua passagem através do verde, que não era a minha. Mas falávamos com muita verdade mútua, e encantamento pela expressão dos verdes, nos animais, nos homens, nas plantas verdejantes e nas coisas.
 
«Grande Maior» – a minha árvore preferida da Volta do Duche, está oscilando sobre esta imagem que – já só por si – treme. A árvore ainda existe? O plátano ainda existe, pois. Vejo-a imobilizar-se no écran do computador e quero saber o que é o fasto e o nefasto, e ouço a voz dos automóveis que me diz: «que só há caminho».
 
É a primeira vez que uma coisa assim inerte e útil me fala. Ou haverá imagens translúcidas de beleza no que eu julgava inerte? Se assim for, dou o sentido por não sentido – como faço sempre. Tenho pouca ciência para aprofundar a eclosão da beleza. […] (Do Caderno 1.48 do espólio, 1997)
Placa-GrandeMaior
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