Os 110 anos do eléctrico de Sintra

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Foi a 30 de março de 1904, passam agora 110 anos, que foi inaugurada a linha do elétrico de Sintra.

Vinha de longe a ideia de instalar uma linha de via estreita entre Sintra e a costa. Já em finais de 1895 se previa uma linha férrea ligando a vila às Praias das Maçãs, do Magoito e da Ericeira. Foi porém em 16 de novembro de 1898 que a Câmara Municipal de Sintra concedeu a Nunes de Carvalho e Emídio Pinheiro Borges uma concessão por 99 anos para construir e explorar uma ligação ferroviária entre Sintra e a Praia das Maçãs. Em 2 de julho de 1900 foi constituída a Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs.

Foi a 12 de agosto de 1901 que se iniciaram as obras, com o objetivo de inaugurar o troço até Colares ainda no verão do ano seguinte. Em novembro de 1901 foi anunciado na imprensa local que ao projeto em curso seria adicionado um ramal para Almoçageme, apadrinhado por um dos diretores da companhia, Guilherme Henrique de Sousa. Tal ramal não chegaria porém a ser construído.

Em 1902, a Companhia foi autorizada a modificar o leito da estrada entre Sintra e Colares, de forma a instalar a via férrea Em abril previa-se que esse caminho de ferro seria inaugurado em setembro. Em maio, a Companhia foi autorizada pela Câmara de Sintra a construir quaisquer novos ramais, de tração elétrica, dentro dos limites do concelho. Em julho foi realizada uma reunião da Companhia, para discutir a obra, que foi entregue ao empreiteiro geral Duret, sendo o engenheiro diretor Le Bastard Sagers e o empreiteiro executante Joaquim Paulo.

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Iniciou-se pois a construção da linha na zona da Estefânia em agosto de 1902, sendo o material circulante fabricado sob encomenda pela J. G. Brill Company, de Filadélfia, tendo chegado a Portugal no ano seguinte. Apesar de inicialmente se prever tração a vapor, a frota inicial foi constituída por sete carros elétricos complementados por seis atrelados. Em outubro, a Companhia previa a conclusão da linha em maio do ano seguinte, e disponibilizou-se para instalar a iluminação elétrica nas localidades entre Sintra a Colares. Nos finais do ano, a Companhia já tinha contratado à sociedade Westinghouse, a construção, fornecimento e montagem de todo o material circulante e das infraestruturas necessárias para a circulação elétrica, no troço entre Sintra e Praia das Maçãs, e no planeado troço de Sintra a São Pedro; também deveria ser instalada a iluminação elétrica em Sintra, São Pedro, e Colares. Segundo o contrato, tudo devia estar montado e pronto a funcionar em 31 de maio de 1903.

No início de 1903 a Companhia pediu ao Governo, autorização para prolongar a linha até São Pedro, e para alterar o tipo de carril utilizado, de ranhura para vignole, para facilitar a construção da via. O relatório da Companhia, apresentado em 14 de março, noticiava que, em 26 de fevereiro, as terraplanagens da via já tinham sido feitas até à Praia das Maçãs, e que os carris já tinham sido instalados entre a Estação de Sintra e Colares. Além do assentamento dos carris entre aquela localidade e a Praia, faltava colocar os desvios, e fazer uma entrada na Estação de Sintra; depois de terminar estas obras, o que se calculava que fosse realizado brevemente, devia começar-se a construir os dois ramais, para o centro de Sintra e para São Pedro, que já tinham sido aprovados e que se previam de construção rápida.

O troço de ligação a São Pedro, projetado na fase inicial da construção da linha, ainda em 1902, tinha uma extensão de 2350 m e derivava no Largo Afonso de Albuquerque, seguindo pela Av. D. Francisco de Almeida, Estrada do Chão de Meninos, Rua Primeiro de dezembro, e Largo Dr. Manuel de Arriaga (onde haveria uma estação de mercadorias e uma duplicação de via), terminando no Largo de São Pedro. Este ramal, porém nunca chegaria a ser construído.)

Em meados de 1903, os trabalhos já se encontravam bastante adiantados, prevendo-se a inauguração em agosto. No entanto, em outubro a linha ainda não estava aberta, prevendo a Companhia que apenas entrasse ao serviço em novembro; nesta altura, já tinham sido recebidos 8 carros elétricos vindos de Nova Iorque, e previa-se abrir a linha em novembro. Em 13 de novembro realizaram-se as primeiras experiências dos carros, com bons resultados, entre a cocheira, na Ribeira, e a Estefânia. No dia 22 desse mês realizou-se outra experiência do material circulante; este ensaio, ao qual assistiu o conselho de administração da Companhia, jornalistas e representantes das empresas construtoras consistiu numa viagem entre a central elétrica e a Estação de Sintra, passando junto a Colares. Foi utilizado um dos carros, transportando 39 pessoas, tendo sido experimentadas todas as velocidades, e as travagens pelos freios, manual e elétrico; o veículo venceu, sem dificuldade as rampas, e passou corretamente nas curvas, sem provocar solavancos. Previu-se nessa altura, a substituição do freio elétrico por um eletromagnético, mais seguro para os passageiros. A Companhia pretendia, naquela altura, inaugurar pelo menos o troço entre Sintra e Colares no Natal, ou nos princípios do ano seguinte.

A via foi assente pela casa Daras e a energia fornecida por várias máquinas construídas pela empresa de Berlim Franz Scheiffer, cada uma com 450 cavalos, alimentadas por geradores multitubulares da casa Belleville, de Saint Denis. Os dínamos foram montados pela Westinghouse, e recebiam os movimentos dos motores por um veio, aonde se encontrava o volante, na configuração transversal.

Em 1904 a Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs passou a denominar-se Companhia Cintra ao Oceano e a inauguração do primeiro troço, Vila Velha-Colares, na extensão de 8900 m, deu-se a 31 de Março de 1904, seguindo-se a 10 de julho do mesmo ano o restante trajeto (Colares-Praia das Maçãs: 3785 m).Antes, o primeiro elétrico, guiado pelo engº Wan-der-Wallen, fez o percurso de 8 km em 24m, a 27 de março de 1904, antecedendo a data inaugural oficial

A Companhia Cintra ao Oceano viria a falir e a ser substituída, nos finais de 1914 pela Companhia Sintra-Atlântico, dirigida até 1946 por Camilo Farinhas.

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