As padarias da Vila Velha-Memória na primeira pessoa

Memória de Carlos José Paulo Santos (Caínhas)

Na Vila Velha, felizmente nada faltava, tanto no comércio como na indústria, e até com casas a fazer concorrência, duas três e quatro vezes. Era o caso da Panificação, todas as Padarias coziam e comercializavam o seu pão, e eram três.


A que talvez fosse a maior, tanto na dimensão de área, centralização, distribuição, e na venda ao balcão, seria a do António Loureiro, pai do meu amigo de infância, António de Almeida Marques Loureiro, cujo forno tinha a porta de entrada virada para o Largo da Vila, e ficava à direita de quem sobe a Rua das Padarias, hoje, salvo erro, é uma casa de bonecos, quando deixou de ser o forno, passou a ser algo entre o restaurante e a tasca fina, que se chamava A TIBORNA.


Era impressionante ver chegar aquelas camionetas de carga grandes, cheias de molhos de lenha de pinho, que alimentavam aqueles enormes fornos, feitos de tijolo refratário, só me recordo de o forno da padaria Tavares ter uma enorme chaminé. Dos outros já não me lembro bem, mas parece-me que os fornos não tinham exaustão de fumos, porque a lenha era só para aquecer o forno e as brasas mantinham-no aceso e quente. Como as casas do forno tinham arejamento, quando estava muito calor abria-se a porta, para entrar o fresco.
Com o fim dos fornos de lenha perdeu-se uma maneira natural de limpeza dos pinhais, porque só na Vila grandes fornos a cozer a lenha de pinho, eram quatro, três padarias, e ainda o da Piriquita, que gastava quase tanto como os padeiros.


Naquele prédio ninguém passava frio. Os sobrinhos do Sr. António Loureiro, o Manuel, o Joaquim, que tinha uma bicicleta e ma emprestava para eu vir namorar a minha mulher, e o António, que também trabalhavam para o tio, moravam numa casinha pequenina com a mãe, que enviuvara ainda nova, tendo ficado com aqueles filhos e uma menina, que apesar da desdita, foram a sua salvação, trabalhavam que nem mouros, todos se fizeram à vida, dois ligados à panificação, e outro não, mas todos singraram, e se fizeram homens. Só o meu Grande Amigo Joaquim, malogradamente, já depois de casado, teve uma morte prematura, derivado a um acidente.


Para terem a noção da casinha de que vos falo, depois deles saírem de lá, foi a Delegação na Vila da Agência do Banco Totta e Açores da Estefânia. Um espaço minúsculo, como muitos se hão-de lembrar. Foi para a época uma jogada de alguém com muita visão comercial, no que ao negócio bancário diz respeito, porque quem quisesse fazer depósitos tinha que ir à Estefânia, e a Vila tinha muito negócio, e o Totta foi apanhar muitos deles. Mas, fui falar da casinha pequena onde moravam os meus amigos, porque se situava, é bom de ver, num plano superior ao forno, e este cozia de noite, e muitas horas depois ainda se sentia o calor do mesmo nos andares superiores do prédio, o que era o caso vertente. Uma espécie de aquecimento central de borla.


A loja onde se comercializava o pão do Loureiro, era onde ainda hoje se pode ver (não sei se funciona ainda), a melhor lanchonete de Sintra, pela localização e pelos bons produtos que vendia. Virada para o Largo da Vila, na descida para a Camélia, era a segunda casa do lado direito.


Tinha uma grande montra, e por alturas do Baile das Camélias, era toda ornamentada com umas colchas, com camélias pregadas às mesmas, e uma grande jarra que havia na Sociedade, de louça chinesa, com ramos de cameleira com flor, aí se publicitava o Baile com as celebérrimas cartolinas, e com as fotografias que os artistas nos facultavam, para a divulgação da festa.


O Sr. António Loureiro era pau para toda a obra, ele estava no forno na produção, ia descansar um bocado, e lá estava ele no balcão, a vender o pão. Era um homenzarrão, muito calmo, passo lento, mas com mais de 1,80m, e teria perto dos 100kg ou mais, parece que o estou a ver com uns enormes sapatos pretos, muito fartos de andar no fadário da padaria.
As padarias fabricavam essencialmente pão, depois aos poucos foram aparecendo outros produtos na área do pão doce, como as célebres arrufadas, que eram uma maravilha, enormes, fofinhas, e com açúcar no topo. Quando por qualquer motivo ele não podia estar no estabelecimento, lá ia a sua esposa, ou os filhos, a Gracinha ou o Toninho. Este foi sempre bem dotado fisicamente, e com seis anos, o seu pai, pelo Natal, em vez de lhe oferecer um brinquedo, ofereceu-lhe um cesto de vime, mais pequeno que os da distribuição porta a porta, e deu ao Toninho, para este fazer a sua rota de distribuição, que incluía (vejam só), a Quinta da Cabeça, que fica a uns bons quilómetros da Vila, e ainda distribuía por diversos clientes até lá. A Gracinha era mais poupada aos trabalhos, mas tinha que alinhar no balcão, isso era fatal como o destino.


Tenho grandes aventuras com o Toninho, o pai dele “além de explorador do trabalho infantil”, não remunerava esse trabalho, mas o Toninho não se perdia, de vez em quando lá ia uma “estalada” na gaveta do dinheiro,(sempre só nos trocos, claro), mas aquilo dava para irmos para a FRESCA, do Fernando Luz Costa, jogar aos bonecos tardes inteiras de Domingo, depois de ver a televisão no canal único e onde passava a programação juvenil, que tanto apreciávamos. Outras vezes, e se era verão, íamos ao Valadas, ou ao Manuel Raio, alugar uma bicicleta, uma tarde inteira 7$50 cada bicicleta, nem sempre a “estalada”, dava para essa folia, aí virávamo-nos para os bonecos…

Outra padaria, a segunda de maior em dimensão, era a Padaria Tavares, com um grande forno, e esta sim, com uma grande chaminé, já que tinha da parte de trás do prédio onde colocar essa dita chaminé.


Esta padaria, estava também muito bem situada, os seus padeiros, eram também gente muito popular na Vila, e de uma simpatia muito grande. O Sr. António, pai da minha boa amiga Raimunda, mais conhecido pelo Paga Bem, era um homem respeitado e respeitador.

Outro padeiro era o Carlos, que tinha a alcunha do “Escalhabardo”, era muito espalhafatoso a falar.

Na  Vila do meu tempo, a Velhada não deixava ninguém sem título: tinha característica, levava o rótulo. Este senhor Carlos era o nosso agente de viagens naquele tempo, estava sempre a organizar passeios, a que aquelas famílias aderiam em peso, tantas excursões a que fui com os meus pais, organizadas pelo Carlos Escalhabardo.


Aquilo era como se fosse uma só família, naqueles tempos, levava-se o farnel e acampava-se em qualquer pinhal onde desse jeito, não havia cá mariquices, nem dinheiro para ir a restaurantes almoçar ou jantar, nem isso tinha graça, e tirava o pitoresco da coisa, já que se comia e bebia de um e de outro, (os velhos mais a beber, porque às tantas era cada “cega”…)
Neste Turismo do garrafão, sim porque era disso que se tratava, lembro-me do meu tio Zé Marques, que Deus lá terá em bom lugar, iniciava sempre as hostes com um garrafão pequeno daqueles de dois litros, logo de manhã a “matar a sede ao pessoal”, corria todos homens e mulheres, claro que só o pessoal do copo lhe dava saída, mas o típico da coisa é que ele obrigava a beber por um corno que ele tinha, resultado de uma aparadela de um corno de boi, e, apanhava a parte fechada e a parte mais larga, dava para aí um copo de três, mais coisa menos coisa. Depois, vinha outro com uma caixinha com pasteis de bacalhau para empurrar, pronto, lá começava a estragação, muitas vezes ao meio dia já havia umas boas carraspanas, e se haviam visitas, e horas marcadas para estar nos autocarros, esse pessoal andava sempre atrasado.


Se o circuito o permitia lá ia a saloiada toda direita ao aeroporto da Portela, muito rudimentar como podem calcular, estamos a falar dos anos cinquenta do século passado, parava-se para ir ver os aviões grandes, descolar e aterrar. Sim aviões grandes, porque pequenos tínhamos nós cá, e com fartura, já que a BA1 na Granja do Marquês tinha certamente o maior fluxo de tráfego aéreo militar do país.
Nestas visitas ao aeroporto, duas histórias verídicas, com gente de Sintra, uma num passeio do Escalhabardo, e outra não.


Partíamos cedo, algumas vezes ainda de noite, e chegava-se ao Aeroporto ainda o dia não tinha clareado, daí os autocarros da Carris andarem ainda de luzes acesas, passando  um autocarro de dois andares que tinha ido fazer serviço para aquelas bandas, vai uma senhora do nosso grupo para afilha:


 – Olha, olha, ó filha não vês ali aquele café a andar? Risada geral!…
Uma família de sintrenses foi ao aeroporto, ou na missão de mirones como nós, ou porque iam embarcar ou esperar alguém. A matriarca, que raramente saía da sua aldeia, toda espevitada, tomou a dianteira do grupo, e dirigiu-se para a porta. Assim que pôs os pés na zona da porta automática, esta de imediato se abriu, entretanto a família ficou a conversar e atrasou-se, ela voltou atrás, e lá ia ela de novo, a porta voltava a abrir, até que quatro ou cinco vezes depois deste trabalho, danada, foi ter com os familiares, e disse-lhes: 

– Oh criaturas, vamos embora, porque as pessoas coitadas estão fartas de abrir e fechar a porta e vocês nunca mais vêm.

O Sr. Tavares, tinha uma filha, que lhe deu um neto, o Cali Calé, diminutivo de Carlos, de que também muitas vezes sou apelidado, mas o neto do Tavares tinha um carro de pedais de ferro e folha, era um miúdo uns anos mais novo que eu, mas aí com uns cinco anos era exímio condutor do carrinho de pedais. Havia a esplanada da sede do Hóckey Clube de Sintra, nessa altura era mesmo do Clube, mas dada à exploração do Fernando Luz Costa. Tinha muitas mesas e cadeiras em ferro, iguais às do Café Paris de então, mas pintadas a azul, como o Sintra, embora um pouco mais claro. O Cali Calé fazia verdadeiras gincanas no meio daquilo tudo, fazia peões, e servia de entretimento aos basbaques, que sem nada para fazer se punham a ver as habilidades do pequeno.


A padaria do Tavares, era a que estava ali mais à mão de semear, quando vínhamos de madrugada dos bailes da Sociedade, batia-se à porta e vinha sempre alguém. Tinha a vantagem de o António Paga Bem ser nosso amigo, bem como o Carlos Escalhabardo, perguntávamos se já havia pão, e muitas vezes, as raparigas e os rapazes, ou compravam ou eles davam, um casqueiro quente, e, alguém ia a casa buscar manteiga, para comer pão quente com manteiga.


Outras vezes comprava-se e levava-se para casa para acompanhar com café com leite, assim a modos que um pré-pequeno almoço.
Outra padaria era a do Senhor Jacinto Penaforte, que se situava nas Escadinhas do Teixeira, logo na primeira porta à direita, tinha estabelecimento e forno também, tal como as outras.


Talvez fosse a mais pequena, mas deu para governar várias famílias do seu produto, era daí que o Caínhas Velho gastava, talvez por fidelidade ao seu amigo Jacinto Penaforte, um sintrense como ele.
Os seus padeiros, além do Senhor Jacinto Penaforte, eram os seus sobrinhos Eduardo e José Penaforte. Este tinha a alcunha do Zé Careca (nunca soube porquê, porque o homem tinha cabelo), pai do meu bom amigo Eduardo Penaforte. Tanto o Sr. Jacinto Penaforte como o seu sobrinho Zé foram filarmónicos, qualquer deles tocava clarinete, com uma diferença, o Sr. Jacinto era um bom músico amador, tinha a alcunha dos velhos do seu tempo de “O Palestrino”, algo que tinha a ver com a música penso eu, ainda toquei com ele, e era um bom primeiro clarinete. O seu sobrinho Zé Penaforte deveria ser o homem que melhor sabia solfejar, tinha muitos saberes da teoria da música, mas tocar, parecia um cão a roer ferro, era mais vento que notas boas. Mas muito meritório, estes homens eram padeiros e sacrificavam o seu descanso para ir ao ensaio, nunca faltavam. O Senhor Jacinto vinha a pé da Estefânia, morava atrás da Estação, para vir aos ensaios, nunca faltava, até a saúde lhe faltar e ele já não poder mais.


Gente do melhor, e que deixou saudades a quem com eles privou.


Ainda sou do tempo do Senhor Raimundo, fundador da padaria, e que era tio do Sr. Jacinto Penaforte, morava lá para a Ribeira de Sintra.


Tinham outro padeiro, também de nome Jacinto, homem que arribou para aí, morava lá para o Arrassário, tinha uma senhora toda jeitosa, que era um saco de pancada, pois o malvado era desses “heróis” (hoje diz-se violência doméstica), naquele tempo era mais terra a terra, e dizia-se que o Jacinto dava porrada na mulher, e bêbado ainda pior! E dava mesmo, porque de vez em quando lá andava a desgraçada com um olho à belenenses.

O meu tio Augusto, era um homem a quem a natureza nada favoreceu, tinha um atraso de nascença, sem ser imbecil, porém, era um alcoólico, era difícil tê-lo ocupado para se desviar do vinho, mas tinha um compromisso com a padaria do Penaforte, e levantava-se todos dias de madrugada, para ir fazer uma venda de pão, logo de manhã muito cedo. Esse tal Jacinto homem de mau carácter, sabedor das fraquezas do meu tio no que ao vinho dizia respeito, logo de madrugada oferecia-lhe vinho com sal, o meu tio muitas das vezes ainda trazia a bezana da véspera, e aquilo marchava tudo.


O meu tio morava connosco, na casa do meu pai, que era a antiga casa dos meus avós paternos, o meu pai era como se fosse o seu tutor, e tinha a responsabilidade de o ter debaixo de olho, e foi até morrer quem se interessou por ele. Um dia, foram-lhe fazer queixa, e o Jacinto ficou debaixo de olho do Caínhas Velho. 

O tempo foi passando, até que num domingo, estavam todos no Largo da Vila, não se trabalhava, as tascas abarrotavam com o pessoal do copo e as esplanadas do Paris, do Central e do Hóckey estavam cheias, (o turismo, não sendo como era antes da pandemia, já era muito). Normalmente aos domingos o  meu pai  ia sempre para a oficina trabalhar, menos que o normal, mas tinha que ir, porque não frequentava tabernas, e estar ali na Vila de braços caídos sem fazer nada,  ficava com as mãos inchadas, e não gostava de desperdiçar o tempo desse modo. 

Estava ele na oficina, alguém lhe veio dizer que esse tal Jacinto estava a por o meu tio Augusto “a dar sessão”, como se dizia naquele tempo.  O meu tio, já com os copos, era asneira por tudo o que era lado, e estava a ser uma vergonha, ver aquele infeliz a dar espetáculo. Ok, obrigado eu já lá vou.

O Jacinto tinha a reputação de rufia, costumava puxar por facas, e já tinha marcado uns quantos. Isso para o meu velho eram trocados, está ainda aí felizmente o meu bom amigo António Luís Miranda que assistiu a isso, o meu pai chegou perto do Jacinto, puxou-lhe pela gola do casaco e ferrou-lhe uma cabeçada que o enrolou no chão, desmaiado. Pegou no Augusto, e toca a andar à minha frente já para casa. O meu tio não obedecia a ninguém, mas com o Mestre Carlos, como ele e muitos lhe chamavam, nem ai, nem ui. A minha mãe ficou numa ralação, com medo que o Jacinto fizesse uma espera ao meu pai, e lhe desse alguma facada. Da oficina do meu pai à padaria do Penaforte eram para aí uns 20 passos, nunca mais houve vinho com sal, nem faltas de respeito, foi remédio santo.


Veio a União das Padarias de Sintra, e “fundiu” as padarias todas!… Acabou-se.


E aqui ficam as histórias das boas padarias da VILA VELHA do meu tempo, misturadas com outras histórias que se passaram com gente dessas padarias.


Sintra, 20 de Julho de 2020.


Carlos José Paulo dos Santos

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