Conversa com Raul Tomé sobre nanismo e mercado de trabalho

Em setembro de 2019 foi apresentada, no Palácio Baldaya em Lisboa, uma obra pioneira no nosso país intitulada ” Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – Dinâmicas de inclusão e exclusão“, editada pela In-Finita, e da autoria de Raul Tomé, um sociólogo e autor sintrense, que, apesar de ser pessoalmente alto, se interessou por um tema fora do mainstream, o das displasias ósseas, ou mais vulgarmente, das pessoas anãs, e sua integração no mercado de trabalho. Cabe a uma rede cultural atenta também divulgar o trabalho de quem entre nós investiga e publica sobre os mais diferentes temas sociais, muitas vezes no desconhecimento da comunidade onde vive paredes meias.

O livro resultou da dissertação de mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais apresentada pelo autor em 2014 no âmbito de Departamento de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa.

Quem é o Raul Tomé?

O Raul Tomé é um cidadão comum, que se debruça sobre as questões do dia-a-dia e que se preocupa com as questões de relevância social que afetam a vida das pessoas.

Quais são as suas principais preocupações enquanto autor e cidadão?

Enquanto autor, preocupam-me as questões ligadas à produção, apoio e visibilidade do trabalho que desenvolvemos.

No meu caso específico, escrevi um livro pioneiro em Portugal, sobre doenças muito pouco faladas, nomeadamente, as displasias ósseas. Mais precisamente, foquei-me na temática do Nanismo e na vertente ligada à integração destes indivíduos no mercado de trabalho e daí o título: Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – dinâmicas de inclusão e exclusão.

Foram oito anos de investigação intensa que depois não tiveram o apoio e a visibilidade merecida. E não falo da visibilidade do investigador, mas sim da temática e das pessoas a quem a obra e a investigação se dirigem.

Como cidadão preocupam-me todas as questões que, embora pareçam lugares comuns, não o são. A violência doméstica, os maus-tratos a animais, o racismo, a pobreza, o desemprego ou o abandono escolar, são apenas algumas das muitas preocupações que me assolam, nomeadamente, quando percebemos que existem mais meios financeiros do que aqueles que a classe política finge ter e menos vontade política do que aquela que nos querem fazer acreditar que existe.

Fale-nos um pouco do seu percurso

O meu percurso, como o de qualquer outra pessoa, teve os seus altos e baixos.

No entanto, comecei a frequentar o ensino superior tardiamente, já com 29 anos.

Mas isso não me impediu de tentar fazer sempre mais e melhor, não me fez perder a ambição de ser um cidadão ativo, nem de chegar mais longe.

Inconformado com a vida assalariada que tinha, procurei outros caminhos.

E trilhando esses caminhos, conclui a minha licenciatura em Sociologia, um mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e uma Pós-Graduação em Políticas de Igualdade e Inclusão. Mais tarde fui autor no Jornal Negócios, nas revistas on-line Bird Magazine, Repórter Sombra, Duas Linhas e SG Magazine.

Em 2018 passei a ser locutor na rádio Popular FM e no decorrer de 2019 publiquei a obra, anteriormente mencionada, e que resultou da minha dissertação de mestrado.

Como estamos em termos de inclusão? É Portugal ainda um país muito desigual?

Portugal é sem dúvida um país muito desigual. Há muito a fazer e nisso o Estado tem uma responsabilidade da qual não se pode demitir.

Para que se pudessem minimizar, de algum modo, as assimetrias existentes, era necessário que os governos disponibilizassem nos Orçamentos do Estado, verbas para a realização de projetos que possibilitassem a inclusão.

Todavia, seria também necessário a contratação de Assistentes Sociais, Psicólogos e Sociólogos que, erradamente, continuam a ser vistos como disciplinas menores, nomeadamente, quando comparadas com outras áreas de intervenção na sociedade como são o caso da saúde e da justiça.

Como vê o panorama social em Portugal? Como será a situação num mundo pós pandemia?

A situação, em Portugal e no Mundo, manter-se-á igual ao que sempre foi.

No nosso país, creio que as verbas disponibilizadas, assim como o investimento do Estado, serão reduzidas. As assimetrias irão adensar-se.

Os pobres ficarão mais pobres, os ricos, mais ricos ainda, e a classe média cada vez mais sufocada e entrincheirada.

Por essa razão, não acredito que resulte desta pandemia, nada de bom, nem nada de novo.

Quais as suas ligações a Sintra? Quer realçar algo que não esteja feito ou poderia ser melhorado?

As minhas ligações a Sintra são muito fortes.

Nasci no antigo hospital da Vila, sempre vivi no concelho, já residi em três freguesias distintas e, por essa razão, posso falar com alguma propriedade.

Infelizmente, considero que Sintra tem sido muito mal gerida.

Lembro-me de Edite Estrela, Fernando Seara e de Basílio Horta como presidentes e acho que nenhum deles deu à nossa terra aquilo que os sintrenses merecem.

Basta-nos olhar para o atentado que é a Tapada das Mercês, Rinchoa, Rio de Mouro, Serra das Minas, etc.

Falta de Ordenamento do território, falta de espaços verdes, arruamentos com enormes deficiências e a caótica recolha do lixo que é cada mais evidente e que prolifera por todo o nosso concelho.

Se analisarmos os concelhos vizinhos, como Cascais, Oeiras e até mesmo a Amadora, percebermos que os sintrenses merecem muito mais do que aquilo que lhes tem sido dado.

Quais são os seus projetos pessoais e como autor para o futuro?

Enquanto autor gostaria de continuar a fazer investigação, mas sem apoios é muito difícil.

Gostaria de desenvolver projetos de índole social no concelho de Sintra, assim como investigação séria sobre os problemas sociais do nosso concelho e do nosso país, mas não creio que possa a vir a obter apoios da Câmara Municipal nesse sentido.

Todo o projeto, de que anteriormente aqui falei, foi totalmente suportado por mim, mas não poderei voltar a fazê-lo da forma financeira e pessoalmente onerosa como o fiz no passado.

Relativamente a projetos pessoais, mantenho a firme convicção e a esperança de poder continuar a contribuir civicamente para a construção de um mundo melhor.

Por fim, deixe-nos uma mensagem para os agentes culturais de Sintra.

Gostaria que olhassem para os músicos, autores, escritores, investigadores, atores, pintores e todos os criadores de cultura do nosso concelho.

Temos muita gente válida fechada nas suas casas porque não têm onde mostrar o seu trabalho.

Eu, por exemplo, antes da pandemia, enviei a apresentação do meu livro para sociedades filarmónicas (isto para vos dar apenas um exemplo), por forma a poder apresentar nesses espaços culturais o resultado da minha investigação.

A resposta foi um doloroso silêncio.

É muito triste quando existem entidades, instituições e agentes que têm todas as condições materiais para ajudar, nomeadamente, através da disponibilização dos espaços e não fazem mais do que ignorar quem lhes quer acrescentar valor e atividades.

E mais triste ainda é sabermos que não temos o apoio dos agentes culturais da terra que nos viu nascer.

Abaixo, uma entrevista de Raul Tomé a Carlos Narciso, que complementa bem este seu depoimento:

Podem ler o trabalho do autor em

https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/8465/3/FINAL_2014_revista.pdf

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