Entrevista com Gonçalo Salvaterra

Gonçalo Salvaterra é um jovem sintrense que no dia 26 inaugura a sua primeira exposição de pintura no Legendary Cafe, em Sintra no âmbito da tertúlia dos Meninos da Avó, onde intervirá o poeta Jorge Telles Menezes (acima na foto com Gonçalo Salvaterra).A concluir o mestrado em Antropologia, depois de uma experiência no terreno, na Guiné-Bissau, defensor de causas e também companheiro de lides da Alagamares, falámos com ele nas vésperas desta sua apresentação pública.

“Aprender, aprender, aprender sempre!”

Gonçalo, que razões te levaram a promover esta exposição?

Bom, a ideia de expor não é nova, já pensava nisso há algum tempo, mas como os meus temas mudavam constantemente, bem como a ausência de uma certa coerência nos meus trabalhos, afastavam-me dessas lides. Contudo nos últimos dois anos comecei a ter um contacto muito grande com sociedades africanas por via da literatura, inevitável consequência da minha dissertação de mestrado, que numa segunda fase me levou à Guiné-Bissau e aí sim, o contacto deixou de ser nos livros e passou a ser claramente espelhado em tudo o que fazia no campo das artes plásticas e não só. Acho que era essa coerência que procurava e como tal, decidi apresenta-la num sítio que me é familiar como é o caso do Legendary. È também o fechar de um ciclo, sinto necessidade de partir para outra fase, ainda não sei qual, mas trabalharei para chegar a ela.

Que semelhanças e diferenças se podem detectar em realidades como a portuguesa contemporânea e a africana que pudeste conhecer?

Como já referi, eu estive na Guiné-Bissau e portanto só a esse país me posso referir, e mesmo dentro desse país circunscrevo-me apenas ao sul, concretamente na região de Tombali, uma vez que a Guiné-Bissau é um país com 32 etnias, cada uma delas naturalmente com traços culturais particulares, ainda assim penso que é possível traçar algumas linhas gerais sem cair no rigor científico.
É difícil comparar dois países culturalmente tão diferentes, Portugal inevitavelmente deixou marcas na GB pelo sistema colonialista de delapidação de recursos naturais que lá aplicou, bem como a guerra colonial que durou cerca de 11 anos. Mas não senti ressentimento da parte de ninguém, muito pelo contrário. É incrível como conseguimos ter uma conversa, onde existem pessoas que combateram nas duas frentes e o rancor não é sentido. Cabral teve um papel determinante neste aspeto, ao ter transmitido que a luta do povo guineense era contra o sistema colonialista português e não contra o povo, discurso que ainda permanece nos mais velhos.
Em Portugal, por enquanto, saliento, ainda temos um serviço publico de saúde, um sistema de educação publico e muitas outras garantias que conquistámos, mas na GB tais direitos são uma miragem, apesar do Estado guineense assentar numa base muito progressista com clara influência de Cabral, nada se verifica nesse campo, e com certeza os ajustamentos estruturais do FMI da década de oitenta não foram solução, aliás como um pouco por toda a África, onde Portugal também se pode incluir.
A hospitalidade guineense é digna de ser sentida, e revela um povo extremamente bondoso, uma semelhança com o português com base na minha experiência, ainda que manifestado de formas distintas. Para encerrar este assunto creio que a maior semelhança entre nós e os guineenses segundo a minha opinião, é talvez esta vontade de aprender, que também nos caracteriza. Aprender, aprender, aprender sempre! Aplica-se a eles e aplica-se a nós.

Existe, em tua opinião, um traço de união entre aquilo que se pode designar lusofonia?

Sim penso que sim, para me referir especificamente à GB. Mas não tanto pela questão aparentemente principal que é a partilha de uma língua comum, pois como referi anteriormente apenas uma pequena parte da população fala português, penso que a ligação histórica fala mais alto nesse sentido de união, bem como os trabalhos de cooperação das ONG portuguesas que são muito bem recebidas pelas populações locais e encaradas por estes como essenciais, ainda que em alguns casos a ignorância em alguns aspetos culturais por parte de algumas ONG leve ao insucesso de determinados planos de cooperação.

“As redes sociais trouxeram a banalização da arte”
Como jovem criativo, quais são os principais desafios que se oferecem a quem quer dar a conhecer o seu trabalho? Como vez o desafio das redes sociais, suas vantagens e desvantagens?

A oferta cultural por via das redes sociais atingiu níveis astronómicos, se aumentou a sua qualidade – podemos perguntar – tenho as minhas dúvidas. Todas as gerações tiveram as suas referências, talvez hoje haja mais artistas de qualidade devido à democratização do ensino, mas atenção, penso que hoje a elitização começa a ser novamente acentuada.
As redes sociais trouxeram a banalização da arte e não só, antes as pessoas deslocavam-se aos museus, às exposições, às tertúlias, etc., em busca de conhecimento, a internet reduziu essa necessidade. O ideal talvez seria, aliar as duas, mas a verdade é que isso não acontece. Penso que é altura de nos perguntarmos porquê. Naturalmente a chave reside no ensino, quando olho para o meu percurso escolar, vejo a ausência de incentivo ao pensamento crítico e reflexivo e o não do fomento pela cultura nos mais diversos campos. Basta ver os últimos anos de governação para ver como o ensino artístico foi cada vez mais empurrado para segundo, terceiro e quarto plano. Portanto, para mim, a negatividade das redes sociais advém da ausência de reflexão e pensamento critico, que naturalmente se espelha na forma como utilizamos as novas tecnologias.

Quando surgiu a ideia para esta exposição e quais são os seus traços principais?

Já referi em cima o motivo da exposição. Eu procuro refletir as minhas vivências no que pinto, ainda que quando estou a pintar ou a desenhar não pense muito nisso. Às vezes até tenho a sensação que o meu processo criativo é contrário ao que deveria ser, quase como o método dedutivo, uma vez que eu começo a pintar sem qualquer pensamento e durante o desenho – quase sempre figuras humanas – é que visualizo algo semelhante a uma memória ou conhecimento que já possua, a partir desse momento começo a tentar materializar a ideia, mas apenas depois de no decorrer conseguir visualizar um desfecho. Muitas vezes nenhuma ideia advém da pintura, nesses casos guardo para o futuro, mas apenas para perceber a minha evolução.
As obras que apresento – não gosto muito desta palavra, mas não me sai outra – têm toda essa particularidade que me é pessoal, seja uma imagem de um momento, o conhecimento da sua cultura ou as dificuldades que estes povos tradicionais – como o caso das comunidades das florestas de Cantanhez – enfrentam com os processos de expansão capitalistas, manifestados pelo incentivo a determinadas monoculturas agrícolas como caju em detrimento da diversidade agrícola, com o intuito de satisfazer essa entidade abstrata do mercado.

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A juventude portuguesa é hoje social e culturalmente engajada? Como te vês nesse universo multifacetado?

Há muitos jovens ativos no nosso país, o problema é ter tempo para nos dedicarmos a outros campos para além dos nossos estudos. Hoje a nossa realidade é marcada por um número maior de trabalhadores estudantes, que naturalmente rouba a maior parte do nosso tempo. Esta condição aliada ao que já referi da educação faz com que seja mais difícil estar ativo ou engajado se quisermos usar esse termo.

Como vês o panorama cultural em Sintra? Há um panorama cultural que assim possa ser catalogado?

Há certamente um panorama cultural, agora se ele é suficiente é a questão que se coloca. Penso que o movimento associativo tem dado cartas nesse aspeto, a Alagamares é evidência disso. Considero a reconstrução do Chalet da Condessa um grande feito e a prova que o movimento associativo pode estar ao serviço do povo. O grupo de teatro Tapa Furos também é uma evidência do nosso panorama cultural, está aí presente e resistente, como vimos na peça Fada Oriana. A saída da coleção Berardo foi uma grande perda, mas o MU.SA que veio substituir o museu da arte moderna tem as suas potencialidades, a maior talvez seja as exposições temporárias que permitem dar a conhecer artistas na sua fase inicial. A tertúlia “os meninos da avó” é outro dos expoentes que eu conheço, tem trazido grandes nomes da literatura nacional, como é o caso do Hugo Beja, Jaime Rocha, Manuel da Silva Ramos, entre outros. Mas é impossível fazer justiça a tudo o que acontece de relevo cultural no concelho, pois o meu conhecimento é reduzido.

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Quais são as tuas referências estéticas e literárias?

A verdade é que só há pouco tempo e por influência do meu amigo Júlio Almas , um grande artista e uma referência para mim, acrescento, comecei a estudar arte moderna e contemporânea. Mas sem duvida que um artista que me marca muito é o Picasso, principalmente o período africano e não esquecendo o Basquiat. No plano nacional a Helena Almeida, o Julião Sarmento e o José Escada. Há também dois artistas africanos que me influenciaram bastante, o angolano António Ole cuja obra tive oportunidade de ver na Gulbenkian e o guineense Nu Barreto.
No campo literário destaco o Pensamento Selvagem de Levi-Strauss de grande influência no meu percurso académico e de vida bem como o Tristes Trópicos. Outro livro que me inspirou no campo artístico foi o Arte Primitiva do Franz Boas, pai da antropologia moderna americana, um exercício estonteante de etnologia, onde nos trás a estética de centenas de povos ao redor do globo.

“Devemos seguir os nossos sonhos”

Quais os teus planos para o futuro?

Pretendo concluir o Mestrado brevemente, e continuar a estudar dentro do campo da antropologia ambiental. Gostava de prosseguir estudos doutorais, mas isso é mais adiante e não convém colocar a carroça à frente dos bois. Com certeza continuarei a dedicar grande parte do meu tempo no campo das artes plásticas.

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Uma mensagem, para os jovens criativos portugueses

Isso é difícil. Vou entrar num cliché e tentar desconstruí-lo. Devemos seguir os nossos sonhos, como dizia o Álvaro Cunhal o sonho comanda a vida. Isso deve ser entendido como uma forma ativa de escolher e dar o máximo de nós sem desistir, ter um objetivo e lutar por ele, claro que sabemos qual era o sonho a que o Cunhal se referia e talvez esse cumprido os outros adviriam e já agora como entrei neste campo, cito pela segunda vez Lenine que anteriormente não referenciei, aprender, aprender, aprender sempre

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