Entrevista com o escritor Liberto Cruz

Liberto Cruz nasceu em Sintra, em 1935, e licenciou-se em Filologia Românica, em 1959, na Faculdade de Letras de Lisboa, exercendo a função de professor do ensino secundário até 1966. Entre 1967 e 1968 lecionou Literatura Portuguesa na Universidade de Alta Bretanha, em Rennes, onde, em 1969, criou a cadeira de Literatura Angolana. Entre 1971 e 1973, dirigiu na Universidade de Vincennes, Paris, um curso de Literatura Angolana. Em 1975, foi nomeado conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris, cargo que ocupou até 1988, data a partir da qual assumiu a direção da Fundação Oriente. Poeta, romancista, ensaísta, traduziu também Samuel Beckett, Blaise Cendrars, Jean Husson, Robert Pinget, Le Clézio, Duras e Sade. Em 1961, fundou a revista literária Sibila; dirigiu, entre 1964 e 1966, a coleção Poesia e Ensaio da Ulisseia e, entre 1965 e 1966, colaborou na rubrica de crítica literária do Jornal de Letras e Artes. Colaborou nas revistas Poesia Experimental (1964-66) e Hidra (1966-69) e, desde 1971, na revista Colóquio-Letras.

As suas primeiras obras poéticas, Momento, 1956, A Tua Palavra, 1958, Névoa ou Sintaxe, 1959, e Itinerário, 1962, vindas à luz na viragem da década de 50 para a década de 60, refletem um momento de transição na poesia portuguesa, pelo reequacionamento da relação entre a linguagem poética e a realidade. Após as tendências contraditórias de uma poesia de intenção social, na linha do neorrealismo, ou de uma poesia que cultiva a liberdade imaginativa, na senda das experiências surrealistas, assiste-se então a um momento de crescente valorização da linguagem na criação poética, aliada, por vezes, a um experimentalismo, assumido por este autor apenas, e sob o pseudónimo de Álvaro Neto, em Gramática Histórica. Entre essas primeiras obras e Distância (1976) ou Caderno de Encargos (1994), medeia um percurso marcado pela busca de uma cada vez maior contenção imagística e metafórica, mas também discursiva, num itinerário de conquista de uma “sabedoria apaziguadora” (MARTINHO, Fernando J. B., pref. a Caderno de Encargos, 1994).

A Alagamares promoveu já em Outubro de 2014 o lançamento em Sintra da sua obra Felicidade na Austrália, onde muitas figuras familiares de S. Pedro do passado não passam despercebidas a quem viveu nesse local há várias décadas (foto abaixo)

Sobre a sua obra, dissertou a já desaparecida Helena Langrouva no III Encontro de História de Sintra, promovido pela Alagamares em 2007 (e onde o próprio Liberto Cruz falou da obra de M.S. Lourenço, por sinal disfarçado na assistência, a ouvir) num texto que aqui reproduzimos:

https://www.alagamares.com/a-obra-de-liberto-cruz/

Falámos com ele, por estes dias. Entrevista de Fernando Morais Gomes

“Um escritor nunca deixa de ser escritor. Só a morte física o aniquila”.

O Liberto Cruz é uma figura da vida cultural portuguesa ligado igualmente a Sintra. Como vê o seu contributo nessa área e como define a sua obra literária?

Creio que o meu contributo não deve por mim ser avaliado. Quanto à minha obra literária vejo-a como uma consequência da minha própria vida. O terrível tempo salazarista, a guerra em Angola, o exílio, a ausência da Pátria, o amor e a morte foram factores predominantes que me marcaram profundamente e são detectáveis na minha obra.

Há um sentido trágico em Sintra ou exacerbações românticas derivadas dos mitos que a ela se associam, hoje em retorno acentuado?

Creio que há simultaneamente um sentido trágico e romântico, alimentado por mitos vários que certamente nunca hão-de cessar e que a literatura irá utilizar continuamente.

Costuma dizer-se que depois de Sartre a pós-modernidade colocou os intelectuais numa posição descentrada. O que é ser intelectual hoje? Se o intelectual nasceu com a Cidade, hoje, com a globalização, terá virado funcionário? O intelectual é um “escriba obscuro”, como escreveu Foucault?

Agora e sempre os intelectuais hão-de ser substituídos por outros intelectuais. Mudam-se os tempos… como já lembrava Camões  .. e mudam-se as áreas do pensamento. Sartre começa a ser contestado e Georges Stein, há pouco falecido, uma figura maior nossa contemporânea, poderá correrá o risco, também, de um dia ser posto em causa. Intelectual tornou-se um termo demasiado genérico. Creio que a designação de intelectual a que se refere Foucault é muito restrita.

Quem escreve e relata mundos de imagens, uma vez escritor, alguma vez deixa de ser escritor? Há uma Morte nos escritores?

Um escritor nunca deixa de ser escritor. Só a morte física o aniquila.

A sua obra é classificável, ou classificar é limitar? Qual a sua obra mais conseguida? Já se zangou por ter escrito alguma delas?

É difícil classificar uma obra porque não pode existir um padrão. Há sempre algo que nos escapa. Lembremos Umberto Eco. Há dois livros que nunca esqueço:  Jornal de Campanha e Gramática Histórica. Só me zango por não ter escrito mais.

Pode dizer-se que o escritor escreve sempre o mesmo livro e toda a obra é autobiográfica?

O escritor escreve normalmente o livro da sua própria vida

O Liberto Cruz atravessou várias gerações de escritores e vários regimes políticos, sendo um dos fundadores do Partido Socialista, na Alemanha, em 1973. Como vê hoje a política e o país?

Em 19 de Abril de 1973 ao fundarmos o Partido Socialista na Alemanha é inegável que contribuímos para o ressurgimento do nosso País e ver Portugal democrático é uma alegria indescritível.

Foto:Liberto Cruz, segundo da fila de cima, na fundação do PS em Bad Münstereifel, na então RFA.

A literatura pode salvar?

A literatura pode salvar e tem salvo muita gente.

Acha que há um panorama cultural sintrense, ou apenas epifenómenos de franja?

Creio que há um lento desabrochar que virá, sem dúvida, a desenvolver-se.

Jacinto Prado Coelho dizia que ensinar a ler é facultar aos estudantes os instrumentos mentais para a análise do texto literário. O que pensa que procura o Leitor quando busca uma obra literária? Redenção, Contestação, Cumplicidade ou Conhecimento?

Há diversos tipos de leitores e a cultura e o ambiente de cada um são factores importantes para a compreensão e o seguimento das suas leituras. Assim cada leitor procura encontrar-se ou desencontrar-se através das leituras a que vai procedendo.

 

 

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