Jantar de Natal 2014

A 13 de Dezembro ma vez mais nos reunimos para o convívio de Natal, altura de balanços e relançamento de projectos, e a caminho do nosso 10º aniversário, que condignamente e com orgulho festejaremos no dia 9 de Março de 2015.
Em 2014 dedicámos tempo aos escritores de Sintra, jovens ou consagrados, e assim se organizaram sessões de apresentação do livro de poesia de João Afonso Aguiar “Ab Initio”, da obra de Sérgio Luís Carvalho “A Última Noite em Lisboa”, do livro de Manuel Gandra “Carvalho Monteiro: Imaginário e Legado”, do livro de contos de Filomena Marona Beja “Franceses, Marinheiros e Republicanos”, da primeira obra em prosa, aos 79 anos do poeta Liberto Cruz, ”Felicidade na Austrália” e ainda este ano, no próximo dia 16, no MUSA, do livro de António Tavares, vice presidente da Câmara da Figueira da Foz e finalista do prémio Leya 2013, “As palavras que me deverão guiar um dia”.
Debatemos o Centro Histórico e seus problemas, tomámos posição sobre o trânsito e a mobilidade em Sintra contra um regulamento ainda em apreciação, fizemos uma visita crítica e de denúncia à Quinta da Ribafria, em estado de semi abandono, e por cujo destino tememos, criámos um grupo de trabalho para promover a classificação de árvores e conjuntos arbóreos de relevo, denunciámos o estacionamento abusivo no Largo Rainha D. Amélia, consentido pela Parques de Sintra-Monte da Lua e deplorámos o abate duma tília centenária nesse local, que, se não podia ter sido salva, nada se fez para que a sua degradação não se tivesse acentuado com intervenções preventivas.
Assinalámos igualmente os 100 anos da criação por Fernando Pessoa dos seus heterónimos, os 40 anos do 25 de Abril com um concerto evocando a obra de Carlos Paredes, organizámos o IV Encontro de História de Sintra, depois de termos organizado o 3º em 2007, com inúmeras comunicações originais e de enorme relevo científico para a nossa história local, promovemos idas colectivas dos nossos associados e amigos a ver o teatro que se faz em Sintra, visitámos o património classificado das fortificações de Elvas, o museu da Casa de Saúde do Telhal, a Casa Museu Leal da Câmara, ajudámos a promover o Salão de Galamares, com um espectáculo musical e a apresentação pelo ACTIS da peça de Luís de Sttau Monteiro “Felizmente há luar!”. Ainda a semana passada lançámos uma campanha para a recolha de livros infantis e material escolar para enviar para a ilha do Fogo, em Cabo Verde, sendo que Sintra é geminada com Vila Nova de Sintra, na ilha Brava e entre nós reside uma vasta comunidade cabo-verdiana, e para a qual apelamos a contribuírem, vendo como no nosso site.

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Em 2015 com orgulho e alegria celebraremos o nosso 10º aniversário, e entre outras iniciativas contamos assinalar igualmente os 20 anos da classificação de Sintra como Património da Humanidade e os 40 anos das primeiras eleições livres- ocasião para debater as patologias e virtudes do nosso sistema político- bem como os 40 anos da independência de muitas das antigas colónias, e com elas e suas associações discutirmos e vivenciarmos a sua cultura, música, literatura ou gastronomia, em eventos vários ao longo do ano.
Vivemos dias de chumbo, mas também de desafio, e se certas patologias, como o desemprego ou a emigração enfraquecem o número e a pujança dos que militam em associações da sociedade civil como a nossa, novas oportunidades, caldeadas pela experiência e o ânimo de novos colaboradores vão permitindo este renovar de ciclo, com novos protagonistas e novas lutas para abraçar.
Entendemos a participação na vida associativa e o papel da sociedade civil como um contributo para o pluralismo e um reforço essencial da democracia participativa, e tão independente e genuíno será esse trabalho quanto mais distanciadas as associações estiverem dos poderes político-partidários, grupos económicos ou agentes que a coberto da participação mais não pretendam que as usar na sua escalada para o poder, e é esse o fio da navalha em que muitas vezes as associações e a sociedade civil se vê enredada. Independentes dos políticos, mas não das políticas, actores mas não figurantes, eis o nosso papel, activo e reactivo, mas sobretudo vivo.
Defender o património, nos tempos que correm, é mais que nunca um dever cívico, porque, avaras, as verbas encolhem, e o interesse público também. Para os militantes dessa causa, este deve porém ser um momento de vigília, e de não deixar que a frágil árvore desapareça na floresta densa de dificuldades, cortes e silêncios motivados pela ditadura da dívida, ou abocanhada por um qualquer Leviathan.
Defender o património, nestes dias dum Portugal cinzento, é estimular a cidadania, e as boas práticas; é pugnar pela educação escolar como plataforma para o seu conhecimento e propagação; é descolonizar a memória de imaginários estafados, acolhendo visões de património, que incluam o imaterial e o das vivências, amanhã seguramente tradições; é resgatar a auto-estima e o “sentimento de nós”, num tempo de cerrar fileiras, e estimular a identidade que constrói a nossa idiossincrasia e peculiar forma de estar no mundo; é lançar pontes e massa crítica, mediar entre o poder público e as comunidades, num trajecto virtuoso que acentue o pathos de ser português, e sê-lo de modo universalista.
Defender o património é zelar por restauros no Palácio de Queluz, repor a estatuária nos Capuchos, repensar o estacionamento e a sinalética nos lugares notáveis, pensar global para agir local, devolver vida ao Centro Histórico, à Estefânea, às pegadas de Carenque, à Ribafria ou à Quinta da Fidalga.
Defender o património é estar atento, ser parceiro com a lealdade de criticar, acompanhar as obras e não depois das obras, chamar a agir e interagir, actuar virtuosamente e não como agente de bloqueio ou de egoístas vaidades, atrás de protagonismos ou da negação pela negação.
Defender o património é revitalizar a Quinta do Relógio e o Hotel Netto, a Quinta D.Diniz e o Rio do Porto, repor a cúpula do Café Paris, intervir na Peninha, e rever o preço dos bilhetes, alargar o período de visitas gratuitas para os visitantes portugueses, instalar indústrias criativas e empresas startup, residências artísticas e artistas sem ser a recibos verdes.
Defender o património é ser ouvido antes das podas e das plantações, levar os utentes para a gestão das zonas verdes, implementar um Plano Verde pró-activo, obviar arborícidios e deixar crescer as espécies endémicas, monitorizar a pegada ecológica e os ecossistemas milenares, ouvir o som da água dos riachos e o coaxar das rãs, o voo dos morcegos e a seiva das araucárias, a frágil beleza das camélias e a portentosa guarda de honra dos plátanos.
Defender o património é defender o direito ao silêncio dos caminhantes, o cheiro da terra húmida, o pôr do sol no promontório da Roca ou o degustar dum travesseiro, dum ramisco ou as nozes douradas de Galamares.
Defender o património é divulgar e proteger os vestígios arqueológicos, identificar os tholos, proteger as antas, recuperar as fontes de água, classificar, promover classificações novas e divulgar as mais antigas.
Defender o património é tocar a rebate no campanário, sangrar a pena revoltada, cavalgar a comunicação com a serenidade das emergências para tranquilidade das consciências, visitar, escrever, protestar, ajudar, ouvir e ser ouvido, passar palavra, dar o murro certeiro e alertar o adversário, que por vezes é a inércia, outras a ignorância, as mais das vezes a incúria ou miopia.
Defender o património é pugnar pelo valioso presente que resultará da aliança da memória com a auto-estima, da singularidade com o talento, da polis com os seus moradores, dos conventos, palácios e moinhos, com a serra, as tapadas ou os lapiás.
Defender o património é aguarelar os chalés de Raul Lino e o traço de Norte Júnior e Adães Bermudes, a pedra esculpida de José da Fonseca ou a esculpida palavra do Eça, de Francisco Costa, M.S.Lourenço ou Maria Gabriela Llansol.
Defender o património é recordar os que trilharam o caminho, erguendo a tocha dos seres maiores, dos eremitas jerónimos aos novecentistas bretões, dos cavaleiros da finança aos poetas proscritos, de D. Fernando, rei artista ao Carvalho da Pena, jardineiros na fértil horta de Klingsor.
Defender o património é lembrar os muitos que em boa hora renderam Raul Lino, Viana da Mota, Mário de Azevedo Gomes, José Alfredo, Joaquim Fontes, Silva Marques, António Medina Júnior, Félix Alves Pereira, Octávio da Veiga Ferreira, Dorita Castel-Branco, Milly Possoz, Carlos Viseu ou Anjos Teixeira, numa lista sempre incompleta e várias vezes anónima.
Defender o património é poder ver o teatro de Alvim, Rui Mário ou Zé Sabugo, Susana Gaspar e Paulo Cintrão, Gil Matias e Paulo Taful; escutar grupos corais com Miguel Anastácio ou Pedro d’Orey, o Conservatório e os Bombos, ler Miguel Real ou Raquel Ochoa, apreciar a pintura de Edmundo Cruz, pensar Cynthia com Jorge Menezes, desfiar Orbesirindo e as novas sonoridades, reiventando a arte e desbravando patrimónios de afectos.
Defender o património é vivê-lo, e com ele conviver, como se cada peça, cada cheiro, cada sabor ou recanto fossem a mais preciosa relíquia deixada pelos nossos avós e que os nossos netos hão-de um dia receber, estranhando primeiro, orgulhando-se depois. Contra alguns, algumas vezes, por todos quase sempre. Por nós fundamentalmente.

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