João Antoniotti: “Espalhar positividade”

João Antoniotti é DJ e está essencialmente ligado à área lúdica e dos eventos, um jovem de Sintra que a quer ver dinâmica e vibrante. Mantém igualmente o podcast Sessão da Meia Noite, através da qual se manifesta e emite as suas opiniões e sugestões (link abaixo).

http://bit.ly/SessaoMeiaNoitehttp://bit.ly/SMNnoInstahttp://bit.ly/SMNn

Falámos com ele, eivado do espirito “expect the best, but plan for the worst. Um espirito tranquilamente positivo.

João, fala-nos um pouco do teu percurso.

Assim resumidamente, sou uma pessoa curiosa, de trato fácil, criativo (constantemente a sonhar acordado) considero-me também uma pessoa interessada, gosto de uma boa conversa, gosto de desporto/atividade física e bem-estar, socializar e divertir-me. Os meus dois amores são a música e a dança; gosto de cantar (não publicamente), e um dos meus vícios é ver filmes/séries/documentários etc.

Sou sintrense desde nascença (fui só nascer a Lisboa, de resto sou Sintra até ao tutano) tenho a felicidade de ter passado grande parte da minha vida nesta serra maravilhosa, apesar do microclima.

Desde cedo que pratico desporto, comecei no Sintrense na ginástica, depois para o Judo, e terminei no futebol, até juvenil de 1º ano. O 2º ano de juvenis fiz no Mucifalense. Adorei a experiência do futebol em Sintra, passei momentos inesquecíveis com os meus colegas de equipa – e ainda passo com alguns. Já no final de carreira futebolística decidi experimentar mais a sério a dança, e juntei-me aos Urban Dance Company – um grupo do concelho de Sintra também, com raízes em Algueirão – Mem-Martins. Foi uma experiência também muito gratificante.

O secundário (Sec. Sta. Maria) comecei em Ciências, mas após alguns meses, apercebi-me que não era o caminho certo, então troquei para Humanidades após o primeiro ano. Fiz um ano de Relações Internacionais na faculdade (ISCSP), mas, a par de outras razões, senti que naquela altura a vida académica não era para mim. Comecei a trabalhar pouco tempo depois.

Até hoje já passei por prospeção (vendas), hotelaria, cinema, audiovisuais, turismo, transportes e manutenção. Encaro cada trabalho como uma oportunidade para aprender, e considero-me bastante versátil nisso (em saber estar) e dá-me algum gozo/moral em ter conhecimento em várias áreas diferentes; não sendo especialista, sei um pouco de cada, que também é meritório a meu ver.

Em 2014 foi quando iniciei a aventura dos audiovisuais e DJing. Tirei um curso de mistura e produção de música na Sonika DJ Academy e comecei a trabalhar em eventos, primeiramente como técnico de som, e não passado muito tempo, enquanto DJ também. Tive a felicidade de poder tocar em espaços da Penha Longa com regularidade, nomeadamente, os restaurantes Arola, Basque e Villa Tamariz Utopia. Se não fosse esta situação do Covid, ainda estaria a trabalhar com eles, mas desde março de 2020 que tenho estado sem trabalho nessa área.

“Sê a mudança que queres ver”

A Arte está hoje em clara disrupção. Qual deve ser a mensagem que a mesma deve transmitir ao público ou públicos?

Eu não sei se arte deve ter uma mensagem, a minha opinião em relação á arte, é que não precisa de ter um objetivo, pode ser algo que se sente no momento, pode ser um momento de raiva expresso na tela ou outra coisa qualquer, mas o fundamental para mim é que a arte deve ser feita porque se quer e sente, não porque se deve e tem (parafraseando o grande poeta português Sam The Kid – Samuel Mira). Tendo dito isto, a cultura está a sofrer claramente neste ano de 2020. E se tiver que escolher uma mensagem para a arte passar para o público seria algo do género: Não ter medo, aceitar a ordem Natural das coisas e espalhar positividade através das mais variadas maneiras. Sê a mudança que queres ver.

As redes sociais promovem a mudança ou desviam o foco?

Eu acho que as redes sociais desviam o foco, apesar de ao mesmo tempo serem usadas para fazer publicidade a eventos culturais e aproximar mais as pessoas e os nichos; o problema que eu vejo é que neste meio os conteúdos com mais “likes” e “follows” têm pouco sumo, são coisas fúteis como a imagem (culto do corpo e do aparente), e a verdadeira cultura acaba por sofrer e acho que se vê nos valores morais das pessoas. Citando o comediante Jim Jeffries: “uma pessoa que tire mais de 3 selfies por semana, sofre claramente de um distúrbio mental”.

Com que tipo de espetáculos ou de intervenção artística mais te identificas? Deve a expressão artística ser contemplativa ou interventiva?

O tipo de espetáculos com que eu mais me identifico são os de música ao vivo e/ou com DJs. Sou recetivo à arte no geral, mas acho que a arte de intervenção é possivelmente melhor ou mais importante que a restante.

Eras convidado para dirigir um espetáculo para jovens de Sintra. Que tipo de preocupações terias em primeiro lugar?

Em primeiro lugar a segurança e o bem-estar.

Qual a tua opinião sobre os espetáculos em plataformas digitais e em streaming?

Não gosto, abomino quase. Já experimentei ver alguns, de artistas de topo, e nunca correu bem. Isto do streaming e dos lives e etc, para mim é tudo treta com pontuais exceções. Mas atenção, que eu percebo a aflição dos artistas que querem atuar e não podem. O meu problema é com as autoridades que os impedem de atuar em espaços públicos do que com os artistas.

Como vês a situação cultural num mundo pós pandemia?

Citando um poeta norte-americano: “Expect the best, but plan for the worst”. Eu quero acreditar que isto vai começar a melhorar e voltar ao “normal”, mas tal como mudaram as viagens de avião após o 11 de setembro, cheira-me que o normal será um pouco diferente.

Tens ligações artísticas a Sintra? Queres realçar algum evento marcante e cujo exemplo seria de aproveitar? E sugerir a forma de colmatar alguma lacuna estrutural?

Não que seja muito adepto de festas populares (muito devido à música que normalmente passa) costumo passar pelas festas de S. Pedro e as festas da Nossa Senhora da Praia – se não estou em erro. Apesar de não ser fã, houve situações em que a organização de facto trabalhou bem, e aí sim valeu a pena, e faço questão de ir se a “coisa” me parecer bem; é das melhores sensações, estarmos com os nossos “vizinhos”, em comunidade a celebrar a vida e a amizade.

Devido a trabalho nem sempre consigo ir, mas a última festa a que fui, em 2018 talvez, foi de facto uma belíssima festa! (Nossa Senhora do Mar) Acredito que com esta iniciativa da Alagamares as coisas podem melhorar (na minha perspetiva), principalmente para as festas de S. Pedro que são as festas mais próximas da minha residência e que, receio, esteja a perder ímpeto; ia lá muitas vezes em miúdo, quando andava no básico mas tenho vindo a perder interesse porque o departamento da música está fraquinho. Relativamente a alterações que eu faria para melhor, seria na zona da restauração. Nesta festa, os “restaurantes” precisam de mais espaço, e dentro dos mesmo não podem haver tantas pessoas, não faz sentido o quão pouco espaço os clientes e trabalhadores têm para se movimentarem; também tentaria mexer com a música, claro está. Este ano ia até concorrer para um espaço no espetáculo (tentar minha sorte), para o ano há mais. (espero).

O que falta ao movimento cultural para ter mais peso e visibilidade enquanto classe?

Eu acho que devia haver um incentivo para que Sintra estivesse mais viva durante mais horas; por exemplo a rua sem carros, noutro país qualquer (tendo em conta o quão turística é esta zona) de certeza que haveria música a pontapé nos restaurantes, bares, negócios que aí se encontram e artistas de rua; Á noite não há um único bar em Sintra que dê para dar um pezinho de dança, e bares em Sintra não faltam; antes ainda tínhamos a zona das praias, mas infelizmente já morreu. Ao encorajar isto, traríamos malta mais jovem para Sintra e a própria comunidade artística iria juntar-se mais e os vários intervenientes acabariam por criar ainda mais dinâmica juntando artistas de diferentes áreas para “eventos” em que se mostra um pouco de tudo, com convívio saudável á mistura. Eu bato mais nesta tecla da música porque é do que eu sinto mais a falta; nós aqui temos que ir para Lisboa ou para as Linhas para podermos sair á noite, dançar – aqui em Sintra parecem atividades criminosas, como se a socialização e a dança não fossem parte da Cultura. Juntando a isto, se eu mandasse em Sintra, incentivava aos proprietários para que arrendassem mais a médio/longo prazo (rendas decentes), do que o alojamento local. Atenção, que não quero dar aqui alguma ideia de xenofobia, ou assim, eu adoro o facto de haver tanta gente em Sintra, estrangeiros e nacionais, mas acho que eu que vivi aqui a minha vida toda, devia ter condições para viver aqui, principalmente se existem casas por ocupar (arrendamento a longo termo), Sintra não pode ser dinâmica se a deixam envelhecer mal, se é para envelhecer que seja com estilo, vivacidade e qualidade. E também para haver portugueses a viver nos locais turísticos de Portugal. Nos tempos em que dividia casa em Lisboa, os estrangeiros perguntavam muito pelos portugueses, porque não os viam na rua.

Qual a tua agenda neste momento?

De momento estou a trabalhar na manutenção do Golf da Penha Longa, é essa a minha agenda por enquanto.

Um sonho profissional que gostasses de concretizar

Eu não tenho UM sonho, mas tenho várias situações de sonho que vou equacionando na minha mente. Uma delas era o seguinte negócio: havendo uma legalização da Marijuana, era abrir um restaurante/snack-bar, em Sintra (na condição de sócio-gerente), com uma boa vista e um espaço amplo e agradável onde se pudesse desfrutar dos produtos “agora” legalizados; serviço de qualidade e com personalidade, muito virado para os produtos veganos e biológicos, com música (curadoria feita por mim) ao vivo, ou DJ e com a fantástica doçaria tradicional sintrense: broas de mel do Gregório, travesseiros da Piriquita e queijadas da Sapa – pelo menos estes 3 teriam que estar presentes. O horário do espaço não seria muito alargado, possivelmente nos dias de maior amplitude horária das 9 ás 3 da manhã – não mais que isso. Faria também eventos privados.

O que separa a geração que tem hoje 60 ou mais anos da atual? A Arte tem geração?

Eu acho que é muito o que separa as gerações de agora com as gerações dos anos 60 e mais (falando de um modo geral); agora isto não quer dizer que pessoas de gerações diferentes não possam concordar a nível de pensamento e Cultura. Creio que tem que ver com a sensibilidade, recetividade e curiosidade de cada um, e também o quão “formatados” à sua “era” estão. E não, não creio que a arte tenha geração, se for de facto arte, é intemporal.

Entrevistador Fernando Morais Gomes

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