Luís Paixão Martins fala-nos sobre o Museu das Notícias em Sintra

Uma nova e original centralidade vai nascer em breve na Vila de Sintra, no espaço antes ocupado pelo Museu do Brinquedo: o News  Museum, assim se chamará o “Museu das Notícias, dos Media e da Comunicação”, onde se apresentará a história da evolução dos media e do jornalismo, retratando igualmente os principais eventos da História recente de Portugal e do Mundo à luz dos relatos e reportagens das televisões, rádios, jornais e meios digitais, ao mesmo tempo que se homenagearão os principais protagonistas do universo mediático, aí coexistirá o enfoque quer nas narrativas portuguesas, quer nas internacionais, com uma plêiade de conteúdos estruturados para públicos de várias nacionalidades e  línguas.

Para desenvolver este projecto, foi criada a Acta Diurna, associação privada e sem fins lucrativos, tendo como membros fundadores Luís Paixão Martins e seus familiares mais próximos, a qual foi formalmente constituída, através de escritura pública, no dia 6 de Março de 2015. Luís Paixão Martins presidirá,  João Paixão, será responsável pelo projecto do museu, e Rodrigo Moita de Deus terá a seu cargo a direcção criativa.

No sentido de descortinar um pouco mais o que virá a ser esse novo equipamento, a Alagamares foi ouvir o principal responsável pela iniciativa, Luís Paixão Martins.

Luís Paixão Martins, como surgiu a ideia de criar este Museu das Notícias, e porquê em Sintra?

A criação do Museu das Notícias é o meu legado no final de uma carreira de quatro décadas nos media e na comunicação, primeiro como locutor de Rádio, depois como jornalista e, desde 1986, como consultor de Comunicação. A equipa de projecto definiu alguns objectivos de localização do museu, nomeadamente a opção por uma centralidade turística da Região de Lisboa. A dada altura, iniciámos contactos para dois edifícios em alternativa, um em Lisboa, no Terreiro do Paço, e outro, na Vila de Sintra, aquele porque optámos. Ambos os edifícios encontravam-se devolutos e pertenciam a entidades públicas. A Câmara Municipal demonstrou um entusiasmo maior pelo nosso projecto, entusiasmo esse que se traduziu, essencialmente, na celeridade do processo. Andámos muito depressa em Sintra. O edifício tem história: albergou os primeiros paços do concelho de Sintra, foi sede dos bombeiros e, mais tarde, um museu dos brinquedos.

Para quando a abertura, e que tipo de conteúdos poderemos aí apreciar?

O Museu das Notícias é criado para o conhecimento e promoção dos Media, do Jornalismo e da Comunicação. Vai apresentar um conjunto de experiências multimedia que apresentam episódios e protagonistas da história recente através da sua repercussão mediática. Teremos módulos, por exemplo, de jornalismo de guerras, uma galeria de alguns dos confrontos mediáticos mais conhecidos, uma área de “más notícias”,  do incêndio do Chiado ao desastre ferroviário de Alcafache, outra de propaganda, espaços dedicados a Fátima, a Cristiano Ronaldo, Mourinho, a António Ferro, à Rádio do 25 de Abril. Os visitantes vão ser convocados a participar nos módulos do museu. Podem, por exemplo, numa simulação de TV, relatar a inauguração da agora designada Ponte 25 de Abril ou a assinatura do tratado de adesão à CEE.

Trata-se de um conceito não muito visto entre nós, que inovações ponderam introduzir naquele espaço?

Será uma experiência essencialmente digital, participativa e formativa. É para divertir e mexer. Dizemos que é um museu POP. Para além da experiência chamemos-lhe normal, de “navegação”, os visitantes poderão optar por uma experiência de “mergulho”, que poderá ser desfrutada localmente ou “on line”, e uma experiência de formação promovida pelos serviços educativos para estudantes do secundário, para universitários e para “novas oportunidades”. Dou um exemplo. Atrás referi o módulo da Rádio do 25 de Abril. Os visitantes verão uma réplica da cabina do Rádio Clube Português e algumas informações essenciais, poderão aprofundar o seu conhecimento com animações à volta do assunto, como um perfil multimedia de Salgueiro Maia, e poderão, se quiserem, imitar Joaquim Furtado a ler aquela mensagem do “Aqui posto de comando…”. São três compromissos diferentes do visitante para com a exposição que podem ser assumidos isoladamente ou de forma complementar.

Sabemos que o News Museum se propõe ainda dinamizar iniciativas relacionadas com os Media e o Jornalismo, através de um relacionamento pró-activo com a comunidade profissional e empresarial do sector, disponibilizando-se, nomeadamente, para acolher espólios em risco de desaparecer em consequência do ambiente volátil  que vive o universo da comunicação social. Têm algum espólio em particular já previsto?

Consideramos dois tipos de espólios. Esperamos poder complementar a experiência multimedia com algumas peças reais relacionadas com os temas. Por exemplo, um telex ou uma câmara de TV antiga na história dos media, um ou outro documento pessoal dos homenageados. Mas, além disso, contamos com a disponibilidade da Câmara Municipal de Sintra para poder acolher outros espólios, estes mais interessantes para investigação, em instalações apropriadas e disponíveis, em espaço exterior ao museu. Pela limitação do espaço do próprio edifício onde vai ficar alojado o museu, ali teremos de nos concentrar na experiência essencialmente digital.

sem nome

Sabemos ir ser igualmente criado um Comité do Panteão, que seleccionará as personalidades ou instituições que virão a ser objecto de homenagem perpétua no futuro Museu. Se tivesse de indicar algum nome ou instituição que desde já mereça tal distinção, quem indicaria?

Considero-me um observador, um observador activo e participante, mas essencialmente um observador do sistema mediático e do jornalismo. Por isso, entendi que deveria competir a outros a selecção dos seu pares para a nossa galeria de “Os Imortais”. É assim que se vai chamar o “panteão”. Para essa missão convidei três jornalistas veteranos e com actividades académicas e de investigação. São eles o Adelino Gomes, o Alexandre Manuel e o Óscar Mascarenhas. Infelizmente, o Óscar faleceu entretanto. O Adelino e o Alexandre é que irão escolher os “imortais”, partindo do documento que o Óscar nos deixou, um dos últimos que ele escreveu em vida. Por isso, como calcula, não me atrevo a responder ao seu desafio. Acrescento que também iremos homenagear, noutras zonas do museu, os vivos, tanto à escala nacional como à escala global e, mesmo, alguns dos que deixaram o sistema mediático e conseguiram ganhar notoriedade noutras actividades. Vamos referenciar um ex-jornalista português que mereceu o prémio Nobel, outro que se tornou banqueiro, outro que é empresário da indústria dos Media, outro ainda que é vice-primeiro-ministro. 

Crê poder este projecto contribuir para a revitalização do Centro Histórico de Sintra?

A Vila de Sintra inaugurará, no Verão, um outro moderno equipamento de conteúdos, onde estava localizado o posto de turismo, promovido pela Região de Turismo de Lisboa, a Associação Turismo de Lisboa e a Câmara Municipal de Sintra. Será também ele uma experiência multimédia, esta dedicada à história e ao património de Sintra. Creio que o acolhimento que a câmara municipal nos dispensou decorre da ideia de que os dois equipamentos constituirão argumentos de peso para atrair visitantes interessantes, cultos e sedentos de conhecimento ao centro histórico. É uma enorme responsabilidade para o nosso projecto. Esperamos corresponder a essa meritória ambição. 

Como vê o futuro da comunicação social, face aos desafios das novas tecnologias?

É um tema complexo demais para o âmbito limitado de uma entrevista como esta. Dá-se a coincidência de que estou exactamente agora a começar a preparação de um texto sobre o assunto. O meu objectivo é lançar esse livro de forma a coincidir com a abertura do museu. Em síntese, posso adiantar que a mudança crítica que está neste momento em curso é a separação de interesses entre os Media e o Jornalismo, duas entidades que, ao longo do séc. XX, se confundiram no Sistema Mediático. E que, ao contrário das indústrias dos Media e do Jornalismo, que estão em crise, a indústria da Comunicação tem sabido responder melhor às mudanças tecnológicas e outras do Sistema e, por isso, talvez devesse servir de modelo. Mas isto, claro, é a visão parcial de um empresário da Comunicação.

Fotografia1237

Luís Filipe Paixão Martins é consultor de comunicação e relações públicas e fundador da LPM Comunicação. Interessou-se pela rádio quando estudava no Liceu Camões, em Lisboa, cuja ERE – Equipa Radiofónica de Emissão integrou em 1967. Em 1971 iniciou então a actividade profissional como locutor na Rádio Renascença, e ali profissionalizou-se como apresentador de programas.

Em 1975, já como jornalista, ingressou na redacção do Jornal Novo. Em 1976, transitou para a Agência ANOP. Voltou à rádio em 1979, quando foi lançada a Rádio Comercial, onde foi editor dos noticiários da manhã e editor dos programas da direcção de informação. Em 1985 foi chefe de redacção da Agência NP (Notícias de Portugal). Colaborou nos semanários O Jornal e Se7e. Em 1977/8 cursou no CPJ (Centre de Perfectionnement des Journalistes et des Cadres de la Presse) e estagiou na agência France Press.

Em 1986, deixou a profissão de jornalista para se dedicar ao conselho em comunicação e relações públicas. Em 2007, solicitou à Assembleia da República a criação de uma “credenciação específica” para os profissionais das agências de comunicação, lançando a discussão em torno da actividade de lóbi em Portugal.Em 2012, fundou o conceito Hybrid Public Relations, uma metodologia de ponta para integrar toda a comunicação das marcas e organizações com os media e os públicos.

Share Button