Marina Ferraz, a escrita como tradução de vivências

Entrevista com Marina Ferraz, blogger, letrista, escritora, e representante de Sintra na final nacional do Poetry Slam. Marina Ferraz nasceu em Coimbra em 1989. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, e Mestre na mesma área, pela Universidade de Coimbra.

Marina, fale-nos um pouco de si, e como entrou a escrita na sua vida

Bem… uma coisa é certa: é difícil para mim determinar onde a escrita acaba e a Marina começa. Não me lembro da vida sem escrita e decidi ser escritora no primeiro ano da primária, quando ainda só tinha aprendido as vogais.

Penso que a melhor forma de falar de mim é como alguém que continuamente busca o seu lugar no mundo e o faz escrevendo.

Sou autora do blog Segredos de um Monstro,( http://kkadreamsland.blogspot.com/ ) onde publico todas as semanas; performer e slammer; letrista e copywriter. Sinto honestamente que é a escrita (e também o palco) que me fazem quem sou.

Fora isso, sou uma sonhadora à espera do amanhã, apaixonada pela família, pela Natureza, pelos amigos e pelas palavras.

Escrever é prazer ou trabalho?

Escrever é tudo isso. Uma grande parte do que escrevo é a título de trabalho, outra parte é puramente lúdica. De ambas retiro prazer e considero que sou muito abençoada de poder trabalhar naquilo que mais gosto: a escrita.

A Marina está também ligada ao movimento hoje em expansão do Poetry Slam. Quer explicar-nos em que consiste o conceito, e como surgiu em Portugal?

O Poetry Slam é uma competição de poesia oralizada e spoken word, onde vários poetas têm 3 minutos para expressar, em poesia autoral, as suas ideias, sentimentos ou o que quiserem. O formato foi trazido para Portugal pelo Mick Mengucci, e tem crescido desde então. Da forma como eu vejo o slam, é um espaço de partilha, de expressão livre, de companheirismo. Conheci a maioria dos meus amigos no Slam, e acho que este mundo vai muito além do formato competitivo que o define na raiz… 

E Sintra? Como tem sido o histórico das iniciativas? Como tem sido a adesão das pessoas? Quer destacar alguns momentos mais relevantes?

Eu sou concorrente do Poetry Slam Sintra e, sobre a organização, ninguém melhor para falar do que os dinamizadores: Vanessa Oliveira e Marinho Pina.

Nos olhos de uma concorrente, tenho a dizer que acho a equipa dinâmica e interessada, lançando desafios como workshops e momentos artísticos a par com o Slam.

Representei Sintra na final nacional de 2018 e o mesmo acontecerá este ano, no Portugal Slam 2020.

O momento mais marcante, em termos pessoais, foi um Poetry Slam Sintra de 2019, no qual a minha família teve a oportunidade de assistir pela primeira vez e onde atuei com uma bailarina sintrense – Inês Franco – num projeto que tenho chamado “Maria Bonita”.

“Gosto de pensar como incendiária”

Um escritor é um frustrado, um incendiário ou um visionário? Qual a ideia que tem do que é escrever?

Todos eles ou nenhum deles. Um escritor é um tradutor de vivências, sentidos e sentimentos e pode ser, por isso mesmo, um infinito de coisas. Há tantas formas de se ser escritor como de se ser humano. Ainda assim, se for falar de mim, gosto de pensar como incendiária. Isto por uma razão simples: acredito que as palavras têm poder e podem ser usadas como arma para criar um mundo melhor. É um pouco assim que vejo também o Slam, como já referi. Tento colocar isso no ato de escrever, com toda a responsabilidade que acarreta.

Uma vez publicada, a obra deixa de ser do autor e parte para uma nova vida. O leitor pode absorver uma obra de maneira diferente da que o seu criador a concebeu?

Pode, deve e se não o fizer algo está errado. Cada pessoa é uma pessoa e interpreta à luz das suas vivências e experiências. A beleza da arte tem duas fases: a criação artística e a sua recriação. É uma honra conhecer novas interpretações dos meus textos e perceber a dimensão das palavras e o seu poder.

Quem são os seus autores de referência, portugueses e estrangeiros?

 Tenho uma lista muito extensa de autores de referência mas, para deixar alguns exemplos: na poesia portuguesa, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill e Florbela Espanca, sem dúvida. Na prosa, Eça de Queirós e José Saramago, que é o autor da minha obra favorita, “As intermitências da morte” e ainda, entre os autores vivos, a magnífica Lídia Jorge. Entre os estrangeiros, posso referenciar, por exemplo, Clarisse Lispector e Charles Bukowski.

Como vê a situação da poesia em Portugal?

 Honestamente, para que houvesse uma situação, seria preciso que lhe fosse dada mais importância. Se a literatura já foi considerada por muitos, e cito: “o parente pobre das artes”, a minha opinião é que a poesia é o “parente pobre da literatura”.

Não é um estilo de escrita comercial e, por isso, não lhe é dada a devida importância pelas estruturas que permitiriam que ela chegasse às pessoas e nelas despertasse interesse.

Tenho pena porque acredito que, de alguma forma, é justamente o estilo literário que mais transmite o que vem dentro e que, por isso, carrega a humanidade, a proximidade e as emoções que estamos a perder de década para década.

Quer indicar um texto ou obra sua que a marque particularmente?

Dos trabalhos publicados, sou obrigada a ressaltar o meu blogue – Segredos de um Monstro – onde publico semanalmente. O texto “O Monstro” certamente define-me… mas existem vários outros que me marcam.

Por publicar tenho um livro de contos centrado na morte e um romance de fantástico que são marcantes, não só pela experiência de escrita mas por toda a componente emocional que nelas coloquei.

Quais as suas ligações a Sintra? Há autores de referência em Sintra?

Eu mudei-me para Sintra em 2017 e, sinceramente, cheguei a casa. Neste momento, muitas das pessoas que conheço e que escrevem residem em Sintra e sou uma profunda admiradora de todas elas.

Não posso, ainda assim, deixar de ressaltar que a presença de Sintra na literatura romântica portuguesa, principalmente nas mãos de Eça de Queirós, acendem sempre uma grande parte do encanto que tenho por esta região. 

Qual a sua agenda para os tempos mais próximos? E projetos para o futuro?

 O Covid-19 veio afetar bastante a questão da agenda e tenho feito um pouco menos “trabalho de palco”, incluindo o “Poesia em Paris”, que dinamizo em Coimbra e as performances com os LX Poetas. Ainda assim, no dia 15 de Outubro vou ter uma pequena participação no Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras; estarei como convidada no Fama d’Alfama, no dia 28 de Outubro e, claro, vou estar na final nacional do Poetry Slam (Portugal Slam) no dia 14 de Novembro, em Coimbra (local ainda a definir).

No dia 25 de Novembro vou estar no Teatro D. Maria para o concerto do Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, de Renato Júnior com o seu álbum “Uma Mulher Não Chora”, onde constam dois temas com letra de minha autoria (“Vou”, na voz de Rita Redshoes e “Quando Morre o Amor”, na voz de Kátia Guerreiro- ver clip abaixo. Os bilhetes estão à venda na Ticketline.

Podem sempre ir acompanhando as novidades através das minhas redes sociais (Facebook e Instagram) e do blog.

Um desejo pessoal ainda por cumprir

Eu acho que há sempre desejos por cumprir. O meu objetivo de vida não é fechado: quero ser melhor amanhã do que fui hoje, chegar a novos patamares, viver novas experiências e atingir novos limites. Em termos concretos, algo de que gostaria muito seria de ver uma letra minha a representar o país no Festival Eurovisão da Canção.

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