O Século XIX em Sintra-Locais, Factos e Figuras

Um artigo de Fernando Morais Gomes

Advogado e jurista. Fundador da Alagamares-Associação Cultural, da PAACS-Plataforma das Associações e Agentes Culturais de Sintra, e do Núcleo de Sintra do Sporting Clube de Portugal.Anterior membro da Direção dos Bombeiros Voluntários de Colares e do Grupo Desportivo e Cultural de Galamares e antigo presidente da Assembleia Geral da Associação Sons e Compassos. Autor dos livros “A Freguesia de S. Martinho“(2013) e “Histórias com Sintra Dentro“(2015). Autor do blogue Sintralidades-O Reino de Klingsor e administrador do blogue colectivo Sintra Deambulada.

O século XIX foi o período áureo no qual a paisagem mitológica de Sintra é moldada por mão humana no sentido de o tornar o paraíso terreal que dele faria uma joia patrimonial .

Abaixo, um breve relance pelos espaços, figuras e realidades que marcaram o século XIX sintrense.

OS LOCAIS

Palácio da Pena

No século XIX a paisagem da serra de Sintra e as ruínas do antigo convento maravilharam o rei-consorte Fernando II de Portugal, que em 1838 decidiu adquirir o velho convento da Pena e a cerca envolvente, que incluía o Castelo dos Mouros e quintas e matas circundantes.

D.Fernando II

Seguindo a narração de Fernando Morais Gomes e Daniel André no seu livro “A Freguesia de S. Martinho” de 2013, no tocante à área do antigo convento, promoveu-lhe diversas obras de restauro, com o intuito de fazer do edifício a sua futura residência de Verão. O projeto foi encomendado ao mineralogista germânico Barão von Eschwege. Homem viajado, Eschwege, que nascera em Hessen, deveria conhecer, pelo menos em forma de projeto, as obras que Frederico Guilherme IV da Prússia empreendera com o concurso de Schinkel nos Castelos do Reno, tendo passado em viagem de estudo por Berlim, Inglaterra e França, pela Argélia e por Espanha (Córdova, Sevilha e Granada).

Em Sintra, os trabalhos decorreram rapidamente e a obra estaria quase concluída em 1847, segundo o projeto do alemão, mas com intervenções decisivas ao nível dos detalhes decorativos e simbólicos do rei-consorte. Muitos dos detalhes, nos planos construtivo e decorativo, ficaram a dever-se ao temperamento romântico do próprio monarca que, a par de arcos ogivais, torres de sugestão medieval e elementos de inspiração árabe, desenhou e fez reproduzir, na fachada norte do Palácio, uma imitação do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar.

Após a morte de D. Fernando, o palácio foi deixado para a sua segunda esposa, Elisa Hensler, Condessa d’ Edla, o que à época gerou grande controvérsia pública, dado que se considerava já o histórico edifício como monumento. A viúva de D. Fernando procurou então chegar a um acordo com o Estado Português e recebeu uma proposta de compra por parte de Luís I de Portugal, em 1889, em nome do Estado, que aceitou, reservando então para si apenas o Chalé da Condessa, onde continuou a residir.

Com essa aquisição, o Palácio passou para o património nacional português, integrando o património da Coroa.

Durante o reinado de D. Carlos, a Família Real ocupou com frequência o palácio, tornando-se a residência predileta da Rainha D. Amélia, que se ocupou da decoração dos aposentos íntimos.

Palácio de Monserrate

A história do Palácio e Quinta de Monserrate, então designado como Quinta da Bela Vista remonta a data desconhecida, mas pensa-se que a construção de uma pequena capela do tempo da Reconquista cristã marca os seus inícios. Tal  fundamenta-se no facto de Gaspar Preto, um monge nascido em Segura, no concelho de Idanha-a-Nova, aí ter feito reconstruir uma capela, em 1540, após uma peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Monserrate, em Barcelona. Este novo templo recebeu a invocação de Nossa Senhora de Monserrate.

Em 1790, e com o objetivo de “ arrendar utilmente a mesma Quinta, mas também promover a utilidade, conservação e aumento deste Prédio (…)» (tal como revela um contrato assinado na época), D. Francisca Xavier Mariana de Faro Melo e Castro dá a arrendar a propriedade a Gerard De Visme, comerciante inglês que enriquecera graças ao monopólio da importação de pau-brasil, concedido pelo marquês de Pombal, que ainda manda construir um palacete neogótico. O local escolhido foi o de uma antiga capela que encontrando-se em ruínas foi, entretanto, refeita noutro local.

De Visme residiu pouco tempo em Monserrate, acabando por subarrendar a propriedade a William Beckford, por volta de 1794, partindo para Inglaterra no ano seguinte, aí permanecendo enquanto durou o arrendamento.

Beckford utilizou uma pequena parte da sua grande fortuna para realizar inúmeras benfeitorias no palácio. Avançou, também, com a primeira concretização de um jardim romântico, que integrava as ruínas, um Cromeleque e uma cascata natural ali existentes.

Beckford não chegou a ficar na quinta dois anos, partiu para Inglaterra e depois voltou a Portugal, em 1798. Durante a estada de Beckford em Inglaterra (de 1795 a 1798), Monserrate foi arrendada aos três filhos de José de Oliveira, fidalgo da Casa Real. É a partir desta terceira estada em Portugal, de Outubro de 1798 a Junho de 1799, que Beckford renova o contrato de sublocação aos herdeiros de De Visme por um período ininterrupto de nove anos, em 1807 (Costa, 1985: 52).

Em 1799, Beckford deixa definitivamente o nosso país e Monserrate volta a entrar em declínio.

Após a partida definitiva de Beckford, em 1799, a propriedade foi totalmente votada ao abandono. “Ninguém da alta nobreza estava à altura de continuar os grandiosos sonhos do rico Mr. De Visme  e ainda menos de velar pelo bom estado do paraíso e de dar sequência aos projectos de felicidade que foram concebidos pelo mais rico dos ingleses”.

Da visita de Byron à propriedade, em 1809, ecoa do poema Childe Harold’s Pilgrimage (XXII-XXIII), o sentimento romântico que o velho e harmonioso palácio nele havia despertado

Em 1855, a propriedade conheceu novo destino: D. Maria de Castro e Almeida Pimentel de Siqueira e Abreu, detentora do morgadio de Monserrate, regressa de Goa, e perante a impossibilidade de se alojar no palácio que a sua família possuía em Lisboa, no Alto de Santa Catarina, destruído pelo terramoto, vende Monserrate a fim de obter fundos que lhe permitam construir uma nova residência no bairro lisboeta da Lapa.

Em 1856 a quinta de Monserrate é comprada à família Mello e Castro por Francis Cook, um milionário inglês, comerciante de têxteis que manda refazer o palácio ao gosto neo-mourisco, aí criando  um notável jardim paisagístico, inspirado pelo romantismo inglês.

A Sir Francis Cook Francis Cook (1817-1901), que em 1841 casa com Emily Martha, filha de Robert Lucas se fica a dever a concretização de um coerente programa construtivo e ornamental do arquitecto inglês James T. Knowles, em plena comunhão com o programa de florestação e renovação das espécies botânicas do parque.

Os Cook em Monserrate

James transforma Monserrate num magnífico jardim exótico plantado pelo inglês Burt (falecido em 1887)

É graças ao espírito romântico de Francis Cook, à intervenção programática do paisagista William Stockdale, do botânico William Nevill e do mestre jardineiro James Burt que são criados cenários contrastantes no Parque de Monserrate que, ao longo de caminhos sinuosos, por entre ruínas, recantos, lagos e cascatas nos permitem o contacto com ancestrais fetos-arbóreos e araucárias da Nova Zelândia e da Austrália, agaves e palmeiras que recriam um cenário do México, camélias, azáleas, rododendros e bambus, lembrando um jardim do Japão. Nesta aparente desordem, exemplares de espécies espontâneas da região, como os surpreendentes medronheiros de porte arbóreo, os já muito raros azevinhos e os imponentes sobreiros pontuam e complementam a magnífica paisagem.

Quinta da Amizade

Carlos Sassetti, natural de Sintra e profundamente enamorado pela Vila, e a sua serra explorou sobremaneira a ambiência deste paraíso local. A atitude de Sassetti refletiu-se sobretudo nos planos que regeram a execução da casa rodeada pelo exótico parque da Quinta da Amizade, que mandou erguer na primeira metade de oitocentos como hospedaria na soalheira encosta do castelo e sobranceira à Vila. Implantado na encosta da Serra de Sintra circundado por jardim e mata murado com entrada pedonal através de um portão de ferro, pela Calçada das Merendas a Norte, e por outro portão com acesso a viaturas a Oeste em altimetrias diferentes, possui um Jardim com cameleiras, centúrias, magnólias gigantes e grande variedade de laranjeiras, palmeiras, limoeiros e velhos cedros libaneses. Decoram o jardim várias fontes e canteiros de buxo.

Victor Carlos Sassetti, em Sintra, que viria a ser proprietário do Hotel Victor em Sintra e do Hotel Braganza em Lisboa, nasce em 1851, e em 1885 adquire três terrenos na Serra de Sintra para a feitura de uma casa de veraneio no local, onde entre 1890 e 1894, com o conselho de Luigi Manini construi a mansão

Palácio de Seteais

O terreno desta propriedade, que sempre foi público, pertencia em 1783 ou antes mesmo a Daniel Gildemeester natural de Utreque e que naquela época recuada era cônsul da Holanda no nosso país.

Gildemeester, embora dono da quinta, não tinha nela casa de habitação, pois vivia no verão como inquilino no palácio do Marquês de Pombal na rua Consigliéri Pedroso pagando de aluguer 2000$00 rs por ano.

A quinta das Alegria foi também obra de Daniel Gildemeester para o que mandou quebrar enormes rochedos e conduzir de fora muita terra, com isso gastando o cônsul da Holanda para cima de seiscentos mil cruzados.

William Beckford, que assistiu á inauguração do palácio descreve no seu diário a festa que assinalou o evento o qual teve lugar em 25 de Julho de 1787, dia dos anos de Daniel Gildemeester.

Segundo o falado manuscrito parece que Luís José de Brito então contador do reino ofereceu a Gildemeester de quem era amigo, um pequeno mato que havia no extremo poente da quinta da Alegria onde o cônsul da Holanda mandou construir uma casa para fabrico de manteiga, e como tinha muito dinheiro, não esteve com meias medidas e mandou vir da Holanda uma família que percebia do assunto.

O Mato chegava até a base do Monte de Santa Catarina situado dentro da Quinta da Penha Verde, que ficou sendo daquela banda o limite da Quinta da Alegria.

A grande riqueza de Gildemeester ainda foi aumentada de forma muito curiosa. Em Fevereiro de 1786 naufragou ao norte de Peniche o galeão espanhol S. Pedro d´Alcantara que regressava de Peru com carga valiosíssima. Bastante foi recuperada mas muita ficou no fundo do mar. Julgando terem ficado esgotados os recursos da época para recuperar o resto o rei de Castela que estava grato ao cônsul holandês por virtude de umas diligencias que este tinha feito na Alemanha em relação a um grande fornecimento de madeiras para construções navais, ofereceu-lhe o direito de recuperar à sua custa o que lhe fosse possível do precioso espólio que o oceano guardava. Gildemeester arriscou muito dinheiro, mas conseguiu tirar do fundo do mar uma grande parte da riqueza submersa.

Mas parece que não era dotado de grande tato administrativo, pois dava grandes festas e receções oferecendo aos numerosos amigos almoços, jantares e ceias gigantescas, chegando a trazer de Lisboa uma violinista a quem dava casa, comida e 24.000 rs. por mês. Assim, como seria de esperar, quando deixou este mundo em Fevereiro de 1793, no seu palácio de Sintra, já a sua fortuna estava bastante reduzida.

Deixou viúva D. Joanna de Goran, e um filho com o mesmo nome do pai, o qual lhe sucedeu no cargo de representante diplomático do seu país em Portugal.

A quinta e o palácio passaram em data que se ignora, mas certamente já muito perto de 1800, para a posse do filho mais velho do 4º marquês de Marialva o 5º marquês D. Diogo José Vito de Menezes Noronha Coutinho, que também foi 7º conde de Cantanhede e estribeiro-mor de D. Maria I  que acrescentou no alinhamento do palácio acomodações para a família, cavalos, e sem comunicar estes dois edifícios em tudo semelhantes na perspetiva, juntou por um arco majestoso que os realça e perpetua a honra que o marquês teve em 1802 de ali receber o rei D. João VI e D. Carlota Joaquina sua esposa.

Parece assim não haver qualquer dúvida de que o corpo do lado do nascente é obra do 5º marquês de Marialva. Esta construção foi feita logicamente onde Gildemeester tinha construído os estábulos aproveitando possivelmente alguma parte deles.

O arco é encimado por um medalhão onde se veem as efígies daqueles dois príncipes tendo por debaixo a inscrição: “A João Augusto fidelíssimo príncipe regente, esperança, amor e delicia da Lusitânia gente, por motivo da paz que desejamos e também dos inúmeros negócios resolvidos nestes calamitosos tempos, não só pela força das armas em todo o tempo invictas, mas pela sabedoria, prudência e justiça do seu real animo com felicidade e preclaríssimas virtudes, consagra este monumento o marquês de Marialva no ano de 1802.”

Numa ata de reunião da Câmara datada de 6 de Julho de 1800 constata-se que na data referida já as propriedades pertenciam ao marquês de Marialva o qual nessa altura pretendia aforar o Campo de Seteias que era do domínio público. Assim a transmissão verificou-se pouco antes desse ano.

Houve pelo menos três tentativas para as fechar: uma por parte do marquês de Marialva nos princípios do Séc. XIX; depois ainda dentro do mesmo século, cerca de 1897.

Na posse das propriedades sucedeu-lhe a filha mais nova D. Joaquina de Meneses que foi marquesa do Louriçal, por ter casado com D. Luís Maria Eusébio de Meneses Silveira, 4º e último marquês daquele título e 8º conde da Ericeira.

D. Joaquina de Meneses nasceu em 1782 e morreu em 1846. Em 1851 ainda corria o inventário instaurado por sua morte e entre os bens a partilhar lá estava o palácio de Seteais. D. Joaquina faleceu no estado de viúva, sem ascendência ou descendência, pelo que a propriedade coube em partilha ao sobrinho D. Nuno José Severo Rolim de Moura Barreto, 1º duque de Loulé, e que foi grão-mestre da Maçonaria Portuguesa. Nasceu em 6 de Novembro de 1804 e morreu a 22 de Maio de 1875.Ao duque de Loulé sucedeu na posse do histórico palácio e Quinta da Alegria e aforamento do campo seu filho D. Augusto Pedro de Mendonça Rolim de Moura Barreto. Também ele teve desejos de fechar o campo tal como o marquês de Marialva.

A Quinta do Relógio

A Quinta do Relógio, também conhecida pela quinta do Monte Cristo, situa-se a poucos metros da Cascata dos Pisões.

O mais antigo registo de que temos conhecimento remonta aos primeiros anos de Oitocentos, altura em que a propriedade estava na posse de “um certo Padre Jerónimo” que, poucos anos depois, a “legou aos antepassados do 15º Conde do Redondo”, D. Fernando Maria de Sousa Coutinho Castelo Branco e Meneses (1789-1863), titular da herdade em 1850.

Da quinta então usufruída por estes homens, nada hoje resta, mas ainda é possível ter uma perceção genérica do que teria sido pelos desenhos de Esquioppetta (1829) e Celestine Brelaz e pelas notas do viajante inglês William Beckford.

Mais tarde, o milionário Metznar adquiriu-a, e aí construiu a primitiva casa da Quinta do Relógio Também o banqueiro Thomas Horn foi, depois, seu proprietário. A quinta ficou a dever o seu nome a uma poderosa torre que, com os seus numerosos sinos, “dava as horas ao som de vários minuetes“. Supomos que fosse uma torre setecentista, pois ela haveria de ser demolida por volta de 1800, altura em que o banqueiro Thomas Horn construiu, em sua substituição, um edifício habitacional de veraneio. Disso mesmo nos dá conta Beckford, que já não descreveu a torre, e Brelaz, que não a desenhou, sinal de que, já pelas décadas centrais do século XIX, a torre havia desaparecido.

Nos anos 50 de Oitocentos sob o reinado de D. Pedro V (1853 – 1861), a história desta propriedade haveria de mudar drasticamente. Adquirida por Manuel Pinto da Fonseca, traficante de escravos com o Brasil, e cognominado o “Monte Cristo” (cognome extraído do célebre romance de Dumas, publicado em 1846), pelas múltiplas viagens e vida atribulada, as anteriores construções foram demolidas, para dar lugar a um dos mais exóticos palácios privados sintrenses. Inspirando-se possivelmente nas suas viagens tendo em vista o acesso à sociedade erudita, culta e endinheirada da Nobreza de Corte optou por uma estética neo-árabe, para o que contratou o arquiteto António da Fonseca Júnior, que encontrou também importantes sugestões estilísticas na própria serra de Sintra, em particular nos palácios da Pena e de Monserrate.

O palacete então edificado é constituído por um pavilhão central de topo ameado, ao qual se anexam dois corpos mais baixos. A exótica fachada exterior foi pintada com fachas transversais que, na zona central, apenas ocupam a metade inferior da parede; o restante espaço surge-nos aqui ornamentado com pinturas florais e geométricas de nítida feição árabe.

No alçado principal da casa destacam-se sete curiosas janelas, sobrepujadas por arcos em ferradura. Ao centro, subsiste uma galeria enquadrada por três grandes arcos em ferradura, os quais são sustidos por delicadas e lisas colunas, encimadas por capitéis decorados com motivos florais.

As riscas horizontais prolongam-se ao longo de toda a galilé, onde se abrem três elegantes portas em ferradura, superiormente contornadas por frescos, similares aos outros já referidos. Aí, entre as portas e as rosáceas que respetivamente as encimam, destaca-se, pintada na parede — a branco sobre fundo azul, e por três vezes repetida —, uma legenda árabe, divisa dos reis mouros de Granada: “Deus é o único vencedor”.

Nos jardins da Quinta do Relógio encontra-se abundante vegetação exótica variadas e raras plantas, tais como magnólias, camélias, araucárias, buxos, fetos arbóreos e fúcsias plantadas desde logo pelos seus primeiros proprietários. Porém, o que deveras fascinou o poeta inglês Robert Southey (1774- 1843) foi a imponência de um magnífico e muito antigo sobreiro — porventura vetusto vestígio da flora indígena —, sobre o qual escreveu: “Há aqui uma árvore tão grande e tão velha que um pintor deveria vir de Inglaterra só para a ver. Os troncos e os ramos são cobertos de fetos, formando com a folhagem escura da árvore o mais pitoresco contraste”.

“Conta-se que, um dia o rei D. Pedro passava diante desta casa na companhia do seu amigo o marquês de Sá da Bandeira, este último, ouvindo a doce melancolia de um repuxo, perguntou-lhe: «Senhor, o que é este barulho?». «-certamente a água» « Não, senhor, é o sangue dos negros flagelados pelo chicote que este homem transformou em ouro».

Aqui passaram a lua-de-mel em 1886, D. Carlos de Bragança e D. Maria Amélia de Orleães, futuros reis de Portugal. Segundo a tradição, D. Amélia, igualmente fascinada com a velha árvore, terá afirmado: «Vale mais a sobreira dos fetos do que Cascais e Estoris, tudo junto».

FIGURAS DE SINTRA NO SÉCULO XIX

Lord Byron

Quando se fala de Sintra no sec. XIX a figura mais recorrente é a de Byron, que no Lawrence Hotel terá escrito parte do seu Child Harold Pilgrimage, onde dedica uns versos a Sintra:

“Lo! Cintra’s glorious Eden intervenes

In variegated maze of mount and glen.

Ah me! what hand can pencil guide, or pen,

To follow half on which the eye dilates

Through views more dazzling unto mortal ken

Than those whereof such things the bard relates,

Who to the awe-struck world unlocked Elysium’s gates?”

Lord Byron, ou George Noel Gordon, tinha 21 anos quando a 7 de Julho de 1809  chega a Lisboa, em plena ocupação francesa e inglesa, com o rei no  Brasil e a anarquia nas ruas. Embarcara em Falmouth, com o seu amigo John Hobhouse e os criados Fletcher, Murray e Bob, e já era membro da Câmara dos Lordes e autor editado nessa altura. Visitou Sintra, Mafra, e Lisboa, e deixou Portugal a 17 de Julho, tendo permanecido apenas 10 dias entre  nós, mas os suficientes para mostrar desprezo pelos portugueses(“terra sanguinária onde a lei não basta para proteger a vida”) e emular a bela e  verdejante Sintra.

 Consigo viajou em 1809 um outro inglês, John Cam Hobhouse, que nos deixou um relato da sua visita a Sintra, no âmbito dum diário de viagem escrito em latim, e de que respingamos extratos, traduzidos em português:

2ªF,12 de Julho de 1809″-Fui com Marsden de caleche até Sintra, numa estrada com muitas curvas, três jugos de vinho, pão e queijo e trinta dinheiros. Vimos o palácio de Marialva em Sintra e os jardins de Monserrate, antes propriedade do sodomita inglês Beckford, agora deserto e sem mobília. Entretanto, Byron foi a Mafra visitar o palácio e convento, onde antes da invasão francesa os frades eram 150 e agora só 30(…)Jantei em Sintra com três clérigos Scott, Simmons e Turner e  passei lá a noite”

3ªF,13 de Julho de 1809-“De burro, fomos a Nossa Senhora da Pena, ao mosteiro de S. Jerónimo onde vivem 4 monges, pobres mas não mal vestidos. E ao Cork Convent(Capuchos?)na parte mais alta da região, com 17 franciscanos que  não comiam carne nem bebiam vinho e se flagelavam. Mostraram-nos uma cave no jardim (…)o seu abade pôs-nos queijo e laranjas numa mesa de  pedra. Descemos então das alturas e visitámos Colares, bela vila, com vinho abundante, clarete, e tornámos a Monserrate, um palácio só excedido pelo de Marialva em Sintra. Aí jantámos com o bom reverendo Turner. Noite em Sintra”.

John Cam Hobhouse

 4ªF,14 de Julho de 1809-“-Fomos visitar com Byron, e por sugestão da irmã de  Marialva, o seu palácio, ricamente decorado em estilo inglês(Seteais)e  estivemos na sala onde a famosa Convenção  foi assinada e  vimos um mosteiro do lado oposto. Dissemos adeus a Sintra, onde havia no hotel vários hóspedes embriagados e uma mulher suja irlandesa nos entregou uma monstruosa conta de 40 dollars e meio(…)Lendo acerca de  Sintra, descubro que a humidade é causada por exalações de vapor”.

 A 16,escrevia Byron para Inglaterra:

 Ao Sr. Hodgson] “Lisboa, 16 de Julho de 1809.”

 “Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, &c., – o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo  Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma  maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.

 Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico  com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, – e  frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e  sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.

Quando os portugueses são pertinazes, eu digo ‘Carracho!’ – a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de ‘Damme!’ – e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o ‘Ambra di merdo’ [por ‘Homem de  merda’ ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, ‘Avra bouro’ [por  ‘Arre burro’ ?], que significa ‘Get an ass’ [‘Arranja um burro’ …!?!,  obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido  como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! – se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou  infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento.

 Amanhã começaremos a percorrer cerca de 400 milhas até Gibraltar, onde  embarcaremos para Melita [por ‘Melilla’ ?] e Bizâncio. Uma carta para Malta aí me encontrará, ou será reexpedida caso eu esteja ausente.  Rogo-te que abraces o Drury e o Dwyer, e todos os Efésios que encontres. Escrevo com o lápis que me foi dado pelo Butler, o que torna o mau estado da minha [escrita?] mão ainda pior. Perdoa a ilegibilidade.

 Hodgson! Envia-me as novidades, e as mortes e as derrotas e crimes capitais e as desgraças dos amigos; e dá-nos conta das questões literárias, e das controvérsias e das críticas. Tudo isto será agradável – ‘Suave mari  magno, &c.’. A propósito, tenho andado enjoado e farto do mar.  Adieu.”

Depois, foi o regresso a Lisboa, onde a 17, rumou a Sevilha, enquanto o seu companheiro e os  criados seguiam para Gibraltar. Para sempre ficou o Delicious Eden….

Máximo José dos Reis

Máximo José dos Reis (n. Janeiro de 1769, filho de João Alberto dos Reis e Marianna Rita de Jesus Luís, falecido a 2 de Maio de 1849 em Sintra) foi o último Capitão-Mor de Sintra e Colares a desenvolver em plenitude as suas funções entre Agosto de 1813 e Junho de 1828 e o primeiro Presidente (da Câmara Municipal de Sintra) eleito do novo regime constitucional estabelecido após a vitória liberal de 1833 e a aclamação de D. Maria II. Exerceu o mandato de presidente da Câmara até ao dia 4 de Janeiro de 1836. Apesar de pessoa discreta e regrada, Manuel Pinheiro Chagas, na sua História de Portugal denominou–o de «opulentíssimo»

Foi um grande proprietário rural e urbano, e possuidor das Quintas dos Pisões, Penha Longa, da Alegria ou Seteais, do Rio do Porto, do Ano Bom, da Portela e diversos edifícios na vila de Sintra, como o, ainda em funcionamento, Hotel Lawrence, tão ao gosto de Eça ou Byron. Nessas quintas desenvolveu uma grande atividade como produtor de laranjas e outros “frutos de espinho”, que exportava para Inglaterra e França.

 Máximo dos Reis cedo se destacou pela sua capacidade de iniciativa e disponibilidades financeiras, ajudando frequentemente os cofres do Real Erário em períodos de escassez de recursos e adquirindo, desde 1796, apólices da dívida pública. Contribuiu, durante as invasões francesas, com 120$000 reis anuais para o exército português, e frequentemente, abonou do seu bolso o magro cofre da Câmara Municipal de Sintra para fazer face a todo o tipo de despesas, nomeadamente de assistência aos expostos.

 O seu casamento com D. Maria do Rosa do Carmo ocorreu, a 19 de Fevereiro de 1800, na Igreja de S. João Degolado da Terrugem. A noiva era filha do empreiteiro de obras públicas mestre canteiro Domingos Pereira e de sua mulher Maria Joaquina. Faleceu Nos Paços Reais de Sintra a 19 de Fevereiro de 1817 na sequência de problemas pós-parto no dia de aniversário de casamento. A propósito da mulher do Capitão-Mor  um excerto de um artigo de Sousa Viterbo publicado em 1908 no Arquivo Histórico Portuguêz :

 “Máximo José dos Reis era natural do Linhó, pequeno lugarejo próximo de Sintra, e da freguesia de S. Pedro da mesma vila. Muito novo foi para Sintra para ser caixeiro na loja, que hoje pertence a Jerónimo Ignácio Cintra. Casou depois com uma senhora de nome D. Maria Rosa do Carmo Pereira, do casal da Asneira, no lugar de Vila Verde, freguesia da Terrugem, do concelho de Sintra.

Desse casamento houve quatro filhos, o 1. ° e o último, meninas, e o 2. ° e o 3. ° varões, morrendo de parto a mãe, pouco depois do nascimento da última filha. Foi essa senhora sepultada na igreja de S. Martinho da vila de Sintra, em sepultura que tinha o n. 9, sob a condição, imposta pelo capitão-mor e recomendada ao velho sacristão, de que dali não sairia senão para o jazigo, que seu viúvo ia mandar construir no cemitério de S. Sebastião, daquela vila, estabelecido no terreno de um seu pequeno casal desse nome, e que ele cedera à autoridade competente de então, sob a clausula de que esse seu jazigo ali se conservaria perpetuamente, o que se não dá presentemente, porque esse terreno foi já profanado, e nele vão construir a cadeia da vila!

 A respeito do cadáver desta senhora deu-se um triste episódio, que é relatado do seguinte modo: havendo por esse tempo as lutas civis da liberdade, e sendo chamados às armas todos os mancebos aptos para esse serviço, a fim de formarem o batalhão nacional, o antigo sacristão Henrique José de Oliveira teve de partir para Lisboa para se alistar naquele batalhão já na sua ausência o coveiro da igreja de S. Martinho, sabendo que não havia nessa igreja nenhum coval vazio, abriu, por maldade ou estupidez, a sepultura n. 9, onde jazia o corpo de D. Maria Rosa do Carmo Pereira dos Reis, e, encontrando-o ainda intacto, tirou-o para fora, e, amarrando-lhe uma corda ao pescoço, o puxou, de rastos pelo pavimento da igreja, saindo a porta principal, indo deposita-lo na casa dos ossos (ossário) ao lado esquerdo da igreja, pequeno compartimento, muito arruinado, que ainda hoje ali se vê.

 Máximo José dos Reis, sabendo deste triste incidente, e como era já então autoridade em Sintra, mandou chamar, de Lisboa, o sacristão Henrique de Oliveira, censurando-o da incúria em não cumprir as suas ordens e encarregando-o de averiguar da veracidade do caso, que, sendo confirmado, o levou a mandar prender o coveiro, que foi processado e condenado. O cadáver de D. Maria Rosa voltou para a sua sepultura, e só de lá saiu muito mais tarde para o jazigo no cemitério de S. Sebastião”

Máximo José dos Reis, não tinha estudos superiores, mas mesmo assim foi nomeado pela Junta Governativa do Concelho de Sintra em Junho de 1846 – após a revolta da “Maria da Fonte” – Juiz de Direito Interino. A Junta demitira o Juiz da Comarca Morais e Sousa que tinha participado na falsificação dos votos entrados nas urnas e “…era um dos mais salientes extorquidores do dinheiro do Povo…”.

 O Sargento-Mor Policarpo de Fontes, preterido na corrida para Capitão-Mor em Janeiro de 1812, foi quem mais se movimentou contra Máximo, conseguindo o seu objetivo em 1828 no advento do miguelismo, e sendo nomeado Capitão-Mor depois de uma luta de 16 anos para conseguir o ambicionado cargo. No entanto, foi sol de pouca dura, pois algo de grave terá sido descoberto pela donatária da vila de Sintra, a rainha-mãe D. Carlota Joaquina, que não se inibiu de o demitir em Maio de 1829, menos de um ano depois da posse; “que por justos motivos dignos da Sua Real Consideração e por não convir a Seu Imperial e Real Serviço houve por bem demitir do posto de Capitão-Mor das Ordenanças desta vila a Policarpo Joaquina de Fontes”. Terá nisso pesado o facto de Máximo José dos Reis ser compadre e grande amigo do almoxarife do Ramalhão João dos Santos, homem de total confiança (e não só…) da dita senhora?

Quanto à Quinta dos Pisões, Máximo adquire-a em hasta pública em 1810 depois de uma execução movida a António Valeriano de Souza Prego, Manuel Joaquim de Souza Prego e sua mulher D. Ana Justina de Freitas (a quem Máximo compra em 1811 as casas e quinta do Campo Semite de Seteais, num processo litigioso onde também participam Francisco Pedro de Souza Prego e Fernando Arsénio de Souza Prego).

 Em 1828, dois dos filhos que consigo aí viviam tiveram destinos trágicos. O filho mais velho, suicidou-se num tanque. O mais novo, estudante em Coimbra, entrou num atentado promovido por um grupo liberal chamado os “Divo dignos” contra uma diligência que trazia a Lisboa professores daquela cidade para um beija-mão a D. Miguel, de que resultaram mortos e a prisão do mesmo, Domingos Joaquim de seu nome. Consta que preso e tendo pedido ajuda a seu pai, o mesmo recusou achando que o filho deveria pagar pelos seus atos, o que terá motivado uma maldição do filho contra a família e o seu património.

Lenda ou coincidência, o certo é que morto o último capitão-mor de Sintra em 1849,a quinta, por falta de descendentes diretos acabou na posse dum William Galway que morreu internado num manicómio nos Estados Unidos. Um filho deste acabou por vender os Pisões que assim foram parar a estrangeiros e fora da família.

Gerard De Visme

Gérard de Visme ou Devisme, um dos proprietários da Quinta de Monserrate, foi um comerciante inglês que chegou a administrador das joias da Coroa portuguesa. Originário de uma família nobre e protestante, que por motivos religiosos teve de ir da Picardia para Inglaterra, depois da revogação do édito de Nantes, nasceu em 1726 e estudou na Westminster School, tal como o irmão, Louis, que foi um diplomata britânico eminente. Outro irmão, William, foi o autor dos atos da Igreja da Valónia, e outro irmão, Benjamim, distinguiu-se na Índia, onde chegou a coronel.

Quanto a Gerard, sabe-se que teve uma filha ilegítima, mas desconhece-se se teve esposa. Morreu em 1797, sem herdeiros legítimos, deixando os bens à filha, que casou com o conde e general Henry Murray.

Gerard fez os estudos em Westminster e dedicou-se posteriormente aos negócios, fundando um banco em Portugal, o Purry, Mellich e de Vismes. Chegou cá aos 20 anos, e cá possivelmente nasceu a filha. Fazendo fortuna com o pau-brasil, adquiriu propriedades em Benfica e a Quinta de Monserrate, sabendo-se ter sido amigo da princesa Carlota Joaquina.

Introduzido na corte, ocupou um posto na embaixada inglesa em Lisboa, onde aliás, um dos irmãos fora antes secretário. Por essa altura terá chegado a administrador das joias da Coroa e das minas de diamantes do Brasil.

O Palácio de Monserrate, arrendado e recuperado por si, em 1791, foi uma das obras a que se dedicou durante a sua presença em Portugal, além do de Benfica(imagem abaixo), que possuía jardins magníficos. Também o presbitério da igreja anglicana e o hospital britânico em Lisboa tiveram a mão de Gerard de Visme.

O palácio de De Visme era um edifício simples constituído por uma estrutura de corpo central mais elevado que se ligava a duas torres cilíndricas nas extremidades. O seu vocabulário estético, inspirado no gothic revival inglês, contrastava, de certa forma, com o programa neoclássico do palácio que De Visme tinha feito erguer em Benfica e onde residia a maior parte do ano. Isto é natural, uma vez que em Inglaterra as duas correntes nasceram simultaneamente, em meados de Setecentos, e não fez mais do que seguir a dicotomia do gosto da sua pátria. Este vocabulário seguia uma fórmula assaz simples, resumindo-se ao coroamento ameado de toda a estrutura e ao ogival das aberturas – razão porque Beckford referia ter sido desenhado por um carpinteiro de Plymouth. As dúvidas quanto à autoria do projeto, todavia, persistem ainda hoje, apesar de alguns historiadores o atribuírem ao arquiteto inglês William Eldsen (autor da Sala dos Reis da Abadia de Santa Maria de Alcobaça).

O segundo projeto, o hoje existente, confirma a feição inglesa de arquitetura de paisagem que De Visme atribuíra ao edifício no final do século XVIII, Beckford confirmara e Francis Cook acentuou, acrescentando-lhe mais tarde um extenso e exótico jardim.

O terramoto de 1755 causou grandes estragos na propriedade e o seu estado agravou-se progressivamente até ao fim do século. Em 1790, e com o objetivo de «(..) arrendar utilmente a mesma Quinta, mas também promover a utilidade, conservação e augmento deste Predio (…)» (tal como revela um contrato assinado na época), D. Francisca Xavier Mariana de Faro Melo e Castro dá a arrendar a propriedade a Gerard Devisme, «(..) uni dos mais sólidos Negociantes desta Praça, caracterizado de conhecida probidade e de hum genio particular para a Agricultura (…)». Ainda de acordo com o mesmo contrato, assinado em Janeiro de 1790, De Visme «pertendia não só arrendar a dita Quinta largo tempo, por ser aquele citio o niais rempto, o mais semilhante aos Ares da sua Patria, e por isso o mais conveniente para a sua saude e para descansar das fadigas do seu Comercio: mas tambem pertendia restabelecer a mesma Quinta, augmentando os seus Pomares e dando-lhe o beneficio de que carecião, readificando a seu arbitrio as cazas da mesma Quinta, as quais pelo estrago do Terramoto (…) padecerão ruma tal que as tem feito quazi inhabitaveis. e (…) fazendo as mais officinas de que preciza huma habitação decente, fechando a dita Quinta que he toda aberta, com grave prejuizo da sua cultura, e pondo o dito Predio nos termos de ser muito mais util e importante (..)» . O arrendamento era válido por nove anos.

De Visme, cujo monopólio ficou ameaçado pelo afastamento do Marquês de Pombal e pela Viradeira de D. Maria I, alugou Monserrate a Wi!liam Beckford, em 1794, e partiu para Inglaterra, no ano seguinte, aí permanecendo enquanto durou o arrendamento, e aí morrendo. Beckford não chegou a ficar na Quinta dois anos, partiu para Inglaterra e depois voltou a Portugal, em 1798. Durante a estada de Beckford em Inglaterra (de 1795 a 1798), Monserrate foi arrendada aos três filhos de José de Oliveira, fidalgo da Casa Real. É a partir desta terceira estada em Portugal, de Outubro de 1798 a Junho de 1799, que Beckford renova o contrato de sublocação aos herdeiros de Devisme por um período ininterrupto de nove anos, em 1807.

Depois, após a partida definitiva de Beckford, em 1799, a propriedade foi totalmente votada ao abandono: «ninguém da alta nobreza estava à altura de continuar os grandiosos sonhos do “rico” Mr. Devisme (…) e ainda menos de velar pelo bom estado do “paraíso” e de dar sequência aos “projectos de felicidade” que foram concebidos pelo mais rico dos ingleses».

De Visme morreu em 1797, em Inglaterra,  e está sepultado na Igreja de St Mary’s, em Wimbledon.

Wenceslau Cifka

Wenceslau Cifka, boémio nascido em Tscheraditz, hoje República Checa, em 1811, terá chegado a Portugal por ocasião do casamento de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha com a Rainha D. Maria II, como uma espécie de conselheiro, devido aos seus conhecimentos de arqueologia e obras de arte, tendo adquirido preciosas coleções para a galeria do Rei. Dedicou-se a diversas atividades artísticas, sendo a primeira como fotógrafo, tendo sido um dos pioneiros em Portugal e aberto, em Lisboa, um dos primeiros estúdios fotográficos. Embora ainda utilizasse o daguerreotipo, foi progressivamente, utilizando novas técnicas, tendo ido aperfeiçoar-se a Paris. Efetuou diversas exposições de fotografia e, algum tempo depois, tornou-se fotógrafo da Casa Real. Após uma viagem pela Europa, juntamente com o Rei, ambos reforçaram o seu gosto pela cerâmica. Cifka passou a dedicar-se à faiança artística e influenciou o Rei, que também experimentou esta arte. Cifka cozeu a maior parte das suas peças na Companhia Fabril de Louça, às Janelas Verdes (depois Companhia Constância), mas não interferiu na produção da mesma.

Efetuava peças a seu gosto, sem utilidade prática, preocupando-se especialmente com a forma. Sem formação como ceramista, não primou pela originalidade, tendo sido influenciado por diversos estilos, que misturou, e copiado a majólica italiana renascentista, usando o “istoriato” e o “grotesco”, este último bastante apreciado em Portugal.

Utilizou a gravura na cerâmica, possuindo uma das maiores coleções oitocentistas de gravura do País. Grande apreciador de Rafael, utilizou-o como modelo em vários pratos. Além de pratos, produziu jarros, gomis, urnas e taças, com conceção e decoração renascentista, algumas vezes relevada, utilizando outras influências, como de Wedgwood, Palissy ou da porcelana chinesa. Cifka passou a utilizar muito formas de animais nas suas peças (perus, cisnes, galos, patos, peixes, tartarugas, entre outros) mas, de entre as diversas obras trabalhadas por este ceramista, são os violinos em faiança que mais têm suscitado a curiosidade dos colecionadores. São-lhe atribuídos dois tipos de azulejo de figura avulsa e relevados, existentes no Palácio Nacional da Pena, produtos de uma encomenda exclusiva.  Fernando II, seu amigo e protetor, adquiriu a maior parte das suas obras, e foi representado em muitas delas (tanto em fotografia como em peças de cerâmica).Wenceslau Cifka foi, igualmente, desenhador, pintor, ceramista, litógrafo, esmaltador e professor em casas de famílias nobres, tendo colecionado desenhos de diversos artistas (coleção conhecida por “Album Cifka”).D. Fernando mandou construir o Palácio da Pena em Sintra e Wenceslau Cifka fotografou-o em daguerreótipo. Pelo menos um desses daguerreótipos resistiu até hoje e foi adquirido recentemente pelo Estado Português – Centro Português de Fotografia para vir enriquecer o património da fotografia portuguesa. Cifka era sensível às artes e muito cedo se tornou um apaixonado da fotografia. Estabeleceu-se como fotógrafo em 1848, em Lisboa num 1.º andar do n.º 31 da Rua Direita das Necessidades, mudando-se para a Rua Nova dos Mártires em 1854 e para a Calçada das Necessidades em 1862. Em 1865 já tinha novamente mudado de casa encontrando-se a trabalhar num 4.º andar do n.º 6 da Calçada da Pampulha. Participou na exposição de Londres, de 1856 e na Exposição Universal de Paris, em 1867. Foi com este austro-húngaro que aprenderam fotografia entre outros, os portugueses Carlos Relvas e os irmãos José Nunes da Silveira e Joaquim Goulart da Silveira, estes últimos oriundos dos Açores e que tinham aberto casa em Lisboa em 1861. Ofereceu em 1851 albuminas coladas sobre cartão ao Arsenal da Marinha. E sabe-se que ofereceu como prenda de casamento da infanta Maria Ana um álbum com vistas de Lisboa. A rainha D. Maria Pia também recebeu como presente de Cifka um álbum de fotografias com vistas de Lisboa, em 1862. Wenceslau Cifka foi pioneiro na edição de vistas estereoscópicas em Portugal.

Alexandre Herculano

Em 1858, Alexandre Herculano foi eleito deputado por Sintra- o círculo 26, naquele tempo, e logo de seguida renunciou. Respingamos aqui parte da emblemática carta que endereçou aos seus eleitores, justificando a recusa:

“Acabais de me dar uma demonstração de confiança, escolhendo-me para vosso procurador no parlamento: sinto que me não seja permitido aceitá-la.

Se tal escolha não foi uma daquelas inspirações que vêm ao mesmo tempo ao espírito do grande número, o que é altamente improvável, porque o meu nome deve ser desconhecido para muitos de vós; se alguém, se pessoas preponderantes nesse círculo, pelo conceito que vos merecem, vos apresentaram a minha candidatura, andaram menos prudentemente, fazendo-o sem me consultarem, e promovendo uma eleição inútil.

Duas vezes nos comícios populares, muitas na imprensa tenho manifestado a minha íntima convicção de que nenhum círculo eleitoral deve escolher para seu representante indivíduo que lhe não pertença; que por larga experiência não tenha conhecido as suas necessidades e misérias, os seus recursos e esperanças; que não tenha com os que o elegeram comunidade de interesses, interesses que variam, que se modificam, e até se contradizem, de província para província, de distrito para distrito, e às vezes de concelho para concelho.

Esta doutrina, posto que tenha vantagem no presente, reputo-a sobretudo importante pelo seu alcance, pelos seus resultados em relação ao futuro. É, no meu modo de ver, o ponto de Arquimedes, um fulcro de alavanca, dado o qual as gerações que vierem ‑depois de nós poderão lançar a sociedade num molde mais português e mais sensato do que o actual, inutilizando as cópias, ao mesmo tempo servis e bastardas, de instituições peregrinas, que em meio século têm dado sobejas provas na sua terra natal do que podem e do que valem para manterem a paz e a ordem públicas, e mais que uma honesta liberdade.(…)Mas, pensando assim, como poderia eu, sem desmentir a minha consciência e as minhas palavras; sem trair a verdade, sem vos trair a vós próprios, aceitar em silêncio o vosso mandato? É honroso merecer a confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer honrado.

Não haverá no meio de vós um proprietário, um lavrador, um advogado, um comerciante, qualquer indivíduo, que, ligado convosco por interesses e padecimentos comuns, tenha pensado na solução das questões sociais, administrativas e económicas que vos importam; um homem de cuja probidade e bom juízo o trato de muitos anos vos tenha certificado? Há, sem dúvida. Porque, pois, não haveis de escolhê-lo para vosso mandatário?

Aconselho-vos, como acabais de ver, uma coisa para a qual os estadistas de profissão olham com supremo desprezo, a eleição de campanário, só a eleição de campanário, a eleição de campanário, permiti-me a expressão, até à ferocidade “.

Robert Southey

Robert Southey (Bristol 12 de Agosto de 1774 – 21 de Março de 1843) foi um historiador, escritor prosador e poeta britânico da escola do romantismo e “Poeta laureado” e mais um dos rendidos às belezas de Sintra.Era filho de Thomas Southey e de Margaret Hill, um negociante abastado . Robert trabalhou na loja do pai como entregador, E com o falecimento do pai o negócio passou para o  seu tio que cuidou da sua educação. Na adolescência foi destinado para a carreira eclesiástica, teve lições com um ministro protestante e depois ingressou no Colégio Corstor.Aos 13 anos foi matriculado na Westminster School de onde foi expulso por editar num periódico satírico contra os dirigentes da escola. Mais tarde ingressou na Universidade de Oxford.Foi levado para Lisboa por seu tio materno Herbert Hill, pastor anglicano, onde teve a oportunidade de planear uma História de Portugal. Em 1810 foi nomeado secretário no Erário da Irlanda,e, ao  retirar-se deste emprego foi residir em Keswick. Tinha uma biblioteca que somava 14.000 volumes.Especializou-se em História de Portugal e do Brasil, provavelmente era possuidor da melhor colecção de livros espanhóis e documentos originais sobre Portugal e América do Sul em toda a Inglaterra.De 1810 a 1819 lançou a “História do Brasil”, em Londres, que foi a primeira publicação contendo a sua história geral e que abrange todo o período colonial até a chegada de D. João VI ao Brasil, em 1808(isto, sem nunca ter estado no Brasil).Além da sua História do Brasil (1810), publicou muitas outras obras dentre elas destacam-se: Vida de Horatio Nelson,Vida de Wesley, Joana d’Arc (1796) Poesias (1797)Cartas de Espanha e de Portugal (1797) Palmerim de Inglaterra (1807) Cartas de Espriello (1807) Maldição de Keama (1811) Poemas para os Soberanos Aliados (1814)Rodrigo, o Último dos Godos (1814)Sir Thomas More, Colóquios de Estado e da Sociedade (1832)As Vidas dos Almirantes Britânicos (1839) De Sintra se enamorou e aprendeu português dizendo que a vila e serra eram boas demais para os portugueses, tendo por cá vivido algum tempo, sobretudo em 1800, quando escreve cartas sobre Portugal e Sintra, de que destacamos o excerto a seguir:http://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/pageviewer-idx?c=moa;cc=moa;g=moagrp;xc=1;q1=Cintra;rgn=full%20text;idno=AHQ1384.0001.001;didno=AHQ1384.0001.001;view=image;seq=00000139Mais um viajante em Sintra, ontem como hoje, sempre rendido, como ele escreveu:”Sintra é talvez mais bela do que sublime, mais grotesca do que bela, e todavia em minha vida nunca contemplei quadro algum que mais apto fosse a encher o espectador de prazer e admiração… Respirar o ar de Sintra é, por si só, um prazer inefável”.Para referências a Sintra nos seus textos e cartas, ver em The life and correspondence of Robert Southey, editado por seu filho, Rev. Charles Cuthbert Southeyhttp://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?sort=freq;type=simple;g=moagrp;xc=1;q1=Cintra;rgn=full%20text;sid=5570d51e242b0c1a6e87b38b03951f19;c=moa;c=moajrnl;view=reslist;ALLSELECTED=1;subview=detail;start=1;size=25;didno=AHQ1384.0001.001;cc=moa

Hans Christian Andersen

No dia 6 de maio de 1866 chega a Lisboa, vindo da distante Dinamarca, um ilustre viajante, o escritor Hans Christian Andersen. Precede-o a grande popularidade de que gozava, sendo já um contista muito aplaudido, autor de obra viagística considerável. Vem a convite dos irmãos Jorge Torlades O’Neill e José O’Neill, que conhecera e com quem privara em Copenhaga entre 1828 e 1832, quando estes permaneceram naquela cidade para aprender o idioma dinamarquês.

A visita de Andersen aconteceu por convite de Jorge O’Neill, endereçado por carta de 10 de maio de 1865: “O nosso pequeno Portugal é um país muito interessante”, escreveu. O convite foi aceite em carta de 9 de novembro, prometendo o escritor que a visita aconteceria na primavera seguinte. Para a aceitar procurou a opinião de amigos, que aconselharam que fizesse a viagem, e, antes de responder leu tudo o que conseguiu encontrar sobre o país. Não foi, por isso, um processo de decisão fácil nem imediato. De manhã entusiasmava-se com a viagem, à tarde receava-a. E escreveu no seu diário íntimo: “A carta de Jorge O’Neill despertou-me grande vontade de empreender esta viagem, mas depois veio o receio, quer pela travessia do mar quer pelas dificuldades por terra”. A sua vinda a Portugal foi uma viagem sentimental, para vir ao encontro de dois amigos dos tempos de juventude.
Andersen saiu de Copenhaga em Janeiro de 1866, regressando à sua cidade a 9 de Setembro desse ano. Cerca das quatro horas da manhã do dia 6 de Maio entrou em Lisboa. Regressaria à sua pátria a 14 de Agosto, no navio Navarro, vindo do Brasil rumo a Bordéus, onde aportou a 17 de Agosto. Oito meses de viagem para uma estadia de três meses em terras lusas. Passou as primeiras cinco semanas na Quinta do Pinheiro, propriedade de O’Neill, a “meia milha” de Lisboa, de onde saía amiúde para visitar lugares marcantes ou individualidades de destaque como o rei D. Fernando ou Castilho. De 8 de Junho a 9 de Julho instalou-se em Setúbal, na Quinta dos Bonecos, morada de Carlos O‘Neill, irmão Jorge e José. Em Sintra, na propriedade de José, permaneceu de 26 de Julho a 8 de Agosto. Aveiro e Coimbra estiveram também na rota do escritor.

No registo da viagem manifesta opiniões, dá a ver interesses, mostra-se atento, observador, por vezes também assustado. Descreve com pormenor os ambientes naturais que visita, relata pequenas histórias, deixa impressões diversas. Ocasionalmente regista um ou outro apontamento crítico. A Serra de Sintra e os arredores de Setúbal merecem-lhe rasgados elogios. Acerca da Serra de São Luís, junto a Setúbal, escreve: “Senti-me penetrado de toda a beleza da natureza, naquela atmosfera suave e quente. Era como a nave de uma igreja no mundo grandioso e estranho de Deus”. Não economiza palavras para descrever a Serra de Sintra: “Todo o caminho da serra é um jardim, onde natureza e arte maravilhosamente se combinam, o mais belo passeio que se pode imaginar.” Ao partir de Coimbra, deita um último olhar às suas casas, “de variegado colorido, destacando-se como um grande ramo de flores, ao alto, com verdura a toda a volta.”

A estrofe escrita no álbum de Carolina Teresa O’Neill dá conta do sentido desta visita: “Quando, querendo Deus, em breve passear/ Nas galerias de faias do meu país natal,/ Voará muitas vezes meu pensamento/ Para o belo país que é Portugal.”

Os Saloios

Em 1858, o último morgado dos Cunhas Pereiras, António da Cunha Sotto Mayor, com solar na Igreja Nova e que foi administrador do concelho de Sintra, deu à estampa o livro”Physiologia do Saloio“,onde dissertou sobre a idiossincrasia do mesmo, de modo que muitos mais tarde acharam pouco elogiosa.

 O saloio será filiado do moçárabe, autóctone herdeiro de uma cultura hispano-romana que floresceu nos agri olisiponenses, segundo Cardim Ribeiro, de que restaram vestígios na toponímia(Monservia, Fontanelas, Janas, Godigana, etc).Segundo Sotto Mayor o saloio ou çaloyo, como dantes se escrevia, deriva de cala ou salah, oração, mas segundo David Lopes, em 1917, no seu estudo designado “Coisas arábico-portuguesas” o saloio derivará do árabe çahroi, cujo significado é homem do campo.

 Sobre eles, escreveu Sotto Mayor:

 “O saloio lava a cara só quando chove, se não está debaixo de coberta enxuta ,naturalmente porque tem medo de se constipar. O resto do corpo está virgem à água, se não lhe cairam algumas gotas quando foi baptizado. É tal horror que elle tem a este liquido para os usos de limpeza, que contaremos o seguinte facto.”

  “Um empregado de justiça por lhe anoitecer longe de casa, ficou na habitação de um saloio casado, com filhos. Levantando-se de manhã, e não vendo em que se lavar pediu água: trouxeram-lh’a n’um alguidar, e um panno, que de certo tinha mui differente uso. Apenas o hospede começou a lavar a cara, os filhos que já estavam meio espantados de tantos preparativos, fogem a correr gritando: «oh mãe! oh mãe! olha o que elle está a fazer!!». Então a mãe para tranquillisar os pequenos ,disse-lhe com certo ar de sapiencia: «calem a bocca, tolos ,aquillo faz-se quase todos os dias na cedade. Por aqui póde-se avaliar quantas condições hygienicas não existem nos campos, aos quaes apesar d’estes e outros usos, ou para melhor dizer abusos immundos, não chega a colera nem a febre amarella.

A saloia quasi sempre é mais golosa do que o marido. Suspira pelo seu estado interessante, porque tem certo comer pão alvo e gallinha durante os trinta ou quarenta dias do regimento.

Para que venha em boa hora, é remedio seguido e mui usado collocar na cabeça o chapéu do marido,e nos hombros os calções do mesmo.Imagine-se pois,se é possivel, a posição caricata de uma mulher com taes ademanes, adornada com taes atavios,e no meio das evoluções e tregeitos a que a natureza a obriga. E o pobre do marido, desprovido do seu principal ornato,se não tem outro!

“A epocha mais brilhante da sua vida é a do cyrio da Senhora do Cabo ou da Nazareth na sua freguezia. Aquelle que viu na sua parochia tres vezes qualquer das duas imagens, julga-se feliz, porque tem uma boa conta de janeiros.

O cyrio é que é tudo: e ahi que cada um mostra o valor da sua bolsa. Pouco importa o futuro: se se cobriu de poeira; comprou barretina nova á sua companheira, que não costuma torna-la a pôr; se fez casaca, que tem obrigação de viver os proximos vinte annos; e galopou para traz e para deante nas povoações, como qualquer ajudante de ordens n’uma parada

Nunca usa lenço, mas possue em compensação cinco dedos magnificos, e um cano de boa. O garfo é para elle a maior parte das vezes um traste inutil, porque lhe falta o geito de comer com este instrumento de civilisação.Se é forçado a isso, pega-lhe como se fosse um punhal; e depois de meter o bocado na bôca descansa-o no joelho Tanto nos casamentos como nos baltisados o arroz doce é o prato favorito do saloio. Não é porém uma ou duas travessas o que acommoda este manjar. Vem pratos que semelham coxes de cal, e cada conviva deve comer um que lhe pertence de facto e de direito, ou aliás, dizem elles, não faz a razão á festa Afora estes dias festivos trabalha o saloio como um boi mas come quasi sempre como três homens

O saloio que não chega a ter nome de grande lavrador, quando possue doze centos de mil réis é invejado dos visinhos como senhor de infindo cabedal; e morre na certeza que os filhos ficam arranjados. O saloio prefere sempre gastar com o enterro e não com o boticario; e d’ahi que lhe provem a repugnnancia aos remedios de botica. Toma muitas vezes o seu xarope que consiste em meia canada de vinho, allecrim, canella ,losna e assucar. Admira! mas isto em vez de o fazer arrebentar ,fa-lo transpirar muito, se não lhe produziu alguma desorganização impossivel de concertar.

O nojo é singular. Logo que o doente se finou ,os parentes cobrem-se com mantas de lã(pretas e brancas geralmente)pela cabeça; e não deixam de sair a casa dos visinhos, á loja, ou a qualquer outro sitio. Atam um lenço em volta da cabeça com as pontas cahidas pelas costas, e conversam familiarmente acerca do acontecimento com uma resignação verdadeiramente estóica. Encontra-se isto nos maridos, nos paes, nos filhos, e até nos parentes mais remotos e amigos. Nunca chora o nosso concidadão, e rarissimas vezes o faz a concidadôa”.

A saloia quasi sempre é mais golosa do que o marido. Suspira pelo seu estado interessante, porque tem certo comer pão alvo e gallinha durante os trinta ou quarenta dias do regimento.

Para que venha em boa hora, é remedio seguido e mui usado collocar na cabeça o chapéu do marido,e nos hombros os calções do mesmo.Imagine-se pois,se é possivel, a posição caricata de uma mulher com taes ademanes, adornada com taes atavios,e no meio das evoluções e tregeitos a que a natureza a obriga. E o pobre do marido, desprovido do seu principal ornato,se não tem outro!

Uma descrição de Sintra e suas freguesias em 1866

De acordo com Carlos Manique da Silva, em artigo publicado no blogue Sintra Deambulada, o século XIX, em particular a segunda metade, é a época de formação dos estudos locais. Augusto Santos Silva, que ao tema dedicou especial atenção (cf. Palavras para um País, 1997), estabeleceu uma categorização para as “monografias” produzidas antes das duas últimas décadas de Oitocentos, a saber: a) pesquisas de natureza corográfica, topográfica e estatísticas elaboradas por funcionários e dirigentes políticos, ou por quadros técnicos e científicos; b) textos de natureza diversa que, embora não considerados estudos, revelam factos e atributos de determinados espaços locais e regionais. Nesta última categoria, os trabalhos apresentam quase sempre um caráter não-erudito e literário, que tende a privilegiar o contato fácil com o leitor comum. Acima de tudo, importa registar o pitoresco, o que merece ser visto, mais do que a descrição “precisa” do passado. No fundo, trata-se de um convite ao desfrutar das paisagens, à preservação do legado patrimonial… muito eivado de um sentimento nostálgico e romântico – a busca de um tempo perdido.

O interesse pelos estudos locais tem particular relevância no caso sintrense. Na verdade, ao longo do século XIX, várias foram as tentativas de retratar, numa perspetiva histórica, a ambiência patrimonial de Sintra, sobretudo depois da emblemática obra do Visconde de Juromenha, Cintra Pinturesca (1838). Um desses casos, ao que se julga saber, inédito, foi protagonizado por S. Borchado, autor, em 1866, de uma série de artigos publicados no periódico Gazeta do Campo, folha da classe dos pobres, conforme se intitula, impressa em Mafra. Na referida série – sete artigos dados à estampa entre 21 de janeiro e 1 de abril de 1866 – Borchado procura descrever todas as freguesias de Sintra, de acordo com a seguinte estrutura sequencial: S. Martinho, Santa Maria e S. Pedro de Penaferrim (quatro artigos); Colares (um artigo); Belas (um artigo); freguesias rurais (um artigo). De modo evidente, a vila de Sintra recebe a primazia, tanto mais que o “cronista”, no que às freguesias rurais concerne, indica não querer cansar os leitores, uma vez que não dispõe de “dados para minuciosa descrição”.

Em oposição, as três freguesias da vila de Sintra são descritas com algum pormenor, indiciando, tudo leva a crer, visita in loco. De resto, é de admitir que o autor tenha alguma ligação afetiva com as localidades em causa (1). Por exemplo, em relação a S. Martinho, o articulista revela inúmeros elementos da toponímia, menciona as Quintas da Regaleira, dos Pisões e da Penha Verde, o Palácio de Monserrate, a Fonte da Sabuga… Denota, inclusive, conhecimento da ancestralidade de algumas instituições, conforme sucede com a Misericórdia e a igreja de S. Miguel: Antes da fundação desta santa casa, que foi no governo da Rainha D. Catarina, em cujo tempo se lhe anexaram os hospitais do Santo Espírito e dos Gafos, já nesta vila existia a confraria de Santa Catarina, instituída na Igreja de S. Miguel no ano de 1304 pelo beneficiado João Miguéis: a igreja e todo o edifício não oferecem coisa alguma digna de notar-se, e a enfermaria é na verdade acanhada. (Gazeta do Campo, 21 de janeiro de 1866). Por outro lado, são muito curiosos os apontamentos a respeito da arquitetura civil e religiosa. Nesse capítulo, Borchado considera a sumptuosidade de Seteais, elogia o templo gótico de Santa Maria e o Palácio de Queluz, menciona o Túmulo dos Dois Irmãos e a Ermida de Santa Eufémia… Desvaloriza, porém, a igreja de S. Pedro de Penaferrim e, mesmo, a paroquial de Colares, que denomina de “arquitetura antiga e pobre”.

A sua visão histórica dos monumentos parece não se relacionar apenas com a época em que estes foram erigidos e, consequentemente, com a eventual preferência por um determinado período da história da arquitetura (gótico, barroco…). De facto, o autor reclama uma certa ideia de “unidade de estilo”, ou seja, de fidelidade à conceção original (patente nos comentários efetuados a propósito das igrejas de Santa Maria e de S. Pedro de Penaferrim). Demonstra, ainda, bem ao jeito do romantismo, um gosto pelos ambientes campestres e bucólicos, valorizando as “boas” e “belas” quintas de Meleças e de Colares, bem como o “pitoresco” sítio das Mercês, com a sua ermida.

Com toda a distância crítica que a sua análise obriga, o testemunho de S. Borchado (que Carlos Manique da Silva crê tratar-se de António Joaquim de Sousa Borchado, que no início da década de 1850 era sócio da Assembleia Filarmónica de Sintra, cf. José Alfredo da Costa Azevedo, Velharias de Sintra, 1980, vol. I).constitui uma importante achega para o conhecimento da história remota de Sintra. E, em meados de Oitocentos, é bem o exemplo da progressiva afirmação da história local como um género próprio ao alcance de estudiosos não-eruditos.

A imprensa em Sintra no século XIX

Durante o século XIX desenvolveu-se por todo o país a criação de jornais e órgãos de imprensa, atentos novos públicos, maior alfabetização e a necessidade de certos grupos políticos e sociais terem veículos de divulgação das suas ideias e posições. Sintra, à sua escala também acompanhou esse fenómeno, tendo durante o século XIX surgido mais de 15 títulos de jornais e gazetas.

O registo mais antigo é o do Jornal Semanal do Gabinete de Leitura de Cintra, de que saíram 3 exemplares. Criado em Janeiro de 1836, com apenas 7 páginas manuscritas a 2 colunas, era propriedade do Gabinete de Leitura de Cintra e foi impulsionado por António Maria Cunha Sotto Mayor, autor do livro “Physiologia do Saloio”.Do grupo de “assinantes” faziam parte o Duque de Palmela, Rodrigo da Fonseca ou o proprietário sintrense Rodrigo Galway, tendo organizado em homenagem à rainha D. Maria II uma festa no dia do seu aniversário em 26 de Julho de 1836.

Entre 1844 e 1846 surgiu o Jornal da Sociedade Juventude, manuscrito e de divulgação restrita, até que em 1856 surge à estampa O Saloio, semanário, à venda pela relevante quantia de 40 réis, mas que encerrou em 1857 por falta de colaboradores (Castilho chegou a ser um deles).

Na década de 80, surgem pela primeira vez jornais satíricos, nomeadamente em 1883 A Bisnaga, jornal burlesco, de que se publicou um único número, e cujo diretor assinava o curioso nome de N.O.C.U. Meta.O.Nariz, bem como o Jornal de Vila Verde, em 1884, com 2 páginas e 1 único número, dirigido por José Moreira e abordando assuntos da arte da cantaria.

Em 1885, a 1 de Janeiro, nascia o Jornal de Cintra, que durou até Maio de 1887, afeto ao Partido Progressista e financiado pelo cacique local desse partido, o proprietário rural António Chaves Mazziotti. Custava 10 réis, nele tendo colaborado Barreiros Cardoso e António Cunha, figura que aliás passou a ser referencial nos jornais editados durante este período e que hoje tem nome de rua em Sintra.

Entre Dezembro de 1885 e Abril de 1886, este jornal teve pela primeira vez um concorrente direto, O Cintrense, sendo a primeira vez que circulam 2 jornais em simultâneo.

De Julho de 1887 a Janeiro de 1889 publicou-se O Clamor de Cintra, com tiragem de 5000 exemplares, e a partir de Março de 1890 A Gazeta de Cintra, orientado por Sampaio e Castro, com tiragens entre os 3000 e os 5000 exemplares.

Data de 1890 a edição da primeira revista, O Atheneu. Era quinzenal, versava assuntos de educação e recreio, com 8 páginas e era dirigido por António Augusto Rodrigues da Cunha.

Entre Junho de 1892 e Fevereiro de 1893 editou-se a Folha de Cintra e entre Outubro e Novembro de 1892, com apenas 5 números, o Correio Cintrense.

Também de 1892 é o Aurora de Sintra, órgão do Partido Regenerador, com 1000 exemplares de tiragem.

Em 1894 e 1895 dois novos jornais burlescos: O Chicote, de 1 só exemplar, que visou unicamente fustigar a figura de um tabelião de Belas que era provedor da santa Casa da Misericórdia de Sintra, e O Ratão, magazine de charadas e anedotas sobretudo.

Em 1896 temos o Correio de Cintra, e 1898 O Jornal Saloio e o Progresso de Cintra. Estes dois acabaram ambos em 1899.

Um panorama fragmentado pois, ao sabor de interesses políticos difusos, à imagem dum país rotativista e de caciques eleitorais.

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