Paulo Albuquerque: A emoção como propulsão criativa

Paulo Albuquerque (a.k.a Cesáh), nasceu no Rio de Janeiro em 1988, e é licenciado pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Pintor e ilustrador, instigado pelo caos das cidades, é um artista que procura representar a natureza como símbolo de pureza e esperança. “O meu trabalho parte de atmosferas e personagens que se envolvem e contam histórias”, explica.

Com carácter distinto e uma identidade bem delineada, as suas peças contêm diversidade de texturas, elementos orgânicos e uma relação próxima com a cultura urbana. Delas sobressaem  as suas introspeções, bem como um olhar peculiar sobre os hábitos sociais dos seres humanos. Atenta aos movimentos e criadores artísticos da polis, a  Alagamares  falou com ele um destes dias, procurando saber um pouco mais sobre o artista e a obra.

Caementum 0.1  Técnica mista sobre parede. 60x64x15cm

Quem é o Paulo Albuquerque pessoa e o Paulo Albuquerque artista? Como aconteceu o teu encontro com a Arte? 

É o mesmo, principalmente porque através da arte é como consigo exprimir melhor as minhas opiniões, sentimentos e emoções. Desde criança que desenho, comecei por copiar de livros ou até mesmo directamente da televisão as personagens dos meus desenhos animados favoritos. Na altura (quando tinha 6 anos) eram as referências que tinha e que me inspiravam, fui crescendo, investigando e com isto descobri novas referências artísticas que me inspiraram e fizeram com que quisesse desenvolver algo que me caracterizasse.

O meio urbano é o teu espaço natural de respiração. O que têm as cidades de mais desafiador para um artista?

Exacto. Acho que pelo menos para mim, é a quantidade de informação que é produzida e a resposta que conseguimos dar (ou não) à toda essa informação. Nunca vivi no campo, mas sinto que de alguma maneira lá o tempo é mais lento. Quero com isto dizer que nas metrópoles todos os segundos parecem que precisam de ser preenchidos, há poucas pausas, e isto como observador é desafiante e ao mesmo tempo inspirador. Tudo o que me faça questionar sobre alguma coisa que me desperte algum tipo de emoção, faz-me ter interesse em expressar o meu ponto de vista em relação a esse tema.

“Sorte”.Tinta acrílica sobre tela.

A cidade é Natureza ou debate-se contra a Natureza?

Esta é uma questão muito difícil de responder. Depende muito do ponto de vista e do significado poético que cada um tem para com cada uma delas. Mas para mim a cidade faz parte da Natureza mas não o é, visto que foi criada pelo Homem.  No entanto se nos visualizarmos como animais no seu habitat, faz-me algum sentido que as cidades sejam natureza.

 Quem são as tuas referências enquanto criador?

Várias, como: Jean Dubufet, John Baldessari, David Hockney, Peter Doig, Alex Kanevsky, Miró, Dali, Amose, Bezt, Aryz, Wordtomother, Fintan Magee, Telmo Miel. Estes são alguns que já me inspiram há muito tempo, mas existem muitos outros.

 

“Retrospectiva”. Tinta acrílica sobre tela

A arte é reflexão e expressão”

 A Arte liberta? Há uma função política na arte ou puro egoísmo do criador?

 Sim sem dúvida, é forma de expressão. Não considero que tenha uma função política directa, é mais uma consequência de estares satisfeito ou não com o estado político e quereres exprimir essa opinião. Quando falamos de funcionalidade referimo-nos mais ao design, a arte é mais reflexão e expressão (na minha opinião).

Acho que “puro egoísmo” me parecem palavras muito fortes para o descrever, é apenas algo que é muito pessoal e consequentemente um pouco egocêntrico.

Qual tem sido o teu percurso até ao presente?

Como respondi numa das questões anteriores, comecei a desenhar mais ou menos aos 6 anos, e foi algo que sempre esteve presente. Quando entrei para o liceu, escolhi a área das artes e depois licenciei-me em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Foi mais ou menos no primeiro ano da faculdade, se não me engano, que começaram a aparecer trabalhos, e a participar de exposições, como ilustrador e mais tarde como pintor. Também sempre estive ligado ao graffiti, e então começaram a surgir alguns convites para murais. Posteriormente, senti a necessidade de criar em formatos maiores e consequentemente comecei a pintar em telas. Hoje tenho tentado explorar outros materiais, para além dos que já utilizava.

Qual a essência da existência, e como pode a mesma ser transportada para a construção artística?

Para mim é acreditar que existes por alguma razão, mesmo que não saibas qual, fazendo assim com que a procures, e talvez um dia a encontres.

“O mais importante é estar satisfeito comigo mesmo”

A arte mural deve ser decorativa, transgressora, de denúncia, ou outra coisa qualquer?

Deve ser tudo isso, contanto que esteja contextualizada. É importante termos consciência que se é algo de que todos vão ser espectadores, seja qual for o objectivo do mural, o mais importante é que faça sentido, que tenha um impacto positivo e que estimule o observador.

“Big Fish 2.0”. Técnica mista sobre tela.

O que esperas que o público encontre no teu trabalho? A opinião dos outros conta?

Espero que o sintam, se alguém se identificar com o que faço é muito bom, e gratificante, mas o mais importante, quando acabo uma peça, é estar satisfeito comigo mesmo. Ouço sempre as opiniões e tenho-as sempre em consideração, mesmo que seja uma opinião completamente contraria ao que eu penso. Gosto de reflectir sobre algo que ainda não tinha pensado, ou ver pelos olhos de outra pessoa, acho interessante. Mas o meu trabalho é sempre o meu ponto de vista.

Quais são os teus planos para o futuro?

Em poucas palavras, continuar a produzir e fazer mais exposições.

“Le Mur”, Mulhouse, 2019

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