“Pelo Chão da Rua”, um conto de Filomena Marona Beja

PELO CHÃO DA RUA  

     A rua tinha sido deles.

     Cuidado com os carros! Cuidado, mesmo que fossem poucos. Raros.

     E os pontapés na bola? Ah! A bola, o ringue… E os traços, a giz, para jogar à macaca?

     Rua de garotada, quando ainda eram garotos. Quando iam de quintal em quintal pelas nêsperas. Pelas folhas de amoreira,  sustento dos bichos da seda.

     De quintal em quintal, saltando os muros. Para quê abrir portões?

     Cresceram.

     Pois foi. E depressa, como crescem todos os miúdos.

     A rua, porém, não deixou de lhes pertencer. Livros debaixo do braço, mochilas às costas, a desafiarem-se uns aos outros,

     “Bora lá!”

     Bora lá, rua adiante, acima, abaixo. A correr para as horas da tarde. Para a noite, para o dia seguinte. Para as férias, que já aí vinham.

     E assim começara esse ano. Ano bissexto.

     “Os bissextos dão azar!”

     “Dão, a quem casa”,

     “Ora…”

     Eles não pensavam casar. Não, nenhum!

     No Carnaval sim, pensavam.

     Terça-feira Gorda seria, nesse ano, a 25 de Fevereiro. E haveria festas, muitas festas, nas noites anteriores. Brincadeira, em quase todas as garagens da rua.

      Nuns sítios o arraial começava mais cedo, ali e acolá mais tarde. E só acabavam para lá da madrugada.

     E nenhuma das festas da rua lhes escapava. Chegavam, participavam na galhofa e iam para outra, como se desfilassem em escolas de samba. Dançavam rua fora, sem agasalhos, atirando serpentinas e papelinhos de todas as cores. Deixando pelo chão esses e outros símbolos de alegria que íam sendo pisados. E que tornariam a ser, perdendo cor e graça.

     Na manhã de quarta-feira, viera o carro-varredor da Câmara. Limpara tudo.

     Limpara e levara o lixo. Mas ficou a rua, que era deles.

     Fora deles,

     Jorge, Miguel, Gaby, o João, a Inês. A Tica e o Pi, que tinham outros nomes de que ninguém se lembrava.

     Dias depois do Carnaval, principiou o rumor,

     “Há por aí uns casos de gripe,…”

     Gripe? Bem, talvez coisa parecida. Sabia-se lá!

     Constou, depois, que adoecera alguém na escola em que todos andavam. Gripe? Seria mesmo uma gripe?  E sendo, como se  teria propagagado até ali?

     Dizia-se que viera do Oriente. Talvez de uma cidade da China, falava-se de morcegos e de pangolins.

     “ Mas olhem que no Japão…”

     No Japão, já ninguém desembarcava dos navios de cruzeiro que lá aportavam.

     “Nesse caso…”

     Se, no Japão, tomavam medidas tão enérgicas não seria de eles deixaram de ir às aulas?

     “Que exagero!”,

     “Nem pensar!”

     Eram os pais quem mais se opunha. Na maioria eles estavam no último ano do secundário. Tinham de se bater por notas que os levassem à Universidade.

     “Eu, e a vossa mãe…”,

     “O teu pai e eu própria…”

     Tinham conquistado algum prestígio. Casa, carro, viagens. Talvez tudo isso fosse uma ilusão de prestígio. Contudo, ilusão atingida, cabia-lhes a eles conseguir mais. Ainda mais.

     “Vá… Vá!”

     Para a Universidade!

     Nisto,

     “O Luís Sepúlveda!…”

     O chileno que nos contara As Rosas de Atacama. Viera a um encontro de escritores. Dera os abraços de sempre aos amigos de sempre. Sentira-se mal, com febre. Piorara, tornara à Galiza.

     “E está internado, em cuidados intensivos…”

     Morreu?

     Sim, veio a morrer.

     “Diz que é uma epidemia…”

     “Já cá chegou!”

     Morrera alguém, mais alguém. Mais um. Outro! Epidemia! Pior, muito pior, uma pandemia!

     Era diferente, isso da pandemia? Como se distinguiam? Eram virus ou bactérias?

     “Bactérias…”, “Hum…”, “Epidemia é…”, “E pandemia será…”, “Será assim como uma peste!”

     Seria.

     Falou-se de 1918, do avô e do bisavô. Da bisavó. De valas comuns e de corpos cremados às escondidas.

     E depois de 1918, viera 1957,

     “Ah, a Asiática!… Dessa lembro-me eu! Estive três semanas sem escola e quatro de cama”.

     Mas, pandemia ou peste, a coisa não era de agora. Antes, lá muito para trás, fora a peste que levara seis filhos a Dom João III.

     “…e, ainda mais atrás, acabou com a Dona Filipa de Lencastre !”

     Depois da morte, a escassez. A fome que as pestes sempre tinham trazido!

     Fome?

     Os mais velhos da rua a correr para o multibanco. Para as lojas. A voltar carregados de latas de atum, batatas, pacotes de arroz. Até farinha e fermento, para fazer pão. Na leva seguinte, alcool para as mãos, lexívia para limpar as bancadas da cozinha.

     E uns a mandarem os outros,

     “Todos para casa!”,

     “Para casa!…”

     Deixassem os sapatos nas entradas e fechassem as portas. Todas as portas! E também os portões das escolas.

     Fechados, os portões da escola.

     Eles em casa, e os professores também. Nos primeiros dias, sentiram um grande alívio. E soube-lhes bem, muito bem, poder ficar na cama até à hora de almoço.

     Depois,

     “Isto é um seca!…”

     Se era. As aulas tinham passado para o écran do computador, e nem eram bem aulas. Seriam uma forma de os obrigar a manterem contacto com a escola e com os mestres.

     Iam recebendo questionários, temas para desenvolver, testes de respostas múltiplas. Iam respondendo, desenvolvendo, fazendo o que podiam. Ficavam à espera de receber as correcções.

     Esperavam. E as respostas demoravam. Alguns professores lidavam mal com aquilo da informática. Muito mal.

     Por outro lado, quase todos os pais e mães estavam com eles em casa. Recolhimento em teletrabalho, lay-off. Ou situações piores.

     Num repente, faltara-lhes espaço. Ficaram uns em cima dos outros, nas mesmas salas, nas mesmas varandas. Vigiavam-se, implicavam. Explodiam.

     E assim, os dias tinham-se tornado noites.

     Noites e noites sem sonhos.  

     Dias. Noites.

     Música, alguns livros, internet, televisão. Era bom, era disso que eles gostavam!

     Pois gostavam. Mas queriam… queriam diferente. Dar a mão à rapariga mais discreta da turma. Cotoveladas aos amigos, aos conhecidos.

     Tanto que lhes custava cada um estar separado dos outros!

     Sentiram-no, em cheio, no dia dos anos da Tica. Dezassete anos a 17 de Abril. Não podendo ser de outra maneira, fizeram a festa on-line. Um bolo de chocolate, à séria. As velas acesas. Parabéns a você

     Na altura do espumante, porém, nenhum copo encontrou outro que pudesse tocar. Fazer tchim-tchim.

     Foi então que o desgosto veio ao de cima. E se cada um sentiu vontade de chorar, alguns choraram mesmo.

     Até quando iria aquilo durar?

     “Até haver cura”,

     “Vacina!”

     “Isso da vacina…”

     “Anda-se  à procura, mas…”

     Ainda se teria de esperar algum tempo por ela.

     Entretanto, na Europa, a pandemia foi melhorando. Dir-se-ia, pelo menos, que abrandara. Desceram os números dos contágios, e de mortes.

     Reabriram os centros comerciais. Tornaram a voar alguns aviões, a cirandar turistas. E eles atreveram-se a umas saídas,

     “Bora lá!”,

     “Bora…”

     Metiam rua adiante, como sempre.

     Não lhes parecia a mesma, a rua. Vinham os cães ladrar aos muros, como se não os reconhecessem.

     Vinham depois os donos, passavam os portões e seguiam sem se tocarem. Como se já não fossem pares.

     Mesmo assim, ia uma bejeca. Outra. Mais uma… Vá lá! Mas, sem trocar de garrafas, nem o gosto era o mesmo.

     Que mais? Mais nada. Acenavam e diziam,

     “Amanhã, a gente vê-se…”

     Amanhã.

     Receberam, entretanto, as notas de fim de ano.

     E a seguir veio o aviso,

     “À meia-noite começam as candidaturas à Universidade!”

     Cruzaram as preferências com os números de vagas. Com o que os pais diziam estar, ou não, de acordo.

     Acederam à plataforma de inscrição. Preencheram os campos que lhes foram indicados. Tentaram enviar. Enviaram.

     “Já está!”.

     “Candidatei-me para Lisboa”,

     “Eu…”,

     “… para Aveiro”,

     Porto. Trás-os-Montes. Coimbra. Algarve.

     “Açores!”

     Avançaram Setembro e Outubro. A chuva, o Outono.

     A rua quase sem eles. Quase erma, ainda que os cães continuassem a ladrar por cima dos muros.

     E aquilo da peste, da pandemia ou lá o que era?

     Continuava. Um virus danado que ainda não tivera cura, nem vacina. Que alastrara. Alastrava.

     Quando, pelas férias do Natal, viessem os que tinham ido para longe saberiam de vizinhos infectados. De alguns internados e de outros que tinham morrido.

     “Já eram velhotes…”

     Pois eram.

     As férias. O Natal.

     Disseram “olá” uns aos outros. Tudo a correr bem? Bem e mal, como sempre.

     E como sempre, houve pinheiros enfeitdos, nas salas. Laços vermelhos e estrelícias, à porta das casas. Bebeu-se e comeu-se demais.

     Depois, já no ano que aí vinha, foram-se embora alguns. Ficaram os outros.

     Ficaram os cães, ainda com os comedouros cheios de sobras. E gente a tossir, dentro de casa.

     Pelo chão da rua, papéis amachucados, bocados de fitas, restos de caruma. Restos deles próprios,

     Jorge, Miguel, Inês. Tica, João…

     A rua já não era deles.

Filomena Marona Beja,

Sintra,

 Novembro/ 2020.

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