Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016) usou vários pseudónimos literários, retirados dos nomes dos seus antepassados, facto este que passou desapercebido à maioria dos seus críticos, os quais desconheciam a sua genealogia.
Assim temos os pseudónimos Manoel da Cunha e Melo(de uma avó de Viseu), na «Voz Equívoca» (1975); Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo Pereira de Gouveia (de um aristocrático 5. º ou 6.º avô natural de Ferreira de Aves), na «A Duração da Eternidade» (2007), na «A Imperfeição da Felicidade» (2079, e na «A Noção da Inocência» (2008); e ainda Manuel de Souza-Valente (de uma trisavó de Ferreira de Aves), na «Lírica Translúcida» (2010). Há ainda nos seus manuscritos um outro pseudónimo: Manoel Pereira de Gouvêa (tirado dos apelidos do já citado 5.º ou 6.º avô). O seu interesse pela poesia era obsessivo, quase doentio; uma permanente batalha sofrida com a palavra, muitas vezes travada à mesa do café.
Conviveu com alguns intelectuais da sua época – poetas e escritores –, mas era nos amigos das tertúlias de café e colegas de faculdade, moradores no bairro que preferencialmente frequentava (Areeiro e Alvalade), que se sentia bem. Algumas das suas amizades literárias, dos finais dos anos 60, princípio dos 70, são conhecidas. Entre elas, estão alguns intelectuais do icónico e já desaparecido Café Monte Carlo, na Av. Fontes Pereira de Melo, como Herberto Hélder, Gastão Cruz e Maria Velho da Costa. Foi ainda amigo do poeta Cristóvam Pavia, ao qual dedicou alguns poemas, tal como ele uma personalidade em conflito com o mundo.
Com o acentuar da idade, foi-se tornando uma figura um pouco peculiar, mais sorumbático, procurando cores sombrias para vestir, sempre com um livro ou outro debaixo do braço, e folhas de apontamentos onde tomava notas que ia rasurando e reescrevendo.Arranjou um emprego no Estado (Ministério do Trabalho?), ao qual não se terá adaptado, acabando por ser “transferido” para a Biblioteca Nacional de Lisboa.
Enviados por Luís Barreiros Tavares, aqui divulgamos alguns poemas seus, escritos em Sintra em 1977.
Eis o retrato de Rimbaud, em Cintra, em 1977:
epitáfio para uma lapidar beleza, em a Pensão Bristol…
Ausente Verlaine; que cabeça de loucura busca Rimbaud, bruscamente belo,
precocemente falecido em Marselha, exorcizando Deus, solene ao mortal sê-lo…
Cintra [ortografia no manuscrito] — 6–2–77
Caderno Do ócio e meditação em Cintra
Sob o som vegetal da nudez,
(deslizando o comboio), relembro a metamorfose da morte de Rimbaud:
eis a ilação de uma profusa e eloquente loucura!…
Abençoado seja Rimbaud pela sua comovida lição de nostalgia e brancura,
omnipotente lua de primordial unidade… Assim o acolho em meu regaço, e
talvez
que Rimbaud, em mim, pessoal, ressoe.
Cintra — Lx. 8–2–77
Caderno Do ócio e meditação em Cintra
Eis a raríssima rosa da duplicidade: o homem e o mito o consomem, assim
como seu exílio e grito.
Eis que respiro renúncia e branda beleza… em que cismas silente? em que
espelho cúmplice me fito?
Cintra -7–2–77
Caderno Do ócio e meditação em Cintra (IV. (re)aparição do poema)
Abaixo, fotos de Sintra nos anos setenta, da autoria de Manuel Tavares Rodrigues Leal