Susana C. Gaspar fala-nos de “Próximo” e do teatro documental

Decorreu no passado dia 11 de Outubro na Casa de Teatro de Sintra a apresentação da obra de Susana C. Gaspar e Inês Vieira “Próximo: os territórios de Sintra em palco, produto de residências artísticas efetuadas em três zonas de Sintra (Centro Histórico, Tapada das Mercês e S. João das Lampas/Assafora), durante 2018 e 2019, e já refletidos num espetáculo apresentado na Casa de Teatro de Sintra. A esse propósito falámos com uma das autoras, a atriz e encenadora Susana C. Gaspar.

Foi lançado recentemente na Casa de Teatro de Sintra o livro: “Próximo”, dedicado à realidade de diversas geografias de Sintra. O que levou a realizar esse trabalho?

A atual direção artística do Chão de Oliva – Companhia de Teatro de Sintra tem procurado uma aproximação das suas criações ao público e uma renovação da sua ligação à(s) comunidade(s). Nessa linha, pensámos num projeto que representasse a diversidade do nosso território e que colocasse as vozes das pessoas em palco. Pessoalmente, sempre me identifiquei com o teatro documental e a intervenção comunitária e é uma linguagem com a qual cada vez mais estou familiarizada. O livro “Próximo” surge como mais um produto deste projeto, fundamental para materializar as histórias recolhidas que, a nosso ver, são de grande valor.

O diálogo com as comunidades foi revelador de realidades distintas? Em que pode isso influenciar o vosso trabalho enquanto atores e encenadores?

Seria quase inevitável que assim fosse. O concelho de Sintra tem realidades distintas e o nosso desafio era precisamente pesquisar / procurar perceber essas diferenças, mas, também, quais as características que as une. Enquanto encenadora e, creio que para toda a equipa de atores, cada realidade influenciava o nosso pensamento e modo de atuar, reflexo do ambiente, das pessoas com quem nos cruzávamos (por exemplo: a azáfama do centro histórico é muito distinto da calma que caracteriza as aldeias em Sintra).

Quem foi a equipa envolvida? Alguma razão especial?

Existiram alterações ao primeiro elenco de atores por incompatibilidades de agenda. Da equipa prevista inicialmente, apenas eu e a Patrícia Cairrão, com quem trabalhei em outro processo de teatro documental que dirigi (“Corpo-Mercadoria” sobre tráfico de seres humanos) continuámos como intérpretes. O Miguel Moisés e Diana Narciso responderam a uma chamada aberta a atores interessados e foi realizada uma análise dos currículos e carta de motivação. A Inês Vieira, que agora também assina o livro, junta-se pela área das Ciências Sociais e investigação para apoio de dramaturgia e toda a equipa fixa do Chão de Oliva / Companhia de Teatro de Sintra esteve também envolvida.

José Gil escreveu que em Portugal há o medo de inscrever. Este trabalho é contemplativo, crítico ou antecâmara de um projeto futuro?

Pode enquadrar-se em qualquer um dos três. É contemplativo, pelo olhar lançado ao concelho de Sintra e a valorização das suas histórias, pelas pessoas que nela habitam; é crítico no sentido em que, inevitavelmente, transporta a visão política de cada um/a (membros da equipa e todas as pessoas que entrevistámos) e nem sempre com o cenário mais favorável; e sentimo-lo como antecâmara de ações futuras. Existe vontade de continuar a multiplicar este projeto.

Há uma linguagem e uma dramaturgia próprios dos territórios abordados? Que arquétipos sociais destacariam mais nas abordagens feitas em cada um deles?

No livro ficou bastante claro que tivemos que nos adaptar de acordo com cada território ou contexto. Foi necessária flexibilidade: se estávamos com um grupo pré-identificado que já estava à nossa espera, a abordagem era diferente de quando tínhamos que criar uma abordagem de raiz. Era também diferente entrar num espaço comercial – onde é necessário respeitar o espaço de trabalho e entrada dos clientes – ou criar conversas espontâneas nas ruas. Depois, cada território, com as suas particularidades, chamava a si diversos temas. Mas, no global, quisemos testar esbater essa “dramaturgia própria”, procurando um fio condutor e os tais temas comuns – o que une as diferentes realidades, mesmo valorizando e destacando toda a sua diversidade.

Que tipo de intervenção cultural, sobretudo ao nível do teatro, encontraram nessas localidades? Há uma literacia dramatúrgica nesses públicos?

Aí, sem dúvida que tenho de destacar São João das Lampas e Assafora (sem esquecer Fontanelas mas que, no processo, acabou por ficar menos presente em termos de material), a partir do histórico das coletividades. A Sociedade Filarmónica União Assaforense, por exemplo, tem um arquivo incrível de memórias dos festivais de teatro amador, guiões dos espectáculos realizados nos anos 80, 90… Ficámos surpreendidos e perdemo-nos com tanto material. Já no centro histórico de Sintra, tão próximo da Casa de Teatro de Sintra, estivemos com pessoas que já tinham ouvido falar na Companhia de Teatro ou no nosso espaço, mas que nunca tinham ido assistir a um espectáculo de teatro. Uma das vitórias deste projeto – que esteva na génese de um dos objetivos –  foi termos conseguido que algumas pessoas viessem pela primeira vez assistir a um espectáculo na Casa de Teatro de Sintra.

Que políticas públicas podiam e deviam ser seguidas para sedimentar o gosto pela Cultura e pelo Teatro nesses locais?

É necessário continuar a fazer investimento para que a cultura seja acessível e que promova a circulação por todo o território. Deveria ser prioritário o investimento para levar a cultura às escolas (para não bloquearem em impossibilidades ou burocracias nas saídas / visitas de estudo); continuar a apostar em projetos que se “descentralizam” – pode parecer estranho, mas ainda há o preconceito de que só há cultura no centro de Sintra, nos grandes auditórios ou palácios, o que não corresponde à realidade. Continua a ser importante levar as artes a lugares não convencionais e dinamizar espaços com potencial que, de outra forma, estariam fechados. Felizmente, hoje em dia é mais fácil ir ver um espectáculo ao Cacém do que era há uns anos. Por outro lado, há cada vez maior sensibilização para a importância da arte comunitária e mediação com o público. Ou seja, criarmos novas ligações com as pessoas… sermos nós a ir ao seu encontro e não esperar que apareçam dentro das nossas salas. Em termos de políticas públicas, seria útil uma estratégia e visão que olhasse para todos estes aspectos, de forma transversal e se investisse com objetivos bem definidos – nomeadamente, focando na questão da acessibilidade. No Concelho de Sintra falta também um estudo de mercado / de público para percebermos melhor a natureza do mesmo e conseguirmos ir ao seu encontro com um plano estratégico bem definido. E, ainda, fazer por não perder as ligações com outras divisões – ação social, educação e juventude, etc. Um trabalho conjunto é sempre mais rico. O Chão de Oliva tem também feito a sua parte e é de destacar, por exemplo, a Mostra de Teatro das Escolas de Sintra, que este ano avança para a sua 29.ª edição. Em parceria com a Câmara Municipal de Sintra, é o tipo de projeto que ajuda a valorizar o teatro, através das escolas e IPSS, por todo o território, cria dinâmicas e relações e cria comunidade… e, por consequência, contribui para criação de novos públicos (das crianças e jovens participantes, aos professores, às famílias, …).

Como está o estado da Arte do teatro em Sintra, nesta época de pandemia?

Em modo de sobrevivência. Tem sido um ano muito duro para todas as estruturas culturais e artistas. Vários projetos cancelados, espectáculos adiados, formações suspensas… É uma realidade a acontecer não só em Sintra, mas a nível nacional e por todo o mundo, com vários festivais, eventos, concertos, cancelados ou adiados…

Desconhecemos ainda as consequências a longo-prazo que esta distância nos trará. Atualmente, vamos enchendo as salas pela lotação permitida (no caso da Casa de Teatro de Sintra, conseguimos ter 24 a 26 pessoas por cada sessão), mas voltaremos a encher as salas? Quero acreditar que sim. Que esta distância pode alimentar o desejo do regresso com ainda mais força, mas é necessário continuar a pensar e fazer cultura. Não desistir. E precisamos que o público continue connosco e seja solidário com as entidades culturais. E, sem dúvida, é necessário maior respeito e apoio de decisores políticos, para que amparem as estruturas culturais, caso contrário, podemos assistir a um cenário ainda mais dramático. E não é “caridade”. É valorização e reconhecimento de uma das áreas cruciais para a nossa economia e bem-estar social.

Entrevista de Fernando Morais Gomes

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