Camilo ao Panteão- Um texto de Miguel Real

Para o Mário Cláudio, para a Ministra da Cultura

Estava sentado no jardim a apreciar um carreiro de formigas pequeninas, castanhas, que transportavam folhinhas e desapareciam entre as pedras. Apareceram duas formigas pretas do triplo do tamanho, que as atacaram, parecendo cortar-lhes a cabeça, O carreiro mantinha-se imperturbável. Chegaram os meus netos da escola a correr, esmagaram sem querer as pretas e as castanhas à minha volta. Entraram dentro de casa. Olhei para o chão e o carreiro recompunha-se e permanecia. Camilo Castelo Branco (CCB) era como as formigas castanhas. Todas as desgraças lhe aconteciam, era odiado pelo burguês do Porto ( A Filha do Arcediago evidencia o que CCB pensava dos comerciantes de porta aberta do Porto, ridicularizando-os na pessoa do negociante António José da Silva e da sua irmã Efigénia) e pelos fidalgos do Norte (satirizando-os, por exemplo, em Os Mistérios de Fafe), mas continuava a escrever, sempre a escrever, pois não só sabia fazer outra coisa que viver entre livros, como da escrita ganhava o sustento de uma família de cinco pessoas (ele, a Ana Augusta Plácido e os filhos Manuel, Jorge e Nuno). CCB bem tentou furtar-se ao império da escrita, tentou ser bibliotecário em Viana do Castelo com uma cunha do amigo Barbosa da Silva, presidente da câmara e deputado, tentou empregar-se na biblioteca  municipal do Porto, com uma cunha do Alexandre Herculano, pensou concorrer ao Arquivo e à Biblioteca do Parlamento, mas soube que Inocêncio Francisco da Silva ia concorrer e não apresentou a sua candidatura, concorreu a chefe dos guardas da alfândega do Porto, mas em nenhum caso teve sucesso. Teve de fazer dois leilões dos seus livros para juntar o produto à venda dos seus romances e dos artigos para os jornais. E, no fim da vida, percebendo que os filhos ficavam sem sustento financeiro, teve de implorar à coroa, via António Feliciano de Castilho e Tomás Ribeiro, uma subvenção para o seu filho Jorginho (o “doidinho”) e o titulo nobiliárquico de Visconde Correia Botelho (que cedeu ao segundo filho, Nuno, um estroina e viciado no jogo). Por estes motivos, Teixeira de Pascoaes escreveu uma biografia poética de CCB que intitulou O Penitente.

Em 2024, os restos mortais de Eça de Queirós deram entrada no Panteão, e nós perguntámo-nos: – e CCB? O panteão, relativo à segunda metade do século XIX, fica desfalcado sem o corpo de CCB. Percebemos que as duas últimas gerações foram privilegiadas no ensino secundário no estudo de Eça e não há jovem que não conheça o seu estilo e os conflitos d’Os Maias. Houve uma espantosa coincidência civilizacional entre o tempo do Eça (o liberalismo, a Regeneração de Fontes Peeira de Melo e a atualização industrial e tecnológica de Portugal: os telégrafos, o gás, a eletricidade, o comboio, o barco a vapor, o macadame…) e a evolução de Portugal no pós-25 de Abril com a nossa adesão à Europa e a nossa atualização industrial e tecnológica (toda a gama de produtos eletrónicos, as autoestradas, o consumismo, o ensino para todos…) O mundo representado nos romances de CCB é diferente do representado no mundo do Eça, para facilitar a compreensão talvez seja o seu contrário. O do Eça é um mundo burguês de funcionários do Estado com os restos da fidalguia aburguesada com raízes na França  e a presença ameaçante da República, é um mundo decadente majestosamente sintetizado no Portugal Contemporâneo (1881) de Joaquim Pedro Oliveira Martins. Sabemos como esse Portugal acabou (o Ultimatum, a falência financeira do Estado, os “Vencidos da Vida” que se sentiam mesmo vencidos – eram todos eles homens fracassados, Eça não publica nenhum  romance depois d’Os Maias e morre em 1900, Oliveira Martins vira-se para os filhos de D, João I e para a vida de D, João II e ameaça suicidar-se, segundo as cartas de Eça de Queirós para a mulher – o assassínio de D. Carlos, a emergência de uma República radical em 1910), não sabemos, evidentemente, como o 25 de Abril acabará, mas a emergência do radicalismo da extrema-direita e a decadência da Europa não auguram que acabe bem. A coincidência civilizacional destes dois momentos do tempo português fez que, finalmente, parecesse bem Eça ser elevado ao panteão.

O mundo de CCB é um mundo anterior ao do Eça, seja socialmente, seja no campo da história da língua portuguesa, seja no campo da história da ideologia.  O mundo representado nos romances e nos artigos de jornal de CCB é um mundo de decomposição da aristocracia provinciana que se opõe ao lavrador e ao mercador, um mundo de fidalgos com muita honra, mas sem dinheiro; um mundo de conventos, abades e abadessas; um mundo onde os pais tinham poder ditatorial sobre os filhos; um mundo onde a mulher era naturalmente inferior ao homem e não pensava libertar-se; um mundo onde as emoções, os sentimentos e as paixões são dominantes (ao contrário do racionalismo de Eça); um mundo onde a maioria das personagens é analfabeta; um mundo onde os operários são escassos, substituídos pelos artesãos; um mundo onde os criados ainda eram lacaios e os escriturários “assistentes”; um mundo onde os empregados de armazéns eram caixeiros e marçanos e os agentes da Justiça eram aguazis; um mundo em que o cristianismo era a religião oficial de Portugal e quem faltasse à missa de domingo era considerado marginal (como CCB no Porto ou em São Miguel de Seide); um mundo onde o adultério da mulher era o maior dos escândalos (cf. Romance dum Homem Rico, o melhor romance de Camilo e o seu preferido). 

A este mundo corresponde uma linguagem vernacular e tradicional, uma linguagem do campo e da agricultura, uma linguagem do artesanato e da aldeia, que desaparecem com Eça e que nos obriga, hoje, a ler CCB  com o dicionário ao lado, e um bom dicionário. Mas corresponde a um momento fundamental da história da língua, que já não condiz com a eloquência arcádica da nobreza do século XVIII e ainda não é uma linguagem burguesa realista, à imitação da francesa da época.

Ideologicamente, CCB parece defender os legitimistas de D. Miguel enquanto os vencedores históricos foram os liberais de D. Pedro IV, e quando a burguesia toda, inclusive os Republicanos, incensavam o Marquês de Pombal nas comemorações do primeiro centenário da sua morte, CCB escreveu um ensaio (O Perfil do Marquês de Pombal) em que o arrasa como um ditador sem coração. Igualmente, condenou o assassínio de dois lentes de Coimbra pelos estudantes radicais liberais em 1828 que iam saudar D. Miguel em nome da Academia, retratando-o em dois romances, A Viúva do Enforcado e O Retrato de Ricardina.

Se Eça possui o espírito burguês que é o nosso, e, por isso, o lemos como se fosse um nosso companheiro, hoje estamos totalmente fora do mundo de CCB, mas isso não significa que ele seja inferior ao Eça. Só um ignorante da literatura pode afirmar uma calinada dessas. Sei do que falo, pois escrevi um livro sobre Eça (O Último Eça) e um romance sobre Eça (A Visão de Túndalo por Eça de Queirós).

E há mais duas razões, que não são bem razões, mais motivações ou inclinações, digamos. A primeira e talvez a mais importante, é que os restos mortais de CCB repousam, a seu pedido, no Porto, no então novo cemitério da Lapa, no jazigo da família Freitas Fortuna, seu grande amigo. A segunda, é que CCB é o patriarca de uma dinastia de escritores do Norte: Campos Monteiro, Tomás de Figueiredo, João de Araújo Correia, Miguel Torga (dos Contos da Montanha), Ruben A. (de Torre de Barbela), Agustina, Vasco Graça Moura, A. M. Pires Cabral, Mário Cláudio, Viale Moutinho, Francisco Duarte Mangas e Isabel Rio Novo.

Talvez seja a hora de lhe prestarmos uma última homenagem levando o seu corpo para o Panteão, depositando-o ao lado de Eça, as duas grandes faces literárias do rosto de Portugal na segunda metade do século XIX.

Miguel Real

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